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segunda-feira, 25 de maio de 2020

AOS EX-AMIGOS, CÚMPLICES DA BARBÁRIE por José Eduardo Gonçalves



(Texto do jornalista José Eduardo Gonçalves, publicado originalmente em seu perfil, no Facebook e, por sua qualidade e lucidez, o Mondolivro publica, com a devida autorização do autor)

Não sei quando tudo isso começou. Quando foi que pessoas que eu gostava, convivia, conversava afetuosamente e, em alguns casos, até admirava pelo exercício talentoso de seus ofícios, se transformaram em seres irracionais, irresponsáveis e levianos, defensores de ideias autoritárias, mesquinhas, rasas, preconceituosas, medievais e, em muitos casos, até fascistas. Quando foi, afinal, que pessoas que tinham uma conduta social equilibrada e pareciam olhar o mundo pela mesma janela que você – cada um à sua maneira, claro – viraram esta coisa esquisita que já não reconheço como próxima de alguma civilidade? Em Kafka, um sujeito acorda pela manhã transformado em um inseto asqueroso. A família reunida, cada um em seu papel, mas o filho surge como uma anomalia, de um dia para o outro, sem qualquer explicação. Kafka foi muito mais fundo nessa história do que esse filme de quinta categoria ao qual estou me referindo, mas confesso que não vi como a coisa se deu, apenas acordei um dia e vi como o meu mundo anda cheio de insetos repugnantes. De radicais defensores de ideias tão obtusas quanto irresponsáveis. Também não foi assim tão de repente, a coisa vem acontecendo há um bom tempo, é verdade, mas hoje sinto como se esses bichos escrotos tivessem se consolidado à minha frente. Eu os enxergo em toda a sua pequenez.

O estopim desta clarividência – em relação à abjeta transformação de certos seres humanos – foi o vídeo da fatídica reunião ministerial do dia 22 de abril, em que o presidente reuniu sua claque para tratar do enfrentamento da crise da pandemia, assunto sobre o qual não se falou durante mais de duas horas de sandices, agressões e exibição de ideias golpistas. O vídeo é assustador, mas não é dele que quero falar, não em primeiro lugar. É da reação de pessoas que, voltando ao primeiro parágrafo, revelaram-se pior do que o farsesco personagem central da trama. Faço um voo no tempo. Em 1993, como bem lembrou aqui um querido amigo, eu escrevi uma crônica na IstoÉ Minas que começava assim: “Não posso reclamar dos meus amigos: são os mais estranhos que eu poderia arrumar”. No texto, falo de alguns, invento outros (que são, na verdade, bem reais), presto meu tributo à esquisitice de tantos. O fato é que gosto de gente estranha, diferente, só para ficar claro que não me compraz apenas a companhia de gente normal. Eu diria, até, que os normais me interessam pouco. Só que uma coisa é ser estranho – e outra é ser estranhamente nocivo.

Muito bem, de ontem pra hoje me peguei lendo opiniões de muita gente sobre o tal vídeo onde se pregou a desobediência sanitária na base da porrada, a prisão de representantes eleitos pelo povo, a desqualificação de adversários, a intromissão na Polícia Federal para proteger os entes queridos, o desmantelamento das leis ambientais na calada da noite etc etc etc. Um monte de gente reagiu dizendo que o vídeo é o passaporte para a reeleição do Ogro. No meio desta gente que aplaude e acha adequado esse conjunto de sandices há pessoas que conheço. Tem artista, designer, arquiteto, advogado, fotógrafo, médico, engenheiro, empresário, gente da moda etc etc. Pessoas com quem já convivi, conversei, compartilhei opiniões. Pessoas que, em alguns casos, cheguei a admirar. Que chamei de amigos. Como é que essas pessoas se tornam, de repente, cúmplices de uma barbárie colossal?

Convivo com conservadores e até com pessoas de uma direita civilizada, educada, capaz de divergir sem agredir. Os ex-amigos não se colocam no campo da direita civilizada. Porque Bolsonaro não é isso. Não é um conservador, nem um bocó simplesão, um sujeito sem modos e sincerão, que gosta das coisas direitinhas. Um sujeito que quer o bem do país. Ele está longe desse figurino. Ele não é nem da direita. Bolsonaro é o radical fundamentalista da extrema direita em sua pior versão (não esqueçamos: ele já defendeu publicamente o fechamento do Congresso e o fuzilamento de adversários políticos, em entrevista a uma emissora de televisão, em 1999 – “para dar jeito no Brasil, só matando uns 30 mil”, o que incluiria, no caso, até mesmo o então presidente Fernando Henrique Cardoso). Ele tem como herói o único torturador reconhecido e condenado como tal no Brasil.

Mas isso é história já sabida.

Voltemos ao vídeo estarrecedor, tal o seu caráter pedagógico ao revelar, com clareza euclidiana, o que pensam os bolsonaristas e o que eles estão tramando, em todas as frentes – na saúde, na educação, na segurança pública, na questão ambiental, na diplomacia internacional, na convivência com a democracia. Está tudo lá, sem retoques. E há quem diga: “antes do vídeo eu era 100% Bolsonaro, agora sou 500% Bolsonaro”. E daí?

Daí que não suporto gente assim. Fui capaz de entender aqueles que se desapontaram com os rumos da economia e com as revelações sobre corrupção no centro do poder, prática secular no país. Mas era preciso optar pelo esgoto, pela escuridão, a ignorância e a truculência? Eu divirjo respeitosamente de conservadores. De fascistas, torturadores e retrógrados eu quero distância. Não fui eu que tachei Bolsonaro de o pior líder mundial da atualidade. Nem foi a mídia esquerdista ou comunista que afirmou que ele é hoje a maior ameaça ao mundo. Quem está chocado com o Ogro são eles, os jornalões da direita global. É o The Economist, a Bíblia dos liberais da economia. É a maior referência do jornalismo econômico no mundo – o Financial Times. É o The Guardian. O New York Times. É a grande mídia conservadora do mundo que está assustada com o baixíssimo nível de quem ocupa a presidência no Brasil.

A reunião ministerial de 22 de abril de 2020 está fadada a entrar para a história da República brasileira. Um registro cru dos intestinos da gente que nos governa. Um acinte de tal ordem que não cabe mais qualquer dúvida: quem é Bolsonaro que assuma, de uma vez por todas, o ônus de carregar o pacote de ideias que ele encarna. Sem mimimi. Não tem mais disfarce ou joguinho de cena. Depois de ver aquelas imagens podres não há saída: ou se está de um lado ou de outro. Ou se defende aquelas ideias ou se é contra. Simples. Mas necessário.

Necessário porque o mundo é uma construção coletiva, queiram ou não. E o mundo no qual eu acredito e pelo qual luto é imperfeito e cheio de defeitos, mas é um mundo de razoável civilidade. De valores consagrados universalmente. E até de razoável otimismo. Só os muito cretinos ou intelectualmente falsos são capazes de negar que, aos trancos e barrancos, a sociedade brasileira vinha construindo um percurso de avanços desde a redemocratização. Estão aí conquistas como a criação do SUS, a estabilização da moeda, a universalização do ensino, o avanço dos direitos humanos, os programas de redução da desigualdade social (como o Bolsa Família), entre tantas outras. Hoje vivemos a ameaça da degringolada geral. A ordem é destruir o que está aí. É interromper o fluxo que nos impelia a ser melhores do que tínhamos sido até então.

Não quero este mundo medíocre que tentam nos empurrar goela abaixo, definitivamente. Confesso a minha impossibilidade de conviver sadiamente com quem quer me matar e aos meus semelhantes. Aos que continuam apoiando o genocida de plantão, um convite à coragem. Isso mesmo, assumam que Bolsonaro os representa em seus valores e ideias. Aos que aplaudiram as infâmias ditas no vídeo, sugiro que façam camisetas com os seguintes dizeres:

EU SOU BOLSONARO E EU APOIO:

– A tortura e os torturadores
– O povo armado contra as medidas de controle da epidemia
– A prisão de governadores e ministros do Supremo
– O uso da Polícia Federal para proteger minha família e meus amigos
– A quebra das leis de proteção ambiental
– Qualquer ataque à cultura, às artes e aos artistas
– O sucateamento da universidade pública e da ciência
– O extermínio dos povos indígenas
– A milícia e os heróis milicianos
– A censura à produção intelectual
– As hostilidades contra a Imprensa e os jornalistas

Façam isso, ex-amigos e conhecidos. Saiam às ruas (sem máscaras, obviamente) com esses dizeres estampados em suas camisetas e faixas ornadas de patriotismo. Pois é isso, de fato, o que vocês estão defendendo. Quem apoia Bolsonaro é cúmplice desse pacote de horror. Nessa altura da nossa história, não existe meio termo. Ou você é ou não é a favor dessas ideias.

No momento em que escrevo o Brasil é o segundo país do mundo em casos confirmados de contaminação pelo coronavírus. São quase 350 mil infectados e mais de 22 mil mortes (amanhã serão muito mais). Enquanto isso, o presidente que os traidores da democracia elegeram cospe seus perdigotos defendendo que se arme a população para lutar contra as medidas de contenção da epidemia. Se isso não é a barbárie, então o que seria?


sábado, 13 de abril de 2019

CEM DIAS SOB O DOMÍNIO DOS PERVERSOS por Eliane Brum


CEM DIAS SOB O DOMÍNIO DOS PERVERSOS - EL PAIS 


A vida no Brasil de Bolsonaro: um Governo que faz oposição a si mesmo como estratégia para se manter no poder, sequestra o debate nacional, transforma um país inteiro em refém e estimula a matança dos mais frágeis

Os 100 dias do Governo Bolsonaro fizeram do Brasil o principal laboratório de uma experiência cujas consequências podem ser mais destruidoras do que mesmo os mais críticos previam. Não há precedentes históricos para a operação de poder de Jair Bolsonaro (PSL). Ao inventar a antipresidência, Bolsonaro forjou também um governo que simula a sua própria oposição. Ao fazer a sua própria oposição, neutraliza a oposição de fato. Ao lançar declarações polêmicas para o público, o governo também domina a pauta do debate nacional, bloqueando qualquer possibilidade de debate real. O bolsonarismo ocupa todos os papéis, inclusive o de simular oposição e crítica, destruindo a política e interditando a democracia. Ao ditar o ritmo e o conteúdo dos dias, converteu um país inteiro em refém.

A violência de agentes das forças de segurança do Estado nos primeiros 100 dias do ano, como a execução de 11 suspeitos em Guararema (SP), pela polícia militar, e os 80 tiros disparados contra o carro de uma família por militares no Rio de Janeiro, pode apontar a ampliação do que já era evidente no Brasil: a licença para matar. Mais frágeis entre os frágeis, os ataques a moradores de rua podem demonstrar uma sociedade adoecida pelo ódio: em apenas três meses e 10 dias, pelo menos oito mendigos foram queimados vivos no Brasil. Bolsonaro não puxou o gatilho nem ateou fogo, mas é legítimo afirmar que um Governo que estimula a guerra entre brasileiros, elogia policiais que matam suspeitos e promove o armamento da população tem responsabilidade sobre a violência.

Este artigo é dividido em três partes: perversão, barbárie e resistência.

1) A Perversão
Tanto a oposição quanto a imprensa quanto a sociedade civil organizada e até mesmo grande parte da população estão vivendo no ritmo dos espasmos calculados que o bolsonarismo injeta nos dias. É por essa razão que me refiro à “perversão” no título deste artigo. Estamos sob o jugo de perversos, que corrompem o poder que receberam pelo voto para impedir o exercício da democracia.

Como tem a máquina do Estado nas mãos, podem controlar a pauta. Não só a do país, mas também o tema das conversas cotidianas dos brasileiros, no horário do almoço ou junto à máquina do café ou mesmo na mesa do bar. O que Bolsonaro aprontará hoje? O que os bolsojuniores dirão nas redes sociais? Qual será o novo delírio do bolsochanceler? Quem o bolsoguru vai detonar dessa vez? Qual será a bolsopolêmica do dia? Essa tem sido a agenda do país.

Mas essa é apenas parte da operação. Para ela, Bolsonaro teve como mentor seu ídolo Donald Trump. O bolsonarismo, porém, vai muito mais longe. Ele simula também a oposição. Assim, a sociedade compra a falsa premissa de que há uma disputa. A disputa, porém, não é real. Toda a disputa está sendo neutralizada. Quando chamo Bolsonaro de “antipresidente”, não estou fazendo uma graça. Ser antipresidente é conceito.

O bolsonarismo simula a sua própria oposição, neutralizando a oposição real e silenciando o debate

Quem é o principal opositor da reforma da Previdência do ultraliberal Paulo Guedes, ministro da Economia? Não é o PT ou o PSOL ou a CUT ou associações de aposentados. O principal crítico da reforma do “superministro” é aquele que nomeou o superministro exatamente para fazer a reforma da Previdência. O principal crítico é Bolsonaro, o antipresidente.

Como quando diz que, “no fundo, eu não gostaria de fazer a reforma da Previdência”. Ou quando diz que a proposta de capitalização da Previdência “não é essencial” nesse momento. Ou quando afirmou que poderia diminuir a idade mínima para mulheres se aposentarem. É Bolsonaro o maior boicotador da reforma do seu próprio Governo.

Enquanto ele é ao mesmo tempo situação e oposição, não sabemos qual é a reforma que a oposição real propõe para o lugar desta que foi levada ao Congresso. Não há crítica real nem projeto alternativo com ressonância no debate público. E, se não há, é preciso perceber que, então, não há oposição de fato. Quem ouve falar da oposição? Alguém conhece as ideias da oposição, caso elas existam? Quais são os debates do país que não sejam os colocados pelo próprio Bolsonaro e sua corte em doses diárias calculadas?

É pelo mesmo mecanismo que o bolsonarismo controla as oposições internas do Governo. Os exemplos são constantes e numerosos. Mas o uso mais impressionante foi a recente ofensiva contra a memória da ditadura militar. Bolsonaro mandou seu porta-voz, justamente um general, dizer que ele havia ordenado que o golpe de 1964, que completou 55 anos em 31 de março, recebesse as “comemorações devidas” pelas Forças Armadas. Era ordem de Bolsonaro, mas quem estava dizendo era um general da ativa, o que potencializa a imagem que interessa a Bolsonaro infiltrar na cabeça dos brasileiros.

Ao mandar comemorar o golpe de 1964, Bolsonaro deu um golpe na ala militar do seu próprio governo

Aparentemente, Bolsonaro estava, mais uma vez, enaltecendo os militares e dando seguimento ao seu compromisso de fraudar a história, apagando os crimes do regime de exceção. Na prática, porém, Bolsonaro deu também um golpe na ala militar do seu próprio Governo. Como é notório e escrevi aqui já em janeiro, os militares estão assumindo – e se esforçando para assumir – a posição de adultos da sala ou controladores do caos criado por Bolsonaro e sua corte barulhenta. Estão assumindo a imagem de equilíbrio num Governo de desequilibrados.

Esse papel é bem calculado. A desenvoltura do vice general Hamilton Mourão, porém, tem incomodado a bolsomonarquia. O que pode então ser mais efetivo do que, num momento em que mesmo pessoas da esquerda têm se deixado seduzir pelo “equilíbrio” e “carisma” de Mourão, lembrar ao país que a ditadura dos generais sequestrou, torturou e assassinou civis?

Bolsonaro promoveu a memória dos crimes da ditadura pelo avesso, negando-os e elogiando-os. Poucas vezes a violência do regime autoritário foi tão lembrada e descrita quanto neste 31 de março. Foi Bolsonaro quem menos deixou esquecer os mais de 400 opositores mortos e 8 mil indígenas assassinados, assim como as dezenas de milhares de civis torturados. Para manter os generais no cabresto, Bolsonaro os jogou na fogueira da opinião pública fingindo que os defendia.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro lembrou aos generais que são ele e sua corte aparentemente tresloucada quem faz o serviço sujo de enaltecer torturadores e impedir que pleitos como o da revisão da lei de anistia, que até hoje impediu os agentes do Estado de serem julgados pelos crimes cometidos durante a ditadura, vão adiante. Como berrou o guru do bolsonarismo, o escritor Olavo de Carvalho, em um de seus ataques recentes contra o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria de Governo da presidência: 

“Sem mim, Santos Cruz, você estaria levando cusparadas na porta do Clube Militar e baixando a cabeça como tantos de seus colegas de farda”.

A ditadura deixou marcas tão fundas na sociedade brasileira que mesmo perseguidos pelo regime se referem a generais com um respeito temeroso. Nenhum “esquerdista” ousou dizer publicamente o que Olavo de Carvalho disse, ao chamar os generais de “bando de cagões”. Mais uma vez, o ataque, a réplica e a tréplica se passaram dentro do próprio Governo, enquanto a sociedade se mobilizava para impedir “as comemorações devidas”.

A exaltação do golpe militar de 1964 serviu também como balão de ensaio para testar a capacidade das instituições de fazer a lei valer. Mais uma vez, Bolsonaro pôde constatar o quanto as instituições brasileiras são fracas. E alguns de seus personagens, particularmente no judiciário, tremendamente covardes. Não fosse a Defensoria Pública da União, que entrou com uma ação na justiça para impedir as comemorações de crimes contra a humanidade, nada além de “recomendações” para que o Governo não celebrasse o sequestro, a tortura e o assassinato de brasileiros. Patético.

Bolsonaro finge que não nomeou o ministro que demitiu

Outro exemplo é a demissão do ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez para colocar em seu lugar outro que pode ser ainda pior. Bolsonaro fritou o ministro que ele mesmo nomeou e o demitiu pelo Twitter. Ao fazê-lo, agiu como se outra pessoa o tivesse nomeado – e não ele mesmo. Chamou-o de “pessoa simpática, amável e competente”, mas sem capacidade de “gestão” e sem “expertise”. Mas quem foi o gestor que nomeou alguém sem capacidade de gestão e expertise para um ministério estratégico para o país? E como classificar um gestor que faz isso? Mais uma vez, Bolsonaro age como se estivesse fora e dentro ao mesmo tempo, fosse governo e opositor do governo simultaneamente.

Mesmo as minorias que promoveram alguns dos melhores exemplos de ativismo dos últimos anos passaram a assistir à disputa do Governo contra o Governo como espectadores passivos. Quem lutou pela ampliação dos instrumentos da democracia parece estar se iludindo que berrar nas redes sociais, também dominadas pelo bolsonarismo, é algum tipo de ação. A participação democrática nunca esteve tão nula.

A estratégia bem sucedida, neste caso, é a falsa disputa da “nova política” contra a “velha política”. O bate-boca entre Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), é só rebaixamento da política, de qualquer política. Se a oposição ao Governo é Maia, parlamentar de um partido fisiológico de direita, qual é a oposição? Bolsonaro e Maia estão no mesmo campo ideológico. Não há nenhuma disputa de fundo estrutural entre os dois, seja sobre a Previdência ou sobre qualquer outro assunto de interesse do país.

O mecanismo se reproduz também na imprensa. Aparentemente, parte da mídia é crítica ao Governo Bolsonaro. E, sob certo aspecto, é comprovadamente crítica. Mas a qual Governo Bolsonaro? Se Bolsonaro é mostrado como o irresponsável que é, o contraponto de responsabilidade, especialmente na economia, seriam outros núcleos de seu próprio Governo, conforme apresentado por parte da imprensa. Quando o insensato Bolsonaro atrapalha Guedes, o projeto neoliberal ganha um verniz de sensatez que jamais teria de outro modo.

Diante do populismo de extrema direita de Bolsonaro e seus companheiros de outros países, o neoliberalismo é apresentado como a melhor saída para a crise que ele mesmo criou. Mas Bolsonaro e seus semelhantes são os produtos mais recentes do neoliberalismo – e não algo fora dele. 

Onde então está o contraditório de fato? Qual é o espaço para um outro projeto de Brasil? Cadê as alternativas reais? Quais são as ideias? Onde elas estão sendo discutidas com ressonância, já que sem ressonância não adianta?

Bolsonaro governa contra o governo para manter a popularidade entre suas milícias

A imprensa ao mesmo tempo reflete e alimenta a paralisia da sociedade. Os cem dias mostraram que o Governo Bolsonaro é ainda pior do que o fenômeno Bolsonaro. Bolsonaro não se tornará presidente, “não vestirá a liturgia do cargo”, como esperam alguns. Não porque é incapaz, mas porque não quer. Bolsonaro sabe que só se mantém no poder como antipresidente, como enfatizei em artigo anterior. Bolsonaro só pode manter o poder mantendo a guerra ativa.

Recente pesquisa do Datafolha mostrou que ele é o presidente pior avaliado num início de governo desde a redemocratização do país. Mas Bolsonaro aposta que é suficiente manter a popularidade entre suas milícias e age para elas. Bolsonaro está dentro, mas ao mesmo tempo está fora, governando com sua corte e seus súditos. Governando contra o Governo. Essa é a única estratégia disponível para Bolsonaro continuar sendo Bolsonaro.

A oposição, assim como a maioria da população, foi condenada à reação, o que bloqueia qualquer possibilidade de ação. Se alguém sempre jogar a bola na sua direção, você sempre terá que rebater a bola. E quando pegar esta e liberar as mãos, outra bola é jogada. Assim, você vai estar sempre de mãos ocupadas, tentando não ser atingido. Todo o seu tempo e energia são gastos em rebater as bolas que jogam em você. Deste modo, você não consegue tomar nenhuma decisão ou fazer qualquer outro movimento. Também não consegue planejar sua vida ou construir um projeto. É uma comparação tosca, mas fácil de entender. É assim que o governo Bolsonaro tem usado o poder para controlar o conteúdo dos dias e impedir a disputa política legítima das ideias e projetos.


2) A Barbárie
Mesmo a parcela mais organizada das minorias que tanto Bolsonaro atacou na eleição parece estar em transe, sem saber como agir diante dessa operação perversa do poder. Ao reagir, tem adotado o mesmo discurso daqueles que as oprimem, o que amplia a vitória do bolsonarismo.

Um exemplo. O vídeo divulgado por Bolsonaro no Carnaval, mostrando uma cena de “golden shower”, foi definido como “pornográfico” por muitos dos que se opõem a Bolsonaro. Mas este é o conceito de pornografia da turma do antipresidente. Adotá-lo é comungar de uma visão preconceituosa e moralista da sexualidade. É questionável que dois homens façam sexo no espaço público e este é um ponto importante. Não deveriam e não poderiam. Mas não é questionável o ato de duas pessoas adultas fazerem sexo consentido da forma que bem entenderem, inclusive um urinando no outro. O ato pornográfico é o de Bolsonaro, oficialmente presidente da República, divulgar o vídeo nas redes sociais. É dele a obscenidade. A pornografia não está na cena, mas no ato de divulgar a cena pelas redes sociais. Diferenciar uma coisa da outra é fundamental.

O discurso de ódio e de repressão à sexualidade está se infiltrando no país e sendo reproduzido mesmo pela esquerda

Outro exemplo. Quando a oposição tenta desqualificar o deputado federal Alexandre Frota (PSL) porque ele é ator pornô está apenas se igualando ao adversário. Qual é o problema de ser ator pornô? Só os moralistas do pseudoevangelismo desqualificam pessoas por terem trabalhos ligados ao sexo. Alexandre Frota deve ser criticado pelas suas péssimas ideias e projetos para o país, não porque fazia sexo em filmes para ganhar a vida. Criticá-lo por isso é jogar no campo do bolsonarismo e é também ser intelectualmente desonesto. 

Cada vez mais parte da esquerda tem se deixado contaminar, como se fosse possível deslegitimar o adversário usando o mesmo discurso de ódio.


Na mesma linha, o problema do ministro da Justiça, Sergio Moro, não é o fato de ele falar “conge” em vez de “cônjuge”, como fez por duas vezes durante audiência pública no Senado. Ridicularizar os erros das pessoas na forma de falar é prática das piores elites, aquelas que se mantêm como elite também porque detêm o monopólio da linguagem. Poderia se esperar que Moro falasse a chamada “norma culta da língua portuguesa” de forma correta, já que teve educação formal tradicional. Mas a disputa política deve se dar no campo das ideias e projetos.

O problema de Moro é ter, como juiz, interferido no resultado da eleição. E, em seguida, ser ministro daquele que suas ações como funcionário público ajudaram a eleger. O problema de Moro é criar um pacote anticrime que, na prática, pode autorizar os policiais a cometerem crimes. Pela proposta do ministro da Justiça, os policiais podem invocar “legítima defesa” ao matar um suspeito, alegando “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. Neste caso, a pena pode ser reduzida pela metade ou mesmo anulada. O problema de Moro que interessa ao país não é, definitivamente, usar “conge” em vez de “cônjuge”.

Moradores de rua estão sendo incendiados vivos no Brasil: entre janeiro e o início de abril já foram pelo menos oito

Compreender como o discurso de ódiovai se imiscuindo na mente de quem acredita estar se contrapondo ao ódio é eticamente obrigatório. Se o governo de Bolsonaro é também oposição e crítica ao próprio Governo, isso não significa que ele não tenha um projeto e que este projeto não esteja se impondo rapidamente ao país. Tem e está. Somos hoje um país muito pior do que fomos. E somos hoje um povo muito pior do que fomos. Parte do objetivo dos violentos e dos odiadores é normalizar a violência e o ódio pela repetição. O bolsonarismo tem conseguido realizar esse projeto com uma velocidade espantosa.

Apenas em 2019 ( e escrevo na primeira quinzena de abril), pelo menos oito – OITO – moradores de rua foram queimados vivos no Brasil. Este é apenas um levantamento feito com base no noticiário, pode ser mais. Em 1 de janeiro, um morador de rua de 27 anos foi incendiado quando dormia em Ponta Grossa, no Paraná. Alguém passou, jogou álcool e colocou fogo no seu corpo. Teve mais de 40% do corpo queimado. Em 21 de janeiro, um morador de rua foi encontrado incendiado e morto numa praça de Curitiba, capital paranaense. Quatro dias depois, em 25 de janeiro, José Alves de Mello, 56 anos, também morador de rua, foi agredido e queimado num imóvel abandonado da Grande Curitiba. Em 27 de fevereiro, uma moradora de rua foi queimada quando dormia embaixo de um viaduto, no Recife, capital do estado de Pernambuco. Ela sobreviveu. Em 17 de março, José Augusto Cordeiro da Silva, 27 anos, acordou já em chamas embaixo de uma marquise na cidade de Arapiraca, no estado de Alagoas. Morreu no hospital. Em 1 de abril, um homem aparentando 30 e poucos anos morreu carbonizado próximo à escada rolante de uma estação de trem em Santo André, no ABC Paulista. O caso foi registrado como “morte suspeita”. Em 3 de abril, Roberto Pedro da Silva, 46 anos, foi incendiado quando dormia numa obra abandonada em Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul. Um homem teria jogado combustível e ateado fogo em seu corpo. Em 7 de abril, um morador de rua aparentando 30 anos foi agredido a pedradas e incendiado no interior de um ginásio de esportes em Águas Lindas de Goiás, no entorno do Distrito Federal.

Se fôssemos gente decente de um país decente, pararíamos exigindo o fim da barbárie.

Em 4 de abril, policiais militares mataram 11 dos 25 suspeitos de assaltar bancos no município de Guararema, na Grande São Paulo. O governador do estado, João Doria (PSDB), afirmou que vai condecorá-los. Até bem pouco tempo atrás, um governador não ousaria dar medalhas a policiais que assassinaram suspeitos. Em nenhum país democrático do mundo matar suspeitos é considerado um bom desempenho policial. Pelo contrário.

Se fôssemos um país decente de gente decente, pararíamos diante da barbárie representada pelo massacre dos mais frágeis

No Brasil, que oficialmente não tem pena de morte, o governador do maior estado do país elogia e premia a execução de suspeitos por agentes da lei. Em março, a polícia paulista matou 64 pessoas. Bem mais do que em 2018, no mesmo mês, quando houve 43 homicídios por parte de policiais, o que já era uma enormidade. Autorizada pelas autoridades, a polícia brasileira, conhecida por ser uma das que mais mata no mundo, mostra que neste ano já começou a matar mais.

Se fôssemos um país decente de gente decente, pararíamos diante da barbárie cometida por agentes da lei com autorização e estímulo de autoridades que não foram eleitas para promover a quebra do Estado de Direito.

No último domingo, 7 de abril, militares dispararam 80 tiros – OITENTA – contra o carro de Evaldo dos Santos Rosa, 51 anos, um músico negro que levava a sua família a um chá de bebê em Guadalupe, na zona norte do Rio de Janeiro. Ele morreu fuzilado. Seu filho de 7 anos viu o pai sangrar e soldados do Exército de seu país rirem do desespero da mãe. Graças a uma lei sancionada por Michel Temer, em 2017, os militares que atacaram uma família civil serão julgados não pela justiça comum, mas pela militar, que comprovadamente é corporativa e conivente com os crimes.

Se fôssemos um país decente de gente decente pararíamos diante da barbárie e exigiríamos justiça.


3) A Resistência
O Brasil se espanta muito menos do que há bem pouco tempo atrás com o cotidiano de exceção. É justamente assim que o totalitarismo se instala. Pelas frestas do que se chama normalidade. Pelas mentes no senso comum e nas horas do dia. Depois, é só oficializar. O Brasil já vive sob o horror da exceção. A falsificação da realidade, a corrupção das palavras e a perversão dos conceitos são parte da violência que se instalou no Brasil. São parte do método. Essa violência subjetiva tem resultados bem objetivos – e multiplica, como os números já começam a apontar, a violência contra os corpos. Não quaisquer corpos, mas os corpos dos mais frágeis.

É urgente se unir para resgatar o que resta de democracia no Brasil antes que o autoritarismo se instale por completo

O desafio – urgente, porque já não há mais tempo – é resgatar o que resta de democracia no Brasil. É pela pressão popular que as instituições podem se fortalecer ao serem lembradas que não servem aos donos do poder nem aos interesses de seus membros, mas à sociedade e à Constituição. É pela pressão por outros diálogos e outras ideias e outras realidades que ainda respiram no país que a imprensa pode abrir espaço para o pluralismo real. É pela pressão por justiça e pelo levante contra a barbárie que podemos salvar nossa própria alma adoecida pelos dias.

O resgate da democracia pelo que ainda resta dela, aqui e ali, não será tarefa de outros. Como já escrevi antes, só há nós mesmos. Nós, os que resistimos a entregar o Brasil para os perversos que hoje o governam – e o governam também pelo controle dos espasmos diários que impõem aos brasileiros.

Eu gostaria de dizer: “Acordem!”. Mas não é que os brasileiros estejam dormindo. Parece mais uma paralisia, a paralisia do refém, daquele que vive o horror de estar entregue ao controle do perverso. Não é mais desespero, é pavor. Precisamos encontrar caminhos para romper o controle, sair do jugo dos perversos, tirar a pauta dos dias de suas mãos.
Como?
Essa resposta ninguém vai construir sozinho. 

A minha é que precisamos criar o “comum”. O que aqui chamo de comum é o que nos mantêm amalgamados, o que permite que, ao conversarmos, partimos do consenso de que a cadeira é cadeira e a laranja é laranja e que nenhum de nós dois sente na laranja e coma a cadeira (leia aqui). 

Os perversos corromperam a palavra – e têm repetido que a cadeira é laranja. Só por isso podem dizer que o Brasil está ameaçado pelo “comunismo” ou que o nazismo é de “esquerda” ou que o aquecimento global é um “complô marxista”. Essas três afirmações, apenas como exemplo, não têm lastro na realidade. É o mesmo que dizer que laranja é cadeira. Apenas que menos gente tem clareza do que foi o nazismo e do que é o comunismo e do que é o aquecimento global, tornando mais fácil embrulhar as coisas.


Precisamos voltar a encarnar as palavras ou enlouqueceremos todos

Eles repetem e repetem, assim como tantas outras corrupções da realidade, porque corromperam o voto que receberam ao usar a estrutura do Estado para produzir mentiras. É assim que os perversos enlouquecem uma população inteira – e a submetem: dizendo que laranja é cadeira dia após dia. As palavras deixam de significar, a linguagem é rompida e corrompida e a conversa se torna impossível. Como você vai falar com alguém sobre laranjas se o outro acha que laranja é cadeira? É isso que hoje acontece no Brasil, e este ataque é desferido diariamente pelas redes sociais dominadas pelo bolsonarismo.

Precisamos voltar a encarnar as palavras. Ou enlouqueceremos todos. A criação do comum começa pela linguagem (Escrevi sobre isso aqui e aqui). 

Precisamos também criar comunidade. Não comunidade de internautas que ficam gritando cada um atrás da sua tela. Mas comunidade real, que exige presença, exige corpo, exige debate, exige negociação, exige compartilhamento real. Não há nada que os regimes de exceção temam mais do que pessoas que se juntam para fazer coisas juntas. É por isso que Bolsonaro tanto critica o ativismo e os ativistas – e já deu vários passos na direção da criminalização do ativismo e dos ativistas.

O ativista é aquele que deixa o conforto do seu umbigo e do seu entorno protegido para exercer a solidariedade. Governos como o de Bolsonaro agem para que cada um veja o outro como inimigo, e por isso temem o ativismo. Os bolsonaristas se alimentam da guerra porque a guerra separa as pessoas e faz com que elas não tenham tempo para criar futuro. A solidariedade é um gesto temido pelos autoritários. Por que você não está em casa lustrando o seu umbigo, é o que gostariam de perguntar? Ao corromper as palavras, é também esse o objetivo. Condenar cada um à prisão do seu silêncio (ou do seu eco), incapaz de alcançar o outro pela falta de uma linguagem comum.

O governo quer que você fique em casa lustrando o seu umbigo. Levante-se!

Assim, tentam eliminar a solidariedade à bala. Ou exilá-la. Mandá-la para fora do país que privatizaram para si. Bolsonaro disse isso com todas as letras. É o que tem feito com os movimentos sociais e suas lideranças. É também por isso que é necessário uma polícia com autorização para matar, como quer Bolsonaro, e como obedece Sergio Moro.

A polícia, cada vez mais, se torna também ela uma milícia privada dos donos do poder. Deixa de exercer seu dever constitucional de proteger a população para exercer a guerra contra a população. Durante a intervenção federal no Rio, policiais civis e militares mataram 1.543 pessoas. Em 2018, um em cada quatro homicídios no Rio de Janeiro foi cometido por um policial – e isso segundo os registros das próprias polícias. Ninguém tem qualquer dúvida que a maioria dos mortos é negra – e é pobre.

Quando vai para as ruas nos protestos, o que a polícia reprime não é o que chama de “baderneiros” ou “vândalos”, mas a solidariedade. Ao bater nos corpos, sufocá-los com bombas de gás lacrimogêneo, o que querem é controlar os corpos, castigá-los porque em vez de ficarem trancados em casa coçando a barriga foram às ruas lutar pelo coletivo. Como assim você luta pelo outro e não apenas por si mesmo? Como você ousa ser solidário se a regra do neoliberalismo é cuidar apenas de si e dos seus?

Resistir ao medo e se juntar para criar futuro é o ato primeiro de resistência. Se nos encarcerarmos em casa, como o governo quer, armados também, como o governo quer, atirando uns nos outros, como o governo quer, a guerra continuará sendo ampliada, porque só assim os perversos nos mantêm sob controle e se mantêm no poder. Se contarmos apenas como um não podemos nada. Temos que ser um+ um+ um. E então poderemos muito.

A arte é também um instrumento poderoso. Não foi por outro motivo que ela foi tachada de “pornográfica” e “pedófila” pelas milícias da internet nos últimos anos. Não é por outro motivo que o bolsonarismo investe contra a lei Rouanet e desmonta os mecanismos culturais. A arte não é firula. Ela tira as pessoas do lugar. Ela faz pensar. Ela questiona o poder. E ela junta os diferentes.

Precisamos fazer arte. Mais uma vez, vou indicar aqui o livro da Pussy Riot Nadya Tolokonikova (Pussy Riot, um guia punk para o ativismo político, Ubu Editora, 2019). A arte é um ato ao alcance de todos nós. O maior golpe contra o Governo do déspota Vladimir Putin veio de um bando de garotas que não sabe nem cantar nem tocar direito, mas fazem arte tocando e cantando o ridículo dos perversos.

Rir. Precisamos rir. Rir junto com o outro, não rir do desespero do outro. É o perverso que gosta de rir sozinho, é o perverso que goza da dor do outro, como faz Bolsonaro, como riram os soldados que deram 80 tiros no carro da família que ia para um chá de bebê. O deles não é riso, é esgar. Já o riso junto com o outro tem uma enorme potência.

Vamos rir juntos dos perversos que nos governam e começar a imaginar um futuro onde queremos viver

Vamos rir juntos dos perversos que nos governam. Vamos responder ao seu ódio com riso. Vamos responder à tentativa de controle dos nossos corpos exercendo a autonomia com os nossos corpos. Vamos libertar as palavras fazendo poesia. Como escrevi tantas vezes aqui: vamos rir por desaforo. E amar livremente.

Rir despudoradamente diante de suas metralhadoras de perdigotos. O ódio não é para nós, o ódio é para os fracos. Vamos afrontá-los denunciando o ridículo do que são. Vamos praticar a desobediência às regras que não criamos. Temos que desobedecer a esse desgoverno. É assim que se quebra o jugo dos perversos. Levando-os suficientemente a sério para não levá-los a sério.

E temos que começar a imaginar o futuro. É assim que o futuro começa, sendo imaginado. Ninguém consegue viver num presente sem futuro. Mas é impossível controlar quem é capaz de imaginar depois que já começou a imaginar. A imaginação é a melhor companheira do riso.

Sim, ninguém solta a mão de ninguém. Mas não vamos ficar segurando as mãos uns dos outros paralisados e em pânico. Vamos rir e criar futuro. Juntos. Lembrem-se que “a alegria é a prova dos nove”. Nos cem dias que já dura o domínio oficial dos perversos, foi o Carnaval quem mais desafiou o exercício autoritário do poder. Pela alegria, pela sátira, pelo riso, pelos corpos nas ruas.

Não há lei que nos obrigue a obedecer a um Governo de perversos. Desobedeçam aos senhores do ódio. Os próximos cem dias – e todos os outros que virão – precisam voltar a nos pertencer.


Sou super fã desta incrível escritora e jornalista Eliane Brum. Não sei se e irmã ou parente da minha amiga Martha Brum do Rio de Janeiro... eu a chamo de Marthinha.... mas se for da mesma genética não tem erro. É pessoa inteligente e das mió como se diz aqui na minha terra, Minas Gerais.
Roberta Carrilho


Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes -
O Avesso da Lenda,
A Vida Que Ninguém vê, 
O Olho da Rua, 
A Menina Quebrada, 
Meus Desacontecimentos, 
e do romance Uma Duas.

ARTIGOS EL PAIS: 

Site: desacontecimentos.com 
Email: elianebrum.coluna@gmail.com 
Twitter: @brumelianebrum/ 
Facebook:@brumelianebrum





segunda-feira, 5 de novembro de 2018

ELEIÇÃO DE BOLSONARO MARCA FIM DA NOVA REPÚBLICA, DIZ HISTORIADORA

Autora não crê que Legislativo, Judiciário e imprensa possam se contrapor a autoritarismo



[RESUMO] Historiadora francesa Maud Chirio, que pesquisa a direita brasileira, rejeita a ideia de que Bolsonaro vá moderar seu discurso ao chegar ao Planalto e se declara cética em relação ao equilíbrio entre Poderes no governo do presidente eleito.

A ascensão de Jair Bolsonaro ao poder entrará para os livros de história como marco final da Nova República, iniciada no ocaso da ditadura militar, em 1985, porque o projeto político que impulsionou o presidente eleito contradiz os princípios que a regem. 

O diagnóstico é da historiadora francesa Maud Chirio, 37, especialista em história da direita brasileira e na relação desta com a caserna. Em entrevista à Folha, ela diz não acreditar que o capitão reformado vá moderar seu discurso ou abandonar algumas de suas propostas mais radiativas após subir a rampa do Palácio do Planalto, em 1º de janeiro. 

"Não são bravatas, excessos, é um sistema de pensamento", afirma a professora da Universidade Paris Leste Marne-La-Vallée e autora de "A Política nos Quartéis - Revoltas e Protestos de Oficiais na Ditadura Militar Brasileira" (ed. Zahar).

"[Muitos analistas] Não acreditam que Bolsonaro poderia virar do avesso o conjunto de valores morais e políticos preponderante na Nova República. Há aí uma cegueira histórica."

Ilustração de capa da Ilustríssima - Veridiana Scarpelli

Para Chirio, no dia 3 de janeiro do ano que vem, o MST e o MTST serão declarados organizações terroristas e, no começo de fevereiro, o PT será interditado. "Haverá também um expurgo na administração pública, que já está em preparação. Só não vê quem não quer."

A historiadora afirma duvidar da capacidade de Legislativo, Judiciário e imprensa de servirem de contrapeso a eventuais desmandos autoritários do militar da reserva e chama a atenção para a afinidade de Bolsonaro com a ala linha-dura do regime que vigorou no Brasil de 1964 a 1985.

"Ele representa um segmento que sempre rejeitou a República decorrente da Constituição de 1988 e sua apologia da diversidade étnica, religiosa e do pluralismo. Não há razão para acreditar que ele pense diferente", avalia.

Na entrevista a seguir, Chirio também tece paralelos entre as chegadas de Bolsonaro e Adolf Hitler ao topo do Executivo, além de falar sobre o que esperar das relações do presidente eleito com líderes da Europa.


Em entrevista ao jornal Le Monde entre os dois turnos da eleição, a senhora se declarou temerosa pela democracia brasileira. Por quê? E como ficou esse receio diante do resultado da corrida presidencial? Ele aumentou, por causa da natureza das reações de uma parcela de eleitores de Jair Bolsonaro. Minha inquietude se apoia em alguns elementos.

Em primeiro lugar, em itens do discurso do agora presidente eleito sobre o respeito ao pluralismo político. Grande parte de sua fala é norteada pela [ideia de] repressão violenta da oposição de esquerda --das menções a exílio forçado e prisão até a alusão a agressões físicas e eliminação definitiva de adversários. 

E não são excessos pontuais, deslizes, mas, sim, uma retórica recorrente a indicar que ele não aceitará a sobrevida política de uma oposição de esquerda, o que já basta para caracterizar como não democrático o regime que vai se instaurar em janeiro de 2019. 

Em segundo lugar, há o fato de o discurso repressivo de Bolsonaro se estender a outros setores da sociedade, aos quais é negado o direito à diferença. Isso é muito claro com os homossexuais e com os índios -- estes, ao que tudo indica, para "virarem brasileiros", vão ser destituídos de suas especificidades, sofrendo com a supressão de reservas e com a rédea solta para o agronegócio, o que resultará provavelmente em massacre. Ou seja, há uma rejeição da diversidade política e social do país -- o que, a meu ver, caracteriza uma sociedade autoritária. 

E o que esperar da relação de Bolsonaro com os outros Poderes? A capacidade do novo governante de respeitar o equilíbrio entre os Poderes no âmbito de um sistema democrático gera dúvidas. 

É só lembrar as pressões exercidas sobre o Judiciário pelo grupo de Jair Bolsonaro, que se desenharam de forma clara na fala de Eduardo Bolsonaro ["se quiser fechar o STF, manda um soldado e um cabo"]: a tendência dele e de seu entourage militar de ver a Justiça como obstáculo ao exercício de poder.

Em relação à mídia, a disposição do futuro presidente em deixar uma imprensa de oposição se expressar também é mais do que duvidosa. As tentativas da grande mídia de resistir, de questioná-lo, suscitaram reação muito hostil. É incerto, portanto, que Judiciário e imprensa possam de fato desempenhar o papel de contrapesos. 

Não se sabe se Bolsonaro vai governar com ou sem os legisladores. A visão que ele parece ter do poder não soa compatível com negociações com o Congresso.

Analistas dizem esperar que ele agora modere o discurso, deixe de lado arroubos extremistas e bravatas. Não é realista esse prognóstico? Acho que vai acontecer o inverso. Já existe no Brasil uma grande violência social, que atinge as populações rurais e periféricas e se traduz em grande mortalidade. Bolsonaro anunciou gatilhos que vão fazer disparar essa taxa, como o armamento da população para defender a propriedade e o aumento da militarização da segurança pública, acompanhado pela suspensão da ilegalidade de qualquer ato homicida da parte de um agente policial. Isso fará subir a letalidade social.

É preciso perceber de onde o futuro presidente vem. Ele é formado no imaginário da linha-dura do regime militar. É cristalina a semelhança entre o que ele propõe para a cena política brasileira e aquilo que sugere a ala de extrema direita da reserva desde o fim da ditadura.

Faça o download das edições da revista do Clube Militar dos últimos 20 anos e você verá a íntegra do programa de Bolsonaro a respeito dos homossexuais, da diversidade racial e do pluralismo político.

Essa ala criticou a "renúncia" prematura do poder militar e a transição para a democracia, que, aos olhos dela, foi pouco controlada e abriu espaço para um revanchismo esquerdista, que teria conquistado a mídia, a universidade e, por fim, a cena política.

É o discurso de Olavo de Carvalho, que afirma que a esquerda tem uma política de ocupação do espaço cultural viabilizada pelo fato de ela, a esquerda, não ter sido aniquilada na ditadura. Então não são bravatas, excessos, é um sistema de pensamento, no âmbito do qual a esquerda vira um inimigo nacional a ser eliminado.







Se ele não colocar essa linha ideológica em marcha, será porque houve poderes moderadores que o impediram, não porque ele não tenha querido aplicá-la. Muitos analistas acham que, uma vez que uma democracia se consolida, ela não mais regride a um sistema que lhe seja antagônico. 

Não acreditam que Bolsonaro poderia virar do avesso o conjunto de valores morais e políticos preponderante na Nova República. Há aí uma cegueira histórica. 

As democracias morrem... Bolsonaro representa um segmento que sempre rejeitou a República decorrente da Constituição de 1988 e sua apologia da diversidade étnica e religiosa e do pluralismo. Não há razão para acreditar que ele pense diferente. 

Em seu primeiro pronunciamento depois da vitória, ele surgiu ao lado de exemplares da Bíblia, de uma biografia de Winston Churchill [ex-primeiro-ministro britânico], da Constituição e de um livro de Olavo de Carvalho ["O Mínimo que Você Precisa Saber Para Não Ser um Idiota"]. 

Não se trata de um Trump, de um provocador antissistema politicamente incorreto. Bolsonaro tem, por trás dele, uma estrutura de pensamento muito coerente, em que se articulam corrupção, comunismo e perversão moral.

Em 1932, pouco antes de Adolf Hitler chegar ao poder, o discurso da direita na Alemanha era de que ele era um agitador, passível de controle, de enquadramento no sistema. Falava-se que era evidente que ele não poria em prática tudo aquilo que sustentava oralmente.

Quando uma figura de fora do sistema fica popular e defende os interesses da classe dominante em diferentes planos (no caso de Bolsonaro, no econômico), verifica-se uma inércia desse sistema. Hitler era um personagem coadjuvante, insignificante, assim como Bolsonaro. Todos achavam que ele assim permaneceria, que seria engolido pelas forças sistêmicas. Nunca acontece isso.

Para mim, no dia 3 de janeiro de 2019 [dois dias após a posse de Bolsonaro], o MST e o MTST serão declarados organizações terroristas. No começo de fevereiro, o PT vai ser interditado. Haverá um expurgo na administração pública, que já está em preparação. Só não vê quem não quer.

LÍDERES COMPARADOS A BOLSONARO

O presidente dos EUA, Donald Trump, é talvez o principal líder comparado a Jair Bolsonaro. Eleito 2016 de forma surpreendente, o bilionário fez campanha prometendo "fazer a América grandiosa novamente". Desde que sumiu, afastou os EUA de acordos multilaterais e implementou uma política anti-imigração mais dura. 

Rodrigo Duterte foi eleito presidente das Filipinas em 2016 com a promessa de acabar com a criminalidade do país em 6 meses. Sua política de guerra às drogas é criticada por entidades de direitos humanos por fazer uso da violência policial e de grupos de extermínio

Vice-premiê do Interior, Matteo Salvini é o verdadeiro homem forte da política da Itália desde as eleições de março de 2018. Líder do partido populista de direita Liga, ele tem dado o tom ao governo do premiê Giuseppe.

No poder de 2010, o premiê húngaro Vikor Orbán foi reeleito em abril de 2018. Com discurso nacionalista, anti-imigração e hostil à União Europeia, ele retirou publicidade oficial do veículo de comunicação críticos ao governo Bernadett Szabo

Sucessor de Hugo Chaves à frente da Venezuela, Nicolás Maduro foi eleito em 2013 após a morte do líder do chavismo. O subsequente esvaziamento do Parlamento e do Judiciário, somados à eleição de uma Assembléia Constituinte totalmente chavista e uma reeleição contestada, lançaram a Venezuela numa espiral de violência e repressão.

Reeleito presidente da Turquia em 2018, Recep Tayyip Erdogan chegou ao cargo em 2014, depois de passar 11 anos como premiê. Em 2016, após uma tentativa de golpe, expurgou opositores nas Forças Armadas, Judiciário e na educação, e aumentou seus poderes por meio de um referendo Adem Altan.

Desde 2000 Vladimir Putin dá as cartas na política russa, ora como presidente, ora como premiê. Reeleito em 2018, terá ficado 25 anos no poder, período marcado pela prisão de opositores, repressão a protestos e violações de direitos humanos.

Logo após o primeiro turno, em entrevista à TV, o presidente eleito se disse escravo da Constituição. No pronunciamento da vitória, no domingo (28), estava com um exemplar da Carta sob a mão. Não se pode mesmo crer em sua disposição em respeitar os princípios democráticos? Ele só fez isso porque estava sendo acusado de preparar um regime autoritário. Era uma estratégia para não perder a fatia do eleitorado que poderia temer uma guinada autoritária.

Mas o que está na Carta é contraditório com o que o resto do discurso dele preconiza. Veja bem, quero crer que ele vá respeitar a Constituição. Mas há muitos fatores que levam a pensar que o projeto de sociedade e poder que o impulsiona rejeita a Constituição.

Não devemos nos fiar aos poucos acenos que ele deu à continuidade do regime. É preciso encarar de frente os outros 90% de sua retórica, suas redes, seus aliados, a produção intelectual destes.

Sou pessimista, mas acredito nos poderes moderadores. Se, por exemplo, a Folha conseguir sobreviver como instituição [no governo Bolsonaro], com a força de cobertura que tem, vai ser fundamental. Mas é preciso que haja outras instâncias agindo da mesma forma.

Que efeito a eleição de Bolsonaro pode ter sobre as relações entre Europa e Brasil? Em primeiro lugar, tenho a impressão de que a opinião pública e a imprensa europeias foram iludidas ao longo dos últimos dois anos pelo discurso majoritário da mídia brasileira, que não percebeu uma mudança na natureza do campo conservador, apesar dos alertas. Houve um atraso na compreensão desse fenômeno.

Não sei qual vai ser a distância que os aliados europeus do Brasil vão procurar tomar em relação ao governo Bolsonaro. Vai depender das ameaças e dos ataques aos direitos humanos e à liberdade de expressão. É isso que faz com que a diplomacia se mexa.

Nicolas Sarkozy, ex-presidente da França, afirmou dias atrás acreditar que a democracia brasileira seja mais forte do que se diz. Para ele, se o novo presidente se esquecesse de que seus simpatizantes não quiseram eleger um ditador, uma grande maioria saberia lembrá-lo disso. Também acho que a maioria da população brasileira preza o sistema democrático. Mas o passado nos mostra que as multidões que pedem o fim de ditaduras nem sempre vencem: muitas vezes, sua mobilização só conduz ao acirramento do autoritarismo.

Por exemplo, em 1964, ninguém imaginava nem a perpetuação dos militares no poder nem a formação de uma verdadeira ditadura. A reação popular veio em 1968, com as mobilizações estudantis transformadas em contestação do regime. A isso sucederam o AI-5 e os anos de chumbo.

O ex-presidente da França Nicolas Sarkozy 

E como entidades de governança global como as Nações Unidas vão lidar com o novo presidente? O Comitê de Direitos Humanos da ONU já mostrou que tem um entendimento da evolução do processo político brasileiro diferente da narrativa dominante [durante a campanha eleitoral, o colegiado recomendou em duas ocasiões que o Estado brasileiro garantisse a Lula o direito de concorrer à Presidência]. 

Como um todo, as Nações Unidas são uma instituição que costuma atentar para o respeito à ordem democrática e aos direitos humanos, ainda que seu poder de fogo seja limitado. Por isso, espero que exerça papel importante, apesar de ser desprezada pelo novo Executivo federal.

A ONG Human Rights Watch já se declarou preocupada com a eleição de Bolsonaro e disse que irá monitorar de perto seu governo. Faz parte do grupo de organizações que compreenderam o que estava acontecendo bem antes de uma parcela da imprensa e da classe política brasileiras.

Mas muita gente não se deu conta de que o regime atual morreu na noite do domingo passado. Nos livros de história, vamos escrever: Nova República, 1985-2018.


RAIO-X

Maud Chirio, 37, é historiadora francesa, dá aulas na Universidade de Paris Leste Marne La Vallée. Doutora em história contemporânea pela Universidade Paris I (Sorbonne), publicou "A Política nos Quartéis - Revoltas e Protestos de Oficiais na Ditadura Militar Brasileira" no Brasil pela editora Zahar. O livro, de 2012, é baseado em sua tese de doutorado.




sexta-feira, 5 de outubro de 2018

PERDÔO OS IGNORANTES, MAS NÃO OS INSTRUÍDOS QUE APOIAM O BOLSO! by Vitor Fernandes





O contexto que vivemos é assustador! Às vezes dá desânimo na humanidade! Ver o que as elites donas dos meios de comunicação fazem com a cabeça do povo, geralmente sem estudo, é devastador.

As elites produziram um massacre midiático à esquerda tamanho nas eras Lula e Dilma, que criou-se o combate ao comunismo num país que não tem um deputado comunista sequer... Estamos vivendo uma loucura onde a tudo que não é ultra-liberal é comunista.

Como professor de Sociologia me sinto profundamente decepcionado, fracassado! Tenho orgulho de mim, mas me sinto impotente. Chegamos ao século XXI para ver os jovens dizerem que a Terra é plana, que vacinas causam doenças, que nazismo é de esquerda, que a ditadura nunca existiu.

Esse ano tive que explicar várias vezes que o nazismo não era de esquerda.

Tive que explicar várias vezes que o kit gay não existe! 

Tive que explicar que intervenção do Estado não é comunismo!

Vi aluno negro, numa comunidade, dizendo que não existe racismo.

Vi alunos pobres, dentro de uma escola pública dizendo que tem que privatizar tudo. E sei que a maioria deles não teria dinheiro para pagar a escola ou saúde privadas, mas eles acham que serão a elite de amanhã...

Vi familiares, amigos dizendo que votam no Bolsonaro para acabar com os bandidos e acabar com a corrupção! Como uma mágica! Como quem tem fé em algo completamente irracional.

Estamos vivendo a loucura! A era do irracionalismo! Mas sei que não é aleatório.

O bilionários estadunidenses e setores da nossa elite subalterna que bancam o MBL, Instituto Misses, etc, que difundem essas ideias loucas é que produziram isso, esse contexto de loucura.

O antipetismo, produzido pela grande mídia gerou Bolsonaro e pode nos levar ao fascismo. E não é exagero, é


FASCISMO! É FASCISMO!


O mais triste de tudo, o mais solitário e frustrante é que não posso contar isso para eles, pois a maioria deles não tem condições de entender o que é fascismo. Foram formados pelos youtubers, pelas páginas do facebook que bombaram no contexto de combate ao "petismo/comunismo", na visão deles.

Vejo negros, pobres, desempregados, até gays, defendendo o fascismo... e não sei como alertar. Às vezes não sei como dizer: "o alvo é você, seu idiota"!

Já percebi que o debate não é racional. Não adianta apresentar argumentos racionais, pois é religioso, é fascista!

Eu perdoo os ignorantes que apoiam o fascismo, pois esses são teleguiados pelas mídias controladas pelas elites. Como posso ter raiva de alguém que apoia o fascismo se ele não tem a menor ideia do que isso seja? Se esses foram educados a odiar a política desde sempre e agora aparece um salvador da pátria que se apresenta como "não-político" que resolverá tudo.

Perdoo esses, mas não perdoo os instruídos. Os instruídos, os que tem noção de política, que apoiam o fascismo (Bolso) não terão o meu perdão!

A minha vida está em risco! É meu emprego! Minha profissão, que perderei... minha militância, minha liberdade, minha vida! Os ignorantes não sabem o mal que estão fazendo, mas os instruídos tem sim! E não podem alegar ignorância depois da tragédia que virá...!

Se você tem instrução e apoia o fascismo eu não quero estar perto de você e não quero que você faça parte da minha vida.

E não estou falando de divergência política, estou falando de caráter, da moral mais básica!

Com o fascismo não se dialoga! Se combate!

PROFESSOR e sociólogo 
Vitor Fernandes