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sábado, 2 de janeiro de 2016

ALERTA! TRAGÉDIAS CLIMÁTICAS EM 2016: El Ninõ (seca) e La Ninã (inundações) - BBC Brasil



O mais forte ciclo do fenômeno climático El Niño registrado até o momento deverá aumentar os riscos de fome e doenças para milhões de pessoas em 2016, alertam organizações humanitárias. Segundo previsões, o El Niño deverá exacerbar secas em algumas áreas e acentuar inundações em outras. Algumas das áreas mais afetadas estão no continente africano, onde a escassez de comida poderá atingir seu pico em fevereiro. Partes do Caribe e das Américas Central e do Sul também deverão ser atingidas nos próximos seis meses.

Especialistas descrevem o El Niño como um fenômeno climático que envolve o aquecimento incomum das águas superficiais e sub-superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Suas causas ainda não são bem conhecidas.

Após analisar imagens de satélite, a Nasa (agência espacial americana) afirma que o El Niño de 2015-2016 poderá ser comparado ao que muitos chamaram de "fenômeno monstruoso" de 18 anos atrás.

"Sem dúvida são muito parecidos. Os fenômenos (El Niño) de 1982-1983 e 1997-1998 foram os de maior impacto no século passado, e parece que agora vemos uma repetição", disse William Patzert, especialista em clima do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa (JPL, na sigla em inglês) e um dos mais importantes estudiosos do El Niño dos EUA.

O pesquisador afirmou ainda que é "quase fato que os impactos serão enormes".

Esse evento periódico, que tende a elevar temperaturas globais e alterar padrões climáticos, ajudou 2015 a bater o recorde de ano mais quente da história.

Algumas medições dizem que este e o El Niño mais forte já registrado

"De acordo com certas medições, esse já foi o El Niño mais forte registrado. Depende da maneira como você mede", disse o cientista Nick Klingaman, da Universidade de Reading, na Inglaterra.

"Em vários países tropicais temos observado reduções de entre 20 e 30% nas chuvas. Houve seca severa na Indonésia. Na Índia, as monções (chuvas) foram 15% abaixo do normal e as previsões para o Brasil e Austrália são de redução nas chuvas."

As secas e inundações, e o impacto potencial que representam, preocupam as agências de ajuda humanitária. Cerca de 31 milhões de pessoas estão sob risco de escassez de alimentos na África – um aumento significativo em relação a 2014. Cerca de um terço dessas pessoas vive na Etiópia, país em que 10,2 milhões de pessoas deverão demandar assistência em 2016, segundo previsões.

El Niño
O fenômeno climático El Niño faz com que águas quentes do Pacífico central se espalhem na direção das Américas do Norte e do Sul. Ele foi observado por pescadores na costa da América do Sul por volta de 1600, quando as águas do Oceano Pacífico ficaram estranhamente quentes. O nome, El Niño, é uma referência ao menino Jesus.

O El Niño acontece em intervalos entre dois e sete anos, normalmente atingindo seu pico no final do ano – embora seus efeitos possam persistir até os três primeiros meses do ano seguinte e durar até 12 meses. O atual El Niño é o mais forte registrado desde 1998 e, segundo os especialistas, deve ficar entre os três mais poderosos de que se tem conhecimento. Segundo a World Water Organization (Organização Mundial da Água, ou WWO), nos três meses de pico, médias de temperatura na superfície das águas do Pacífico tropical devem ficar mais de 2ºC acima do normal.

Fenômeno provocou forte seca no nordeste brasileiro e inundações no sul do Brasil e norte da Argentina

Um forte El Niño ocorrido há cinco anos estava ligado a chuvas de monções fracas no sudeste da Ásia, secas no sul da Austrália, das Filipinas e do Equador, nevascas nos Estados Unidos, ondas de calor no Brasil e enchentes no México. Segundo William Patzert, o fenômeno tem causado a forte seca no nordeste brasileiro, enquanto que no sul do Brasil e norte da Argentina são registradas inundações.

A combinação do aquecimento global com a intensidade do fenômeno esse ano deve fazer com que esse verão seja um dos mais quentes de todos os tempos no Brasil, com as temperaturas ultrapassando facilmente os 40ºC por vários dias seguidos em locais como Rio de Janeiro, Piauí e Tocantins. Segundo meteorologistas, os termômetros podem registrar até 4ºC acima dos valores médios.

Alerta
Segundo a ONU, cerca de 60 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar suas casas por causa de conflitos. Organizações humanitárias como a Oxfam, por exemplo, estão preocupadas com o impacto adicional que o fenômeno climático possa provocar, tendo em vista as pressões provocadas pelos conflitos na Síria, no Sudão do Sul e no Iêmen. As agências dizem que a falta de comida deve atingir seu ponto crítico no Sul da África em fevereiro. No Malauí, autoridades calculam que quase três milhões de pessoas irão precisar de assistência antes de março.

Secas e chuvas erráticas afetaram dois milhões de pessoas em Guatemala, Honduras, El Salvador e Nicarágua. Há previsões de mais inundações na América Central em janeiro.
"Milhões de pessoas em lugares como Etiópia, Haiti e Papua Nova Guiné já estão sentindo os efeitos da seca e das perdas de lavouras", disse Jane Cocking, da Oxfam.
"Precisamos urgentemente levar assistência a essas áreas para assegurar que as pessoas tenham água e alimentos suficientes. Não podemos permitir que outras situações de emergência ocorram em outras áreas. Se o mundo ficar esperando para responder às crises emergindo no sul da África e na América Latina, não teremos como atender à demanda", acrescentou.

Efeito inverso
Se por um lado os efeitos de El Niño serão sentidos de forma mais aguda nos países em desenvolvimento, no mundo desenvolvido o impacto será sentido nos preços de alimentos.
"Leva algum tempo para que o impacto do El Niño seja sentido nos sistemas sociais e econômicos", disse Klingaman.
"A tendência, historicamente, é que preços subam entre 5 e 10% para alimentos básicos. Lavouras de café, arroz, cacau e açúcar tendem a ser particularmente afetadas."
O El Niño deve terminar por volta do outono no hemisfério sul (primavera no norte). Mas o fim desse ciclo não é boa notícia tão pouco: esse fenômeno climático tende a ser sucedido pelo seu reverso – ou seja, eventos climáticos conhecidos como La Niña, que podem trazer efeitos opostos mas igualmente danosos.

Segundo cientistas, durante o El Niño ocorre uma imensa transferência de calor do oceano para a atmosfera. Normalmente, como aconteceu no ciclo de 1997/98, essa transferência de calor tende a ser seguida por um resfriamento do oceano – o evento La Niña.

"É possível – mas não estamos certos – que nesse período no ano que vem estejamos falando sobre o reverso de muitos desses impactos", explicou Klingaman.

"Em países onde El Niño trouxe secas, pode haver inundações trazidas por La Niña no ano que vem. É tão devastador quanto – porém, na direção inversa."





segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O MAL: COMO ESQUECER, POR QUE ESQUECER? por Carol Leão



Fantástico ensaio muito bem escrito e descrito.
Surpreendente a lucidez de Hannah Arendt.
"banalidade do mal se instala na ausência de pensamento"


Michaelangelo
Intelectual intuitiva, estudante prodígio, pesquisadora incansável e polêmica. De aprendiz e amante de Martin Heidegger, o filósofo alemão mais influente do século 20, a desafeto da comunidade judaica, cultura da qual se origina e com a qual começa a discutir o pensamento moderno, Hannah Arendt tinha alquimia suficiente para ser uma intelectual pop star, se estivesse em nosso tempo. No entanto, ficou restrita a círculos acadêmicos; sendo citada e recomendada, mas pouco difundida ou discutida no Brasil.

A biógrafa Laura Adler resume: “é a única mulher do século 20 que tentou dar conta dos tormentos do século e que soube descrever como essas cisões da humanidade haviam arruinado a crença numa razão capaz de explicar o que tenha acontecendo, atacando, no interior de cada um de nós, a própria ideia de universal”.

Atualmente, com o crescimento da intolerância – religiosa, sexual ou étnica –, Hannah volta ao debate sobre as condições capazes de, mesmo tendo aprendido sob o impacto de sistemas políticos trágicos, como o nazismo ou a ditadura, fazer com que nos deparemos com pessoas que clamam com plena convicção a volta de tais regimes, como uma chamada à “ordem”.

Apontamentos que nos servem de reflexão para o entendimento do crescimento de ideologias totalitaristas ou excludentes, apoiadas por uma rede de anonimato e executados nas multidões das ruas, que vão ao espaço público pedir a força como nova engrenagem para a manutenção da ordem. No pelotão de fuzilamento, o povo. Estigmas de classe, etnia, geografia, sexualidade rompem a barreira do bom senso e chegam em memes, vídeos caseiros e toda a sorte de material que circula indiscriminadamente no ambiente virtual e real, aprovando o que um dia foi responsável pela morte, prisão e tortura de milhares.

Seu questionamento sobre a banalidade do mal ou sobre a condição humana pode nos direcionar a compreender de certa forma o que motiva pessoas aparentemente “esclarecidas” a optar por defesas intransigentes sobre a validade de determinadas políticas como um retorno a um sistema “ideal”. Eduardo Jardim, da PUC-RIO, estudioso da obra de Arendt, aponta para as perguntas feitas por ela: “será que a ausência de pensamento tem alguma coisa a ver com o pensamento? Existe uma dimensão moral do pensamento? Pensar previne de cometer o mal?”, coloca. Hannah procurou desenvolver essa problemática dentro de uma tradição ética e moral, destacando, porém, os aspectos práticos que nos levam a determinados gaps históricos. Como podemos esquecer? Por que esquecemos? É uma pergunta retórica e cuja resposta pode ser encontrada tanto no sistema estrutural que marca a nossa consolidação como nação, quanto na naturalização de opiniões radicais, que vão de encontro a uma série de conquistas ligadas aos Direitos Humanos.

RECEPÇÃO
Coincidentemente, ou não, o pensamento de Hannah chegou ao Brasil, apenas nos anos 70, durante o Regime Militar, três décadas após a publicação de sua principal obra, As origens do totalitarismo. Em uma de suas últimas entrevistas televisionadas, filmada sempre com um cigarro na mão, faz questão de ratificar sua posição. “Nunca fui uma filósofa, sou uma teórica da política”. As fronteiras do seu pensamento também chegam à academia, onde foi disseminada primeiramente nos circuitos filosóficos para, em seguida, ganhar status na teoria política, o que só veio acontecer na década de 80.

Durante os anos 90, o crescimento das análises sobre o cenário global e o surgimento dos cursos de Relações Internacionais contribuíram para o aumento do interesse pela obra da intelectual nascida em Hannover. Em 2006, a jornalista Laura Adler lançou o livro Nos Passos de Hannah, no qual investiga sua origem e produção mas foca, sobretudo, nas passagens mais polêmicas de sua trajetória.

A primeira delas, a relação com Heidegger, filósofo que a encantou e influenciou e de quem se distanciou duas vezes: primeiro quando desistiu de ser a jovem amante do influente pensador; posteriormente, quando Heidegger adere à propaganda nazista e Hannah, ainda no início de sua carreira, já intui que a nova política alemã poderia gerar um sistema totalitarista. Outro grande problema na trajetória de Arendt foi a publicação de Eichmann em Jerusalém. Hannah, que se refugiou em Paris e nos EUA durante o regime nazista, não conseguiu acompanhar o principal julgamento das atrocidades nazistas, o conhecido Julgamento em Nuremberg. Quando Eichmann, um dos oficiais nazistas, foi encontrado, vivendo de forma simples e anônima numa cidadela argentina e, então, levado para Jerusalém para ser confrontado por um tribunal, Hannah viu a chance de acompanhar de perto a confissão monstruosa de um membro da Gestapo.

Suas impressões, no entanto, chocaram a comunidade judaica, entre eles Gershon Scholen, outrora amigo da pensadora. Hannah observou a midiatização e espetacularização do julgamento, enfatizando, sobretudo, a perspectiva de diabolização, digamos assim, coordenada pela corte israelense. Havia um massacre e um responsável por um massacre. Gripado e sem muita retórica, Eichmann respondia burocraticamente às perguntas levantadas pelo júri promotor, esclarecendo para a pensadora de que não se tratava de um assassino sanguinário, mas de um homem relativamente comum.

Para Eduardo Jardim, da PUC-RIO, filósofo e estudioso da bibliografia arendtiana, a popularização de sua teoria tem crescido consideravelmente e tem ido além da obra mais conhecida, Eichmann em Jerusalém, que gerou o tema da “banalização do mal”. “Isto significa que a filósofa foi não só uma pessoa muito conhecida na sua época, quando participou dos debates públicos sobre assuntos tão variados como, entre outros, o julgamento de Eichmann, a questão da integração racial, a crise das universidades e os conflitos no Oriente Médio. Ela ganhou também uma fama póstuma, aquela que é mais duradoura e que é das mais raras e menos desejadas formas de notoriedade”, aponta.

Para Jardim, o sucesso do pensamento de Hannah reside nas abordagens executadas ao longo de sua construção teórica. “É sabido que Hannah Arendt interessou-se pela política sob dois aspectos. Por um lado, ela apresentou um diagnóstico da situação contemporânea marcada pela falência da autoridade política e das instituições tradicionais. Por outro, ela pretendeu pensar a partir de novas bases o que é a política e esteve atenta para o aparecimento de novas formas de experiência política na história recente, sobretudo nos episódios revolucionários”, descreve.

“Ainda podemos utilizá-la como parâmetro?”, pergunta Jardim. Primeiro, ele coloca a forte instabilidade do cenário político atual como um elemento importante para se rever/reler Hannah Arendt à luz de seu pensamento original. “Nota-se o descrédito das formas políticas tradicionais, e não se vislumbram novos caminhos. Ainda vivemos nos ‘tempos sombrios’, como chamou a filósofa. E somos desafiados a compreender este tempo. As análises de Hannah Arendt da crise da política na contemporaneidade, em obras como A condição humana, Entre o passado e o futuro e Crises da república, são muito importantes para dar conta da situação política contemporânea”, explica.

Apesar de ser dona de uma obra extensa, densa, como As origens do totalitarismo, cujos originais continham mais de 900 páginas, a tese sobre a banalidade do mal ainda hoje centraliza a sua visibilidade do ponto de vista midiático e editorial. A discussão surgiu em 1963, época do crescimento das ditaduras latino-americanas. Jardim descreve a sua investida na análise do Julgamento em Nuremberg como um dever moral para consigo mesmo e contrariou a indicação dos amigos para que não se envolvesse no assunto. “Durante o julgamento o aspecto que mais intrigou Hannah Arendt na figura de Eichmann foi sua incapacidade de pensar e de julgar por conta própria, ou seja, sua total irreflexão. O criminoso Eichmann não parecia ter sido motivado em suas ações por nenhum elemento especialmente profundo, por alguma forma de ódio ou de ressentimento. Não se assemelhava a nenhum dos personagens da literatura que Hannah Arendt conhecia, como os das peças de Shakespeare ou dos romances de Melville. Eichmann simplesmente não tinha a capacidade para questionar as ordens que recebia. Seus crimes eram monstruosos, mas os motivos para cometê-los não eram profundos, mas banais”.

Hannah Arendt chamou atenção também para o fato de que, nos contextos totalitários, crimes podem ser cometidos sem uma justificativa ideológica precisa. Celso Lafer, um dos filósofos que introduziram o pensamento de Hannah no circuito acadêmico brasileiro, coloca bem, nos cadernos Estudos avançados da USP, a atualidade de sua obra: “No mundo contemporâneo continuam a persistir situações sociais, políticas e econômicas que, mesmo depois do término dos regimes totalitários, contribuem para transformar os homens em criaturas supérfluas e sem lugar num mundo comum. Entre outras tendências, menciono a ubiquidade da pobreza e da miséria; a ameaça do holocausto nuclear; a irrupção da violência, os surtos terroristas, a limpeza étnica, os fundamentalismos excludentes e intolerantes”.

Em Reconstrução dos direitos humanos: um diálogo com o pensamento de Hannah, de 1988, Lafer aponta que a pensadora identifica, avalia e diagnostica a ruptura trazida pela experiência totalitária do nazismo e do stalinismo: a inauguração do tudo é possível. “O tudo é possível levou pessoas a serem tratadas, jure et facto, como supérfluas e descartáveis”.

O maior desafio do pensamento intelectual é dissertar coerentemente sobre seu tempo e não se esgotar na defasagem dos anos, das crises, das mudanças e das novas teorias que se renovam para dar lugar a tantas hipóteses sobre outros tempos e outras crises. Analisar os fenômenos sociais no decorrer de seus acontecimentos é como fotografar as consequências de um furacão quando ele ainda está em ação. Há sempre o risco de captar o pior ângulo possível ou, ainda, a melhor cena, sem qualidade técnica o suficiente para que o registro resista à sua instantaneidade.

Para o bem ou para o mal, Hannah Arendt, ao analisar os desdobramentos da razão moderna, e as piores consequências de sua instrumentalização, com os regimes totalitaristas, deixou um legado fundamental para a compreensão da sociedade contemporânea. Enfrentou o furacão e é dona do registro mais emblemático sobre as causas e desdobramentos de sua passagem pela civilização mais recente. Sobretudo na análise dos Direitos Humanos, sua abordagem continua respondendo, ainda, a questões filosóficas, práticas e pragmáticas. Como fora possível, por exemplo, que o mal tenha se estabelecido como burocracia, ao ponto de um funcionário da Gestapo acreditar estar fazendo a sua tarefa correta, portanto em paz com sua própria consciência, ao administrar a logística de extermínio de milhões de judeus?

A pergunta é respondida em Eichmann em Jesuralém, publicado, originalmente, em 5 artigos na conceituada revista New Yorker. E hoje, 50 anos depois do julgamento que condenou um dos oficiais da política nazista, ainda nos responde muita coisa. Para o bem ou para o mal. A trágica experiência de Auschwitz e a compulsória recusa do “outro” das culturas totalitaristas serviram como base para a Declaração universal dos direitos humanos (1948), texto de ordem mais filosófica do que jurídica, composta quase como um mea culpa da humanidade, pela recém-criada Organização das Nações Unidas.

Os regimes stalinista e nazista, responsáveis pelas atrocidades cometidas em nome de uma cultura “limpa”, eram ambos apoiados por uma logística administrativa e burocrática capaz de “banalizar o mal”. Para Arendt: naturalizar ou neutralizar o que para muitos poderia ser antiético ou amoral. Na Declaração universal dos direitos humanos há a projeção da igualdade social como uma entidade abstrata: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade”, diz. Arendt, porém, entendia essa igualdade como uma questão social.

“Nós não nascemos iguais. Nós nos tornamos iguais como o resultado da organização humana na medida em que é norteada pelo princípio da justiça”, conceitua Hannah. Igualdades e direitos não são naturalizados pelo conceito de civilização e desenvolvimento histórico. Estão, antes, como elabora em A condição humana, como a possibilidade de qualquer cidadão ter direito. “A igualdade é, assim, um construído político da convivência coletiva baseado na pluralidade dos seres humanos que compartilham a terra com outros seres humanos. Por isso, o primeiro direito é o direito a ter direitos, o que antes de mais nada significa dar a uma pessoa um lugar no mundo por meio do acesso a uma ordem jurídica e política”, arremata Celso Lafer, que amplamente divulgou a obra de Hannah Arendt nos anos 70. Em entrevista ao filósofo Eduardo Jardim, publicada em 2011, na revista de filosofia da PUC-RIO, Lafer aponta para o peso que a estrutura social, local onde se julgam juridicamente ou pelo senso comum as ações e opiniões, tem para oferecer na garantia de afirmação da diversidade de identidades com as quais convivemos diariamente.

Apesar da força simbólica da Declaração e da coerção da estrutura social, o progresso histórico não pôde evitar que mal de se alastrasse como uma erva daninha e dizimasse a ideia moderna de razão como capacidade de discernimento do bem e do mal, e, portanto, mecanismo social para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa ou igualitária, conforme a tese central do Iluminismo. A banalização do mal não é só possível, mas compartilhada e curtida diariamente num frenesi de ódio, desprezo, indiferença com todos aqueles que fogem de um suposto padrão de normatividade. Homossexuais, pretos, pobres, transexuais, nordestinos, mulheres. Não importa gênero, etnia, opção sexual, localização geográfica. Que os aceitemos, desde que não compartilhem o mesmo espaço conosco. Ou pior: não os aceitemos, pois não devem compartilhar o mesmo espaço conosco.

O ÓDIO MIDIÁTICO
O discurso de ódio se desenvolveu rapidamente na tribuna livre das redes sociais e da cultura da convergência midiática, ambiente desprovido de hierarquia tradicional, centralização e, sobretudo, burocratização. Em Eichmann em Jesusalém, Hannah avalia os mecanismos instrumentais capazes de criar não monstros, mas empregados funcionais. Nosso ambiente, porém, é ao mesmo tempo oposto e igual à perseguição implacável da cultura totalitarista. É diferente porque se distancia completamente da centralização de um poder autoritário. Mas se iguala ao mal de Auschwitz quando entendemos que a ética como instituição simbólica é incapaz de frear a maldade.

Células atomizadas, personagens anônimos, perfis falsos ou oficiais, como a Desumaniza, capitaneada pelo humorista Danilo Gentilli para parodiar a campanha Humaniza, do Governo Federal, lançada em abril exatamente para conter o rastro sanguinário da orgia de liberdade de expressão na web. Em uma semana de atuação, a Humaniza continha pouco mais de 7 mil seguidores. A Desumaniza, apoiada pelo simbolismo da celebridade, contabilizava mais de 20 mil usuários, dispostos a aproveitar tempo livre e criatividade para fazer nada mais do que o mal, em sua acepção mais ontológica possível: xingar, linchar, incitar o escárnio, o desprezo a quem estivesse fora do circuito de normalidade conceituado pela Desumaniza.

Sorrateiramente, a difamação assume um caráter performático. É uma atuação. Um papel social, cuja lógica não difere muito dos personagens, dos vilãos de HQ, que precisam existir para se contrapor e afirmar a autoridade do mocinho. O problema aqui é que a vilania performática existe num loop, num circuito de feedback e retroalimentação compactuado por grupos cada vez maiores que disseminam estigmas, estereótipos e indiferença – não há mocinhos, apenas a humanidade desolada. O poder simbólico é sorrateiro. Se esconde aonde menos podemos o reconhecer. Mas quando um negro é assassinado por ser negro ou um grupo de garotos acredita que é necessário estuprar mulheres “vulneráveis”, o poder simbólico se materializa em manchete de jornal, com a complacência de uma nação, completamente absorta no seu próprio automatismo.

Arendt dizia que a banalidade do mal se instala na ausência de pensamento. Ao discutir o mal, Hannah Arendt retomou o tema do Mal Radical, de Kant, um dos filósofos que mais contribuíram para o esclarecimento do problema da moral humana. Há, na verdade, uma grande e intensa tradição social e epistemológica em analisar o que é a maldade e como ela pode se desenvolver na sociedade. Kant parte de uma lógica ética: o que eu quero, eu posso; o que eu posso, eu devo? Hannah retoma essa questão de forma complexa mas que aponta para uma direção. Se eu quiser fazer o mal, o farei, independente de estrutura social e Declaração de Direitos Humanos. E não. Não se trata de uma massa de psicopata. Mas daquele vizinho, da sua manicure, de um estudante ou de um parente próximo que, ao descortinarmos o véu de sua atuação social, encontraremos alguém com crença suficiente para acreditar que defender o linchamento de um criminoso é o que podemos fazer para viver melhor.

“Minha opinião é de que o mal é apenas extremo e não possui profundidade nem qualquer dimensão demoníaca. Ele pode cobrir e deteriorar o mundo inteiro precisamente porque se espalha como um fungo na superfície. Ele é ‘desafiador-do-pensamento’, como eu disse, porque o pensamento tenta alcançar alguma profundidade, chegar às raízes, e o momento em que se ocupa do mal é frustrado porque não há nada. Essa é sua ‘banalidade’”, diz a pensadora.

Que o mal existe não há dúvida. No nazismo, uma lógica administrativa tornou possível a sua produção. E na web? O que diríamos dessa massa de anônimos armados até os dentes com o mínimo de discurso e o máximo de ódio a fim de simplesmente boicotar conquistas decanas em torno da igualdade de direitos? De certa forma, a web se aproxima do conceito de esfera pública grega em Hannah Arendt. A polis era como um palco comum a todos os habitantes, onde os indivíduos-atores poderiam aparecer e contracenar tendo assim reconhecidas e certificadas as suas existências pelos seus cidadãos-espectadores. “Fazer valer sua própria opinião, referia-se a ser capaz de mostrar-se, ser visto e ouvido pelos outros. Para os gregos, esse era um grande privilégio que se ligava à vida pública e que faltava à privacidade doméstica, em que não se é visto nem ouvido por outros. Na vida privada se está escondido e não se pode aparecer nem brilhar, não sendo ali, portanto, qualquer doxa”.

A polis era um espaço de cooperação, ação coletiva mas também de disputa entre os cidadãos Num mundo marcado pela imprevisibilidade inerente à própria capacidade dos homens de tomarem novas iniciativas, o novo mal banalizado assume os mesmos riscos e pode ser extraído de um sistema muito mais complexo, tratado por Hannah Arendt: a atomização dos indivíduos sob o sistema produtivo industrial. A lógica capitalista, materializada na sociedade de consumo, aniquila e reduz a conexão entre os indivíduos, eliminando a solidariedade comunitária.

Paloma Mendes Saldanha, advogada e especialista em ciberativismo, relata a polarização e contradição dessa nova plataforma: “O que para uns significa liberdade de expressão, para outros significa agressão. As pessoas estão utilizando o ciberespaço para manifestar seus piores sentimentos, suas opiniões mais bizarras, sem se importar com palavras como ‘limite’ e ‘respeito’. É como se as tecnologias da informação tivessem servido como válvula de escape para sentimentos negativos que estavam represados. Dessa forma, a sensação de impunidade no meio virtual pode ser vista como ponto fundamental para esse fenômeno contemporâneo”, coloca.

Para Paloma, há normas de Direitos Humanos sobre liberdade de expressão e sobre a internet. Há, também, normas de Direitos Humanos sobre isso, normas na constituição, legislação federal etc. “O problema (ou não!) é que tais normas são abstratas, no sentido de apenas garantir a liberdade de expressão e a não interferência de alguns provedores de rede no que diz respeito ao conteúdo da informação. O problema consiste em se usar deste direito fundamental de forma negativa. Existe uma tendência mundial de se prezar pela liberdade de expressão, garantindo-a de forma absoluta, porém punindo os usos desta liberdade que terminem constrangendo demais pessoas. Não é negar a possibilidade de se expressar, mas garantir que as pessoas se expressem com responsabilidade e ética”, acredita.

Outro problema enfrentado é a própria velocidade do meio virtual, diz a especialista: “Do que adianta termos leis específicas para um determinado ‘crime virtual’, por exemplo, se daqui há 1 (uma) semana esta conduta colocada como crime virtual estará desatualizada, tendo em vista a existência de uma nova conduta? A legislação tem que ter efeito e ser eficaz para a sociedade. Se já não tem mais serventia ela sequer deveria estar no ordenamento”, afirma.





domingo, 27 de setembro de 2015

DISCURSO HISTÓRICO NA ÍNTEGRA (ESCRITO EM PORTUGUÊS E VÍDEO EM ESPANHOL) DO PAPA FRANCISCO NA SEDE DAS ONU - 25/09/15


Sou fã, discípula do Evangelho que o Papa Francisco prega do verdadeiro cristianismo. Continuo sendo Espírita Kardecista, porém tem voltado meus olhos e coração para este atual Papa. 





Viagem do Papa Francisco aos Estados Unidos

Visita à Sede da Organização das Nações Unidas – ONU

Sexta-feira, 25 de setembro de 2015



Senhor Presidente,

Senhoras e Senhores!

Mais uma vez, seguindo uma tradição de que me sinto honrado, o Secretário-Geral das Nações Unidas convidou o Papa para falar a esta distinta assembleia das nações. Em meu nome e em nome de toda a comunidade católica, Senhor Ban Ki-moon, desejo manifestar-lhe a gratidão mais sincera e cordial; agradeço-lhe também as suas amáveis palavras. Saúdo ainda os chefes de Estado e de Governo aqui presentes, os embaixadores, os diplomatas e os funcionários políticos e técnicos que os acompanham, o pessoal das Nações Unidas empenhado nesta LXX Sessão da Assembleia Geral, o pessoal de todos os programas e agências da família da ONU e todos aqueles que, por um título ou outro, participam nesta reunião. Por vosso intermédio, saúdo também os cidadãos de todas as nações representadas neste encontro. Obrigado pelos esforços de todos e cada um em prol do bem da humanidade.

Esta é a quinta vez que um Papa visita as Nações Unidas. Fizeram-no os meus antecessores Paulo VI em 1965, João Paulo II em 1979 e 1995 e o meu imediato antecessor, hoje Papa emérito Bento XVI, em 2008. Nenhum deles poupou expressões de reconhecido apreço pela Organização, considerando-a a resposta jurídica e política adequada para o momento histórico, caracterizado pela superação das distâncias e das fronteiras graças à tecnologia e, aparentemente, superação de qualquer limite natural à afirmação do poder. Uma resposta imprescindível, dado que o poder tecnológico, nas mãos de ideologias nacionalistas ou falsamente universalistas, é capaz de produzir atrocidades tremendas. Não posso deixar de me associar ao apreçamento dos meus antecessores, reiterando a importância que a Igreja Católica reconhece a esta instituição e as esperanças que coloca nas suas actividades.

A história da comunidade organizada dos Estados, representada pelas Nações Unidas, que festeja nestes dias o seu septuagésimo aniversário, é uma história de importantes sucessos comuns, num período de inusual aceleração dos acontecimentos. Sem pretender ser exaustivo, pode-se mencionar a codificação e o desenvolvimento do direito internacional, a construção da normativa internacional dos direitos humanos, o aperfeiçoamento do direito humanitário, a solução de muitos conflitos e operações de paz e reconciliação, e muitas outras aquisições em todos os sectores da projecção internacional das actividades humanas. Todas estas realizações são luzes que contrastam a obscuridade da desordem causada por ambições descontroladas e egoísmos colectivos. Apesar de serem muitos os problemas graves por resolver, todavia é seguro e evidente que, se faltasse toda esta actividade internacional, a humanidade poderia não ter sobrevivido ao uso descontrolado das suas próprias potencialidades. Cada um destes avanços políticos, jurídicos e técnicos representa um percurso de concretização do ideal da fraternidade humana e um meio para a sua maior realização.

Por isso, presto homenagem a todos os homens e mulheres que serviram, com lealdade e sacrifício, a humanidade inteira nestes setenta anos. Em particular, desejo hoje recordar aqueles que deram a sua vida pela paz e a reconciliação dos povos, desde Dag Hammarskjöld até aos inúmeros funcionários, de qualquer grau, caídos nas missões humanitárias de paz e reconciliação.

A experiência destes setenta anos demonstra que, para além de tudo o que se conseguiu, há constante necessidade de reforma e adaptação aos tempos, avançando rumo ao objetivo final que é conceder a todos os países, sem exceção, uma participação e uma incidência reais e equitativas nas decisões. Esta necessidade duma maior equidade é especialmente verdadeira nos órgãos com capacidade executiva real, como o Conselho de Segurança, os organismos financeiros e os grupos ou mecanismos criados especificamente para enfrentar as crises econômicas. Isto ajudará a limitar qualquer espécie de abuso ou usura especialmente sobre países em vias de desenvolvimento. Os Organismos Financeiros Internacionais devem velar pelo desenvolvimento sustentável dos países, evitando uma sujeição sufocante desses países a sistemas de crédito que, longe de promover o progresso, submetem as populações a mecanismos de maior pobreza, exclusão e dependência.

A tarefa das Nações Unidas, com base nos postulados do Preâmbulo e dos primeiros artigos da sua Carta constitucional, pode ser vista como o desenvolvimento e a promoção da soberania do direito, sabendo que a justiça é um requisito indispensável para se realizar o ideal da fraternidade universal. Neste contexto, convém recordar que a limitação do poder é uma ideia implícita no conceito de direito. Dar a cada um o que lhe é devido, segundo a definição clássica de justiça, significa que nenhum indivíduo ou grupo humano se pode considerar onipotente, autorizado a pisar a dignidade e os direitos dos outros indivíduos ou dos grupos sociais. A efetiva distribuição do poder (político, econômico, militar, tecnológico, etc.) entre uma pluralidade de sujeitos e a criação dum sistema jurídico de regulação das reivindicações e dos interesses realiza a limitação do poder. Mas, hoje, o panorama mundial apresenta-nos muitos direitos falsos e, ao mesmo tempo, amplos setores sem proteção, vítimas inclusivamente dum mau exercício do poder: o ambiente natural e o vasto mundo de mulheres e homens excluídos são dois setores intimamente unidos entre si, que as relações políticas e econômicas preponderantes transformaram em partes frágeis da realidade. Por isso, é necessário afirmar vigorosamente os seus direitos, consolidando a proteção do meio ambiente e pondo fim à exclusão.

Antes de mais nada, é preciso afirmar a existência dum verdadeiro «direito do ambiente», por duas razões. Em primeiro lugar, porque como seres humanos fazemos parte do ambiente. Vivemos em comunhão com ele, porque o próprio ambiente comporta limites éticos que a ação humana deve reconhecer e respeitar. O homem, apesar de dotado de «capacidades originais [que] manifestam uma singularidade que transcende o âmbito físico e biológico» (Enc. Laudato si’, 81), não deixa ao mesmo tempo de ser uma porção deste ambiente. Possui um corpo formado por elementos físicos, químicos e biológicos, e só pode sobreviver e desenvolver-se se o ambiente ecológico lhe for favorável. Por conseguinte, qualquer dano ao meio ambiente é um dano à humanidade. Em segundo lugar, porque cada uma das criaturas, especialmente seres vivos, possui em si mesma um valor de existência, de vida, de beleza e de interdependência com outras criaturas. Nós cristãos, juntamente com as outras religiões monoteístas, acreditamos que o universo provém duma decisão de amor do Criador, que permite ao homem servir-se respeitosamente da criação para o bem dos seus semelhantes e para a glória do Criador, mas sem abusar dela e muito menos sentir-se autorizado a destruí-la. E, para todas as crenças religiosas, o ambiente é um bem fundamental (cf. ibid., 81).

O abuso e a destruição do meio ambiente aparecem associados, simultaneamente, com um processo ininterrupto de exclusão. Na verdade, uma ambição egoísta e ilimitada de poder e bem-estar material leva tanto a abusar dos meios materiais disponíveis como a excluir os fracos e os menos hábeis, seja pelo fato de terem habilidades diferentes (deficientes), seja porque lhes faltam conhecimentos e instrumentos técnicos adequados ou possuem uma capacidade insuficiente de decisão política. A exclusão econômica e social é uma negação total da fraternidade humana e um atentado gravíssimo aos direitos humanos e ao ambiente. Os mais pobres são aqueles que mais sofrem esses ataques por um triplo e grave motivo: são descartados pela sociedade, ao mesmo tempo são obrigados a viver de desperdícios, e devem sofrer injustamente as consequências do abuso do ambiente. Estes fenômenos constituem, hoje, a «cultura do descarte» tão difundida e inconscientemente consolidada.

O caráter dramático de toda esta situação de exclusão e desigualdade, com as suas consequências claras, leva-me, juntamente com todo o povo cristão e muitos outros, a tomar consciência também da minha grave responsabilidade a este respeito, pelo que levanto a minha voz, em conjunto com a de todos aqueles que aspiram por soluções urgentes e eficazes. A adoção da «Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável», durante a Cimeira Mundial que hoje mesmo começa, é um sinal importante de esperança. Estou confiado também que a Conferência de Paris sobre as alterações climáticas alcance acordos fundamentais e efetivos.

Todavia não são suficientes os compromissos solenemente assumidos, mesmo se constituem um passo necessário para a solução dos problemas. A definição clássica de justiça, a que antes me referi, contém como elemento essencial uma vontade constante e perpétua: Iustitia est constans et perpetua voluntas ius suum cuique tribuendi. O mundo pede vivamente a todos os governantes uma vontade efetiva, prática, constante, feita de passos concretos e medidas imediatas, para preservar e melhorar o ambiente natural e superar o mais rapidamente possível o fenômeno da exclusão social e econômica, com suas tristes consequências de tráfico de seres humanos, tráfico de órgãos e tecidos humanos, exploração sexual de meninos e meninas, trabalho escravo, incluindo a prostituição, tráfico de drogas e de armas, terrorismo e criminalidade internacional organizada. Tal é a magnitude destas situações e o número de vidas inocentes envolvidas que devemos evitar qualquer tentação de cair num nominalismo declamatório com efeito tranquilizador sobre as consciências. Devemos ter cuidado com as nossas instituições para que sejam realmente eficazes na luta contra estes flagelos.

A multiplicidade e complexidade dos problemas exigem servir-se de instrumentos técnicos de medição. Isto, porém, esconde um duplo perigo: limitar-se ao exercício burocrático de redigir longas enumerações de bons propósitos – metas, objetivos e indicadores estatísticos –, ou julgar que uma solução teórica única e apriorística dará resposta a todos os desafios. É preciso não perder de vista, em momento algum, que a ação política e econômica só é eficaz quando é concebida como uma atividade prudencial, guiada por um conceito perene de justiça e que tem sempre presente que, antes e para além de planos e programas, existem mulheres e homens concretos, iguais aos governantes, que vivem, lutam e sofrem e que muitas vezes se vêem obrigados a viver miseravelmente, privados de qualquer direito.

Para que estes homens e mulheres concretos possam subtrair-se à pobreza extrema, é preciso permitir-lhes que sejam atores dignos do seu próprio destino. O desenvolvimento humano integral e o pleno exercício da dignidade humana não podem ser impostos; devem ser construídos e realizados por cada um, por cada família, em comunhão com os outros seres humanos e num relacionamento correto com todos os ambientes onde se desenvolve a sociabilidade humana – amigos, comunidades, aldeias e vilas, escolas, empresas e sindicatos, províncias, países, etc. Isto supõe e exige o direito à educação – mesmo para as meninas (excluídas em alguns lugares) –, que é assegurado antes de mais nada respeitando e reforçando o direito primário das famílias a educar e o direito das Igrejas e de agregações sociais a apoiar e colaborar com as famílias na educação das suas filhas e dos seus filhos. A educação, assim entendida, é a base para a realização da Agenda 2030 e para a recuperação do ambiente.

Ao mesmo tempo, os governantes devem fazer o máximo possível por que todos possam dispor da base mínima material e espiritual para tornar efetiva a sua dignidade e para formar e manter uma família, que é a célula primária de qualquer desenvolvimento social. A nível material, este mínimo absoluto tem três nomes: casa, trabalho e terra. E, a nível espiritual, um nome: liberdade do espírito, que inclui a liberdade religiosa, o direito à educação e os outros direitos civis.

Por todas estas razões, a medida e o indicador mais simples e adequado do cumprimento da nova Agenda para o desenvolvimento será o acesso efetivo, prático e imediato, para todos, aos bens materiais e espirituais indispensáveis: habitação própria, trabalho digno e devidamente remunerado, alimentação adequada e água potável; liberdade religiosa e, mais em geral, liberdade do espírito e educação. Ao mesmo tempo, estes pilares do desenvolvimento humano integral têm um fundamento comum, que é o direito à vida, e, em sentido ainda mais amplo, aquilo a que poderemos chamar o direito à existência da própria natureza humana.

A crise ecológica, juntamente com a destruição de grande parte da biodiversidade, pode pôr em perigo a própria existência da espécie humana. As nefastas consequências duma irresponsável má gestão da economia mundial, guiada unicamente pela ambição de lucro e poder, devem constituir um apelo a esta severa reflexão sobre o homem: «O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza» (BENTO XVI, Discurso ao Parlamento da República Federal da Alemanha, 22 de Setembro de 2011; citado na Enc. Laudato si’, 6). A criação vê-se prejudicada «onde nós mesmos somos a última instância (…). E o desperdício da criação começa onde já não reconhecemos qualquer instância acima de nós, mas vemo-nos unicamente a nós mesmos» (BENTO XVI, Discurso ao clero da Diocese de Bolzano-Bressanone, 6 de Agosto de 2008; citado na Enc. Laudato si’, 6). Por isso, a defesa do ambiente e a luta contra a exclusão exigem o reconhecimento duma lei moral inscrita na própria natureza humana, que inclui a distinção natural entre homem e mulher (cf. Enc. Laudato si’, 155) e o respeito absoluto da vida em todas as suas fases e dimensões (cf. ibid., 123; 136).

Sem o reconhecimento de alguns limites éticos naturais inultrapassáveis e sem a imediata atuação dos referidos pilares do desenvolvimento humano integral, o ideal de «preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra» (Carta das Nações Unidas, Preâmbulo) e «promover o progresso social e um padrão mais elevado de viver em maior liberdade» (ibid.) corre o risco de se tornar uma miragem inatingível ou, pior ainda, palavras vazias que servem como desculpa para qualquer abuso e corrupção ou para promover uma colonização ideológica através da imposição de modelos e estilos de vida anormais, alheios à identidade dos povos e, em última análise, irresponsáveis.

A guerra é a negação de todos os direitos e uma agressão dramática ao meio ambiente. Se se quiser um desenvolvimento humano integral autêntico para todos, é preciso continuar incansavelmente no esforço de evitar a guerra entre as nações e entre os povos.

Para isso, é preciso garantir o domínio incontrastado do direito e o recurso incansável às negociações, aos mediadores e à arbitragem, como é proposto pela Carta das Nações Unidas, verdadeira norma jurídica fundamental. A experiência destes setenta anos de existência das Nações Unidas, em geral, e, de modo particular, a experiência dos primeiros quinze anos do terceiro milênio mostram tanto a eficácia da plena aplicação das normas internacionais como a ineficácia da sua inobservância. Se se respeita e aplica a Carta das Nações Unidas, com transparência e sinceridade, sem segundos fins, como um ponto de referência obrigatório de justiça e não como um instrumento para mascarar intenções ambíguas, obtém-se resultados de paz. Quando, pelo contrário, se confunde a norma com um simples instrumento que se usa quando resulta favorável e se contorna quando não o é, abre-se uma verdadeira caixa de Pandora com forças incontroláveis, que prejudicam seriamente as populações inermes, o ambiente cultural e também o ambiente biológico.

O Preâmbulo e o primeiro artigo da Carta das Nações Unidas indicam as bases da construção jurídica internacional: a paz, a solução pacífica das controvérsias e o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações. Contrasta fortemente com estas afirmações – e nega-as na prática – a tendência sempre presente para a proliferação das armas, especialmente as de destruição em massa, como o podem ser as armas nucleares. Uma ética e um direito baseados sobre a ameaça da destruição recíproca – e, potencialmente, de toda a humanidade – são contraditórios e constituem um dolo em toda a construção das Nações Unidas, que se tornariam «Nações Unidas pelo medo e a desconfiança». É preciso trabalhar por um mundo sem armas nucleares, aplicando plenamente, na letra e no espírito, o Tratado de Não-Proliferação para se chegar a uma proibição total destes instrumentos.

O recente acordo sobre a questão nuclear, numa região sensível da Ásia e do Médio Oriente, é uma prova das possibilidades da boa vontade política e do direito, cultivados com sinceridade, paciência e constância. Faço votos de que este acordo seja duradouro e eficaz e, com a colaboração de todas as partes envolvidas, produza os frutos esperados.

Nesta linha, não faltam provas graves das consequências negativas de intervenções políticas e militares não coordenadas entre os membros da comunidade internacional. Por isso, embora desejasse não ter necessidade de o fazer, não posso deixar de reiterar os meus apelos que venho repetidamente fazendo em relação à dolorosa situação de todo o Médio Oriente, do Norte de África e de outros países africanos, onde os cristãos, juntamente com outros grupos culturais ou étnicos e também com aquela parte dos membros da religião maioritária que não quer deixar-se envolver pelo ódio e a loucura, foram obrigados a ser testemunhas da destruição dos seus lugares de culto, do seu patrimônio cultural e religioso, das suas casas e haveres, e foram postos perante a alternativa de escapar ou pagar a adesão ao bem e à paz com a sua própria vida ou com a escravidão.

Estas realidades devem constituir um sério apelo a um exame de consciência por parte daqueles que têm a responsabilidade pela condução dos assuntos internacionais. Não só nos casos de perseguição religiosa ou cultural, mas em toda a situação de conflito, como na Ucrânia, Síria, Iraque, Líbia, Sudão do Sul e na região dos Grandes Lagos, antes dos interesses de parte, mesmo legítimos, existem rostos concretos. Nas guerras e conflitos, existem pessoas, nossos irmãos e irmãs, homens e mulheres, jovens e idosos, meninos e meninas que choram, sofrem e morrem. Seres humanos que se tornam material de descarte, enquanto nada mais se faz senão enumerar problemas, estratégias e discussões.

Como pedi ao Secretário-Geral das Nações Unidas, na minha carta de 9 de Agosto de 2014, «a mais elementar compreensão da dignidade humana obriga a comunidade internacional, em particular através das regras e dos mecanismos do direito internacional, a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para impedir e prevenir ulteriores violências sistemáticas contra as minorias étnicas e religiosas» e para proteger as populações inocentes.

Nesta mesma linha, quero citar outro tipo de conflitualidade, nem sempre assim explicitada, mas que inclui silenciosamente a morte de milhões de pessoas. Muitas das nossas sociedades vivem um tipo diferente de guerra com o fenómeno do narcotráfico. Uma guerra «suportada» e pobremente combatida. O narcotráfico, por sua própria natureza, é acompanhado pelo tráfico de pessoas, lavagem de dinheiro, tráfico de armas, exploração infantil e outras formas de corrupção. Corrupção, que penetrou nos diferentes níveis da vida social, política, militar, artística e religiosa, gerando, em muitos casos, uma estrutura paralela que põe em perigo a credibilidade das nossas instituições.

Comecei a minha intervenção recordando as visitas dos meus antecessores. Agora quereria, em particular, que as minhas palavras fossem como que uma continuação das palavras finais do discurso de Paulo VI, pronunciadas quase há cinquenta anos, mas de valor perene. «Eis chegada a hora em que se impõe uma pausa, um momento de recolhimento, de reflexão, quase de oração: pensar de novo na nossa comum origem, na nossa história, no nosso destino comum. Nunca, como hoje, (…) foi tão necessário o apelo à consciência moral do homem. Porque o perigo não vem nem do progresso nem da ciência, que, bem utilizados, poderão, pelo contrário, resolver um grande número dos graves problemas que assaltam a humanidade» (Discurso aos Representantes dos Estados, 4 de Outubro de 1965, n. 7). Sem dúvida que a genialidade humana, bem aplicada, ajudará a resolver, entre outras coisas, os graves desafios da degradação ecológica e da exclusão. E continuo com as palavras de Paulo VI: «O verdadeiro perigo está no homem, que dispõe de instrumentos sempre cada vez mais poderosos, aptos tanto para a ruína como para as mais elevadas conquistas» (ibid.).

A casa comum de todos os homens deve continuar a erguer-se sobre uma reta compreensão da fraternidade universal e sobre o respeito pela sacralidade de cada vida humana, de cada homem e de cada mulher; dos pobres, dos idosos, das crianças, dos doentes, dos nascituros, dos desempregados, dos abandonados, daqueles que são vistos como descartáveis porque considerados meramente como números desta ou daquela estatística. A casa comum de todos os homens deve edificar-se também sobre a compreensão duma certa sacralidade da natureza criada.

Tal compreensão e respeito exigem um grau superior de sabedoria, que aceite a transcendência, renuncie à construção duma elite onipotente e entenda que o sentido pleno da vida individual e coletiva está no serviço desinteressado aos outros e no uso prudente e respeitoso da criação para o bem comum. Repetindo palavras de Paulo VI, «o edifício da civilização moderna deve construir-se sobre princípios espirituais, os únicos capazes não apenas de o sustentar, mas também de o iluminar e de o animar» (ibid.).

O Gaúcho Martín Fierro, um clássico da literatura da minha terra natal, canta: «Os irmãos estejam unidos, porque esta é a primeira lei. Tenham união verdadeira em qualquer tempo que seja, porque se litigam entre si, devorá-los-ão os de fora».

O mundo contemporâneo, aparentemente interligado, experimenta uma crescente, consistente e contínua fragmentação social que põe em perigo «todo o fundamento da vida social» e assim «acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios interesses» (Enc. Laudato si’, 229).

O tempo presente convida-nos a privilegiar ações que possam gerar novos dinamismos na sociedade e frutifiquem em acontecimentos históricos importantes e positivos (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 223).

Não podemos permitir-nos o adiamento de «algumas agendas» para o futuro. O futuro exige-nos decisões críticas e globais face aos conflitos mundiais que aumentam o número dos excluídos e necessitados.

A louvável construção jurídica internacional da Organização das Nações Unidas e de todas as suas realizações – melhorável como qualquer outra obra humana e, ao mesmo tempo, necessária – pode ser penhor dum futuro seguro e feliz para as gerações futuras. Sê-lo-á se os representantes dos Estados souberem pôr de lado interesses setoriais e ideologias e procurarem sinceramente o serviço do bem comum. Peço a Deus onipotente que assim seja, assegurando-vos o meu apoio, a minha oração, bem como o apoio e as orações de todos os fiéis da Igreja Católica, para que esta Instituição, com todos os seus Estados-Membros e cada um dos seus funcionários, preste sempre um serviço eficaz à humanidade, um serviço respeitoso da diversidade e que saiba potenciar, para o bem comum, o melhor de cada nação e de cada cidadão.

A bênção do Altíssimo, a paz e a prosperidade para todos vós e para todos os vossos povos. Obrigado!