segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

SANTO AGOSTINHO por Hamilton Soares Canfield Advogado e Delegado aposentado


Sempre li muitos textos e alguns livros de Santo Agostinho, de uma forma muito cativante foi me conquistando a fazer uma reflexão sobre muitas coisas.
Roberta Carrilho



Ao reencarnar em Tagaste, o filho de Mônica e Patrício, Aurélio Augusto, no ano de 354, o lugar, que é hoje é território argelino, era, à época, dominado pelo Império Romano, Aurélio Augusto, bispo de Hipona, foi canolizado SANTO AGOSTINHO, um homem brilhante, autor demais de 100 livros e tratados, 250 cartas e 500 sermões. Sua obra literária foi escrita em um período de difícil unanimidade acerca do pensamento cristão, desde que os seus contemporâneos gravitavam em torno de mais de 20 tipos de cristianismos, representados por donatistas, pelagianos e maniqueístas, dentre outros.

Essa pluralidade facultou a Agostinho uma discordância feliz, conquanto tivesse vivido durante nove anos como maniqueísta, levando consigo os amigos íntimos, convencidos por sua inteligência exuberante. Ao converter-se pelo batismo, Agostinho contava com 33 anos. Mônica sentiu-se realizada, pois dedicara sua vida exclusivamente em fazer Agostinho tornar-se membro ativo da igreja. Após consegui-lo, Mônica desencarnou, certamente por entender cumprida sua missão terrena.

Pesquisar arguto, utilizava em sua obra a metodologia socrática, buscando resolver, através do diálogo com seus amigos,sobretudo Evódio e seu filho Adeodato, questões filosóficas sobre o ceticismo, o livre-arbítrio, o dualismo mente-corpo, o significado dos números e das palavras, a origem do mal, a felicidade e a verdade, trabalho esse sempre auxiliado por um escriba, permitindo, desde logo, que se perceba a atualidade de alguns enfoques do seu acervo literário.

O amor à filosofia adquiriu após a leitura da obra de Cícero quando contava 19 anos. Ao ler Hortensius, confidenciou: "ele mudou o meu modo de sentir".

A trajetória existencial de Agostinho, até o ano de 397 então, com idade de 43 anos, foi parcialmente descrita em "Confissões". Esse livro, um monólogo, é considerado por muitos escritores uma autobiografia religiosa, tendo o autor escrito: " livro para os servos de Deus ou homens especiais, ou homens de respeito". Nessa obra, ele expõe o drama de uma consciência dramaticamente coltada à mudança espiritual do pensamento e, consequentemente, do comportamento  enfatizando-se o devoto a Deus. Considerava-se envolto em trama própria, quando afirma, mesmo com algumas expectativas: "Há, de fato, uma certa luz nos homens, mas eles que andem depressa, para que as trevas não os alcancem". Mais adiante, revela sua força interior: "o homem não pode ter esperança de encontrar Deus se não encontrar antes a si mesmo".

Nesse modo peculiar de entender a vida, Agostinho previu que o autoconhecimento é o caminho seguro para o homem mudar e encontrar o Criador. Torna-se, assim, um dos percursores da doutrina espírita, constatação inserida na obra "O livro do Espíritos", mediante sua colaboração a Kardec, ao discorrer em sua mensagem sobre "autoconhecimento", constante do Capítulo XII - Perfeição moral, na mecânica processual de nos conhecermos a nós mesmos.

Ainda em Confissões, reporta-se Agostinho à dificuldade de se autoconhecer, enfatizando: "o grande abismo é o homem, Senhor! Há no homem uma região da qual nem seu espírito tem conhecimento". Desse modo, retrata a circunstancial singularidade do ser humano, com suas experiências passadas e as premissas instintivas que, secularmente, impregnam o espírito.

Desse modo, irradia-se o pensamento de Agostinho, fluindo em perceptível relação com a Doutrina Espírita, na conformidade com que a seguir se deflui.

Como pensador e escritor fiel a si mesmo, Agostinho especula em: "Sobre a potencialidade da alma", em diálogo com seu amigo Evódio, que lhe indagara, inicialmente  sobre a origem da alma, qual a sua natureza, sua potencialidade, por que foi unida ao corpo, como atua unida ao corpo, e quando está separada desse corpo? Ele responde: "creio que a pátria de origem da alma é Deus que a criou; tem natureza própria porque assim lhe foi concedido por Deus". Adiante, descreve: "Logo a verdade permanecerá, mesmo que o mundo desapareça. Pois a verdade é um conhecimento da inteligência, potência do espírito. E se a verdade permanece, é porque o conhecimento permanece, portanto a verdade, como permanência, indica a imortalidade do espírito".

Aproxima-se, novamente, dos postulados doutrinários quando enuncia: "O que chamamos magnitude nas qualidades morais, ou virtudes, não se refere ao espaço em sentido específico, mas em certa potência ou força moral da alma. E tal virtude é tanto mais estimável quanto mais é distante das coisas materiais".

Nesse diapasão, acrescenta: "temos que admitir na alma uma potencialidade própria, dando mais confiança e decisão, presente em uns, ausente em outros, fazendo entender até onde a alma é superior ao corpo, inclusive naquilo que ela faz através do corpo". É o que ele chama de: "o impulso da alma". Nesse enfoque, Agostinho faz alusão à diversidade, ao heterogêneo social, no modo em que se diferencia e se projeta a desigualdade das aptidões de cada espírito, prenunciando o que está enunciado na Lei de Igualdade (O livro dos Espíritos).

A fé em Deus, ou a ciência da fé, é o tema de Agostinho na composição de "A cidade de Deus", em dois volumes, entremeando fatos históricos que repercutiram no Império Romano, compondo nessa obra uma interpretação concreta desses fatos, à luz da fé. Ao argumentar sobre a perfeição da Criação, destaca: "se o homem foi criado para atingir, pela excelência do ser, o Ser por excelência, quer dizer, o único Deus verdadeiro, soberanamente bom, sem o qual natureza alguma subiste  nenhuma ciência instrui e nenhum costume convém, busquem-no onde tudo é segurança, contemplem-no aonde tudo tudo é certeza, amem-no onde tudo é justiça". Ele consubstancia a "ciência da fé" como o conhecimento da fé, predispondo, pela racionalidade da fé, sobretudo em Deus; o que também o aproxima filosoficamente da Doutrina Espírita.

É importante mencionar o valor histórico dessa obra, além de conteúdo teológico e filosófico de suma significação enciclopédica, inclusive sobre ocorrências relevantes do Século V, como ainda pela singular apologia feita à religião.

Agostinho desencarnou em 430, aos 76 anos, em momento crucial decorrente da invasão iminente de Hipona pelos bárbaros, os quais se aproximavam celeremente do território de seu bispado. Vamos reencontrá-lo muito ativo, e com a mesma inteligência, na colaboração espiritual às obras básicas do Espiritismo, especialmente no "O livro dos Espíritos" e no "Evangelho Segundo o Espiritismo", expondo suas sábias mensagens, sempre identificadas com o Evangelho de Cristo.

Hamilton Soares Canfield
Advogado e Delegado aposentado


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