domingo, 11 de julho de 2021

SEXO ANAL, O ÚLTIMO TABU DO HOMEM HÉTERO


Eu sei que todos nós somos bissexuais de alguma ou de muitas formas, seja biologicamente ou por atração ou curiosidade. Tabus, preconceitos, medos, receios, recalques, e tudo mais que trava sua essência é perda de tempo e vida (plena). O importante numa relação a dois ou três num poliamor por exemplo estejam presentes: a reciprocidade, respeito, atenção, lealdade e amor. Com esses fatores  além da atração e admiração só sei que tudo vale a pena quando a alma não for pequena. Não vejo mal algum em viver e ser feliz desde que não machuque os sentimentos de outrem. O corpo é um instrumento de vida e vida significa também sexo de boa qualidade e criatividade.
Roberta Carrilho
Não cabe dúvida de que o ânus é uma zona erógena com uma enorme carga simbólica, cultural e social. Durante muito tempo foi o anticoncepcional mais seguro e a única maneira que as mulheres tinham de chegar virgens ao casamento, embora não inexperientes. Talvez por isso, entregar o traseiro era sinônimo de lascívia e entranhava também um grau importante de submissão.

Na Grécia e Roma antigas, como conta Valérie Tasso em um artigo a respeito, “não existia nenhum impedimento pelo qual essa zona não pudesse ser utilizada por um homem para o prazer, independentemente de que fosse o ânus de uma mulher ou o de outro homem. Só havia uma regra de ouro que nenhum homem que se prezasse podia violar: devia ser sempre o agente ativo, e nunca um mero sujeito passivo (isso era coisa de mulheres, escravos ou efebos).

Há alguns anos, começou a falar-se do bud sex (bud nesse contexto significa colega ou amigo). Homens héteros que mantêm relações homossexuais, mas que não se consideram gays. Além disso, muitos exibem também condutas um tanto homofóbicas.

Em 2017, um sociólogo da Universidade do Oregon, Tony Silva, dedicou-se a estudar este fenômeno, que ocorria geralmente entre homens brancos que viviam num meio rural, nos EUA. Silva, a quem entrevistei para um artigo, relacionava esta prática aos múltiplos fatores que afetam a identidade sexual, como a cultura, o contexto social, o lugar, o momento histórico e as interpretações pessoais. “De fato”, dizia este sociólogo, “as identidades sexuais, tal como as conhecemos hoje em dia (héteros, gays, lésbicas, bissexuais etc.), só foram classificadas entre meados e o final do século XIX, e a forma de entendê-las não é a mesma em todo o mundo. Mas não só isso: como se viu no estudo, pessoas com a mesma cultura podem ter práticas sexuais similares, mas interpretá-las de formas distintas, dependendo do conceito que tenham da sua própria sexualidade”.

Para Silva o termo bud sex poderia ser aplicado àquelas relações que seus participantes interpretam como ajudar um amigo (em que está ausente o fator romântico), entre homens brancos e heterossexuais, ou secretamente bissexuais. São encontros secretos, sem consequências e sem associação nenhuma a ideias como feminilidade ou homossexualidade.

Nesta evolução da conduta sexual, alguns homens cogitam agora explorar, na própria carne, o prazer que o sexo anal pode lhes proporcionar com suas parceiras. “Mas fazem isso muito timidamente e procurando sempre uma permissão profissional ou social”, observa Raúl González Castellanos, sexólogo, psicopedagogo e codiretor do Ars Amandi, centro de terapias sexológicas e psicológicas em Madri.

“O beijo negro ou anilingus [estimulação oral do ânus], praticado por sua parceira, é algo mais fácil de aceitar para um hétero, mas o fato de ser penetrado já é outro assunto”, diz González Castellanos. Serena, massagista erótica que trabalha em Madri e se anuncia na Internet, reconhece que muitos homens lhe pedem o extra do pegging (penetração anal com um dildo e um arnês). 

“São heterossexuais, mas querem provar esta prática ou já a provaram e acham muito excitante. Entretanto, não se atrevem a pedir às suas mulheres ou parceiras, por medo da sua reação”, conta Serena.
Anos atrás, guardei um recorte do EL PAÍS sobre um espetáculo — um monólogo que a atriz Isabelle Stoffel apresentou na capital espanhola e no Festival do Edimburgo, lá por 2013. A obra se chamava A Rendição, falava de sexo anal, e Stoffel argumentava teorias como estas: 

“No cu, a verdade sempre vem à luz. Um pau num cu é como a agulha de um detector de mentiras. O cu não mente: se ele mente, dói em você”. Ou esta outra: “Na sodomia, confiança é tudo. Se você resistir, podem te machucar de verdade. Com esta prática aprendi muito, mas sobretudo aprendi a me render”.

O ponto G masculino

“A zona localizada entre os testículos e o ânus (incluindo também este) é uma zona muito sensível”, diz Marta Jesús Camuñas, sexóloga e psicóloga da Amaltea, centro de educação e medicina sexual em Zaragoza. Aí fica o períneo e muitos localizam o ponto G masculino, no interior do reto, a 4 ou 6 centímetros de profundidade. “É uma zona em contato com a próstata, que alguns homens relacionam com uma sensação muito prazerosa. Embora, como ocorre no sexo, o prazer dependa de muitos fatores, além do fisiológico. Há a situação e a companhia com confiança e entrega sem medos ou receios de qualquer críticas ou censuras que influenciam poderosamente no desejo”, afirma a especialista.

Os benefícios da massagem prostática é outro dos argumentos que os curiosos ou os amantes desta prática esgrimem. “Qualquer parte do corpo que receba uma estimulação correta será beneficiada”, comenta González Castellanos, “mas ainda se sabe pouco a respeito, embora já tenha ficado demonstrado que a ejaculação frequente não é boa apenas para a espermatogênese [produção de espermatozoides], mas também para adiar os problemas de próstata, apesar de antigamente dizerem que estes transtornos eram o castigo divino aos homens promíscuos. Levar a zona anal em conta também pode ser uma opção sexual a mais para homens que, por determinadas circunstâncias, não tenham ereções”, conclui o sexólogo.

Para os que estiverem dispostos a explorar a porta de trás, sem medo das etiquetas ou preconceitos, González aconselha que “seja algo combinado entre as partes e que haja um mínimo ingrediente de curiosidade e desejo. É preciso também reforçar a higiene e ir muito devagar, já que a musculatura do esfíncter anal é concêntrica e será preciso dilatá-la pouco a pouco”. As lojas de brinquedos eróticos já dispõem de pequenos dildos e de lubrificantes especialmente desenvolvidos para essa área delicada. A zona da verdade, como a chamava Stoffel.

Relembrando a primeira vez que eu assisti o filme "Brokeback Mountain" eu fiquei pensativa e muito interessada nos sentimentos ali expostos. Eu não vi mal algum na narrativa e mesmo com um pouco mais de 30 anos. Penso que minha alma sempre foi assim, evoluída, progressista, livre de tabus. E eu tenho muito orgulho desta parte de mim.

Pra quem não sabe, um resumo básico da trama: dois vaqueiros, Ennis Del Mar (um impressionante Heath Ledger e Jack Twist (um ainda superior Jake Gyllenhaal, que se entrega com uma intensidade singular) são mandados para a Montanha Brokeback para uma temporada cuidando de um rebanho de ovelhas. Ambos nos seus vinte e poucos anos, começando a vida adulta, acabam se apaixonam um pelo outro. A relação, a princípio meramente sexual, logo se transforma em carinho, solidariedade e amor.

Porém estamos nos anos 60 do século passado, e o local é o interior do estado de Wyoming, região e tempo marcado pelo conservadorismo. O que significa que a vida não seria nada fácil para um casal homossexual. Por isso os dois se afastam quando o trabalho termina, indo cada um para um lado com a intenção de construir uma vida “normal”: com esposa, filhos, trabalho, muito tédio e insatisfação. 

Ambos tentam manter submersos os verdadeiros sentimentos que permeiam suas vidas, mas não são bem-sucedidos. Após alguns anos, o destino trata de colocá-los novamente lado a lado, para juntos construírem uma história tão íntima quanto universal.

Esta deve ser a primeira ideia a se ter a respeito de O Segredo de Brokeback Mountain: este não é um filme gay, simplesmente. Seu contexto é muito mais amplo e complexo. Trata-se um romance proibido, acima de tudo, com tudo de bom e triste que esta expressão possa compreender. 

São duas pessoas apaixonadas uma pela outra e que pela condição em que se encontram se vêem impossibilitadas de ficarem juntas. Poderia ser uma questão racial, de idade, religiosa ou familiar, como tantas outras ocasiões o cinema tão bem tratou de mostrar no passado. Mas não, o foco desta vez é o sexo – no caso dois homens, completamente entregues um ao outro, no amor, na raiva, no sentimento de injustiça e na sensação de não saber qual o melhor rumo tomar. Não que eles não tentem – todos sempre tentam – mas o mundo lá fora é mais forte, ao menos na maior parte do tempo.


Tinha tudo para dar errado. O diretor poderia não ter a sensibilidade suficiente para lidar com o drama que tinha em mãos. O roteiro – baseado no texto de Annie Proulx – poderia abusar da ocasião e explorar outros ângulos mais rasos e menos nobres. 

Os atores envolvidos talvez não fossem dignos da tarefa a qual foram incumbidos, dotados dos mesmos receios que os personagens vivenciam na ficção. Ou, pior ainda, talvez o próprio mundo – a sociedade, a mídia, a indústria cultural – não estivesse pronto para se deparar com algo aparentemente tão explosivo e polêmico.

Felizmente, no entanto, nenhuma destas percepções se confirmou. E o que vemos é um filme romântico, sim, mas que trata de temas identificáveis por qualquer audiência, não importando o sexo, a idade, o credo ou a ideologia do espectador. O necessário, aqui, é se despir de preconceitos e julgamentos cegos e se deixar abrir para uma realidade que nada tem de estranha ou exótica – muito pelo contrário, é, sim, basicamente, comum a mim, a você e a qualquer um de nós. A mensagem de O Segredo de Brokeback Mountain é o puro e verdadeiro amor, contado com extrema competência por todos os envolvidos, assumido com coragem pelos talentos responsáveis e entregue com paixão à vida.

link do filme completo - adoro cinema 




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