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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

O MUNDO ESTÁ CANSADO DE MENTIROSOS, DE PADRES DA MODA, ALERTA PAPA FRANCISCO por Front Católico

Aos novos bispos do curso anual de formação, o papa afirma que fazer pastoral da misericórdia não é fazer liquidação de pérolas.


“Não poupem esforços para ir ao encontro do povo de Deus, estejam perto das famílias com fragilidade. Nos seminários, apontem para a qualidade, não para a quantidade. Desconfiem dos seminaristas que se refugiam na rigidez.”

“O mundo está cansado de encantadores mentirosos… e, eu me permito dizer, de padres ou bispos na moda. As pessoas ‘farejam’ e se afastam quando reconhecem os narcisistas, os manipuladores, os defensores das causas próprias, os arautos de cruzadas vãs.”

O Papa Francisco dirigiu um longo discurso aos bispos recém-nomeados, em Roma, para um curso de formação, tocando diversas questões do seu ministério, a partir da necessidade de tornar pastoral – “isto é, acessível, tangível, encontrável” – a misericórdia, que é o “resumo daquilo que Deus oferece ao mundo”.

Os bispos, disse Jorge Mario Bergoglio, devem ser capazes de encantar e de atrair os homens e as mulheres do nosso tempo a Deus, sem “lamentações”, sem “deixar nada de não tentado a fim de alcançá-los” ou “recuperá-los”, e graças aos percursos de iniciação (“Hoje, pedem-se frutos demais de árvores que não foram cultivadas o suficiente”).

Além disso, é necessário vigiar a formação dos futuros sacerdotes, apontando para a “qualidade do discipulado”, e não para a “quantidade” de seminaristas, e usando “cautela e responsabilidade” ao acolher sacerdotes na diocese.

Francisco também convidou os novos bispos a estarem perto do seu clero, àqueles que Deus coloca “por acaso” no seu caminho e às famílias com as suas “fragilidades”.

“Perguntem a Deus, que é rico em misericórdia – disse o papa aos 154 novos bispos (16 dos territórios de missão) que participaram do curso anual de formação promovido conjuntamente pela Congregação para os Bispos e pela Congregação para as Igrejas Orientais – o segredo para tornar pastoral a Sua misericórdia nas suas dioceses.

De fato, é preciso que a misericórdia forme e informe as estruturas pastorais das nossas Igrejas. Não se trata de rebaixar as exigências ou vender barato as nossas pérolas. Ou, melhor, a única condição que a pérola preciosa dá àqueles que a encontram é a de não poder reivindicar menos do que tudo.

Não tenham medo de propor a Misericórdia como resumo daquilo que Deus oferece ao mundo, porque o coração do homem não pode aspirar a nada maior”, disse Francisco, que, sobre a misericórdia como “limite para o mal”, citou Bento XVI, acrescentando duas perguntas retóricas: “Por acaso, as nossas inseguranças e desconfianças são capazes de suscitar doçura e consolação na solidão e no abandono?”.

Para tornar a misericórdia “acessível, tangível, encontrável”, acima de tudo, o papa recordou que “um Deus distante e indiferente pode ser ignorado, mas não resistimos facilmente a um Deus tão próximo e, além disso, ferido por amor.








quarta-feira, 30 de novembro de 2016

VOCÊ PODE ME PERDOAR?



Durante a nossa vida causamos transtornos na vida de muitas pessoas, porque somos imperfeitos. Nas esquinas da vida, pronunciamos palavras inadequadas, falamos sem necessidade, incomodamos.

Nas relações mais próximas, agredimos sem intenção ou intencionalmente. Mas agredimos. Não respeitamos o tempo do outro, a história do outro. Parece que o mundo gira em torno dos nossos desejos e o outro é apenas um detalhe. E, assim, vamos causando transtornos. Esses tantos transtornos mostram que não estamos prontos, mas em construção. Tijolo a tijolo, o templo da nossa história vai ganhando forma. O outro também está em construção e também causa transtornos. E, às vezes, um tijolo cai e nos machuca. Outras vezes, é a cal ou o cimento que suja nosso rosto. E quando não é um, é outro. E o tempo todo nós temos que nos limpar e cuidar das feridas, assim como os outros que convivem conosco também têm de fazer. Os erros dos outros, os meus erros.

Os meus erros, os erros dos outros. Esta é uma conclusão essencial: *Todas as pessoas erram. *A partir dessa conclusão, chegamos a uma necessidade humana e cristã: o Perdão. Perdoar é cuidar das feridas e sujeiras. É compreender que os transtornos são muitas vezes involuntários. Que os erros dos outros são semelhantes aos meus erros e que, como caminhantes de uma jornada, é preciso olhar adiante. Se nos preocupamos com o que passou, com a poeira, com o tijolo caído, o horizonte deixará de ser contemplado.

E será um desperdício. O convite que faço é que você experimente a beleza do perdão. É um banho na alma! Deixa leve! 

Se eu errei, se eu o magoei, se eu o julguei mal, desculpe-me por todos esses transtornos, estou em construção!


Papa Francisco





sábado, 12 de novembro de 2016

PAPA FRANCISCO DIZ QUE ''COMUNISTAS PENSAM COMO OS CRISTÃOS''



O pontífice evitou falar do recém-eleito presidente dos Estados Unidos, Donald Trump



Roma – O papa Francisco afirmou que “são os comunistas os que pensam como os cristãos”, ao responder sobre se gostaria de uma sociedade de inspiração marxista, em entrevista publicada nesta sexta-feira no jornal italiano “La Repubblica”.

“São os comunistas os que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos sejam os que decidam. Não os demagogos, mas o povo, os pobres, os que têm fé em Deus ou não, mas são eles a quem temos que ajudar a obter a igualdade e a liberdade”, explica Jorge Bergoglio.

Por isso, Francisco espera que os Movimentos Populares entrem na política, “mas não no político, nas lutas de poder, no egoísmo, na demagogia, no dinheiro, mas na política criativa e de grandes visões”.

O pontífice evitou falar do recém-eleito presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e assegurou que dos políticos só lhe interessa “os sofrimentos que sua maneira de proceder podem causar aos pobres e aos excluídos”.

Francisco explicou que sua maior preocupação é o drama dos refugiados e imigrantes, e reiterou que é necessário “acabar com os muros que dividem, tentar aumentar e estender o bem-estar, e para eles é necessário derrubar muros e construir pontes que permitam diminuir as desigualdades e dar mais liberdade e direitos”.

Sobre os supostos “adversários” que tem no seio da Igreja, Francisco assegurou que não os chamaria assim e que “a fé une todos, embora naturalmente cada um veja as coisas de maneira diferente”.


sábado, 23 de janeiro de 2016

CONHEÇA AS 62 PESSOAS QUE DETÊM A MESMA RIQUEZA DE METADE DA POPULAÇÃO DO MUNDO




Na lista abaixo dos 62 nomes sendo 48,39% de toda riqueza do planeta está concentrada nos EUA. O país mais potente em todos os sentidos, armamento, poluição ambiental e agente da desigualdade mundial, etc com seu sistema econômico capitalista. 


Analisem das 62 pessoas mais ricas do planeta 30 são americanas. É difícil imaginar que essas 62 pessoas que cabe em uma sala detém 50% de TODA RIQUEZA MUNDIAL. Ou seja, analisando 1/4 de tudo que produz e dá dinheiro está no EUA. Isto não é bom!! 

A desigualdade social é extrema. O Papa Francisco tem nos advertido inúmeras vezes que este sistema como é não pode ser... não é possível a humanidade aguentar ou suportar tantas desigualdades na distribuição das riquezas (riquezas monetárias ou naturais). Este sistema capitalista que vivemos terá que algum dia ser modificado e priorizar mais o social do que o capital. O meio ambiente (riqueza natural) já está começando a cobrar a conta, pois com ele não tem como discutir ideologia política (capital x social ou direita x esquerda).

Ps. Eu quando falo social é no sentido de sociedade-pessoa-fraternidade-desigualdade e não socialismo (sistema político que também é corrompido que traz desigualdades e principalmente falta de liberdade e transparência). É preciso misturar os dois. Temos que encontrar um novo sistema econômico mais humanizado. Roberta Carrilho 


DESIGUALDADE: 
62 pessoas têm o mesmo dinheiro que metade mais pobre da população mundial


As 62 pessoas mais ricas do mundo (53 homens e nove mulheres) têm tanto capital quanto a metade mais pobre da população mundial, algo em torno de 3,6 bilhões de pessoas.

O dado chocante foi divulgado nesta segunda-feira (18) pela ONG britânica Oxfam. A descoberta mostra um crescimento galopante da desigualdade no mundo: há cinco anos, a riqueza de 388 pessoas era equiparada à metade mais pobre do mundo. 

"O fosso entre a parcela dos mais ricos e o resto da população aumentou de forma dramática nos últimos 12 meses", diz relatório.


A divulgação dos dados, dois dias antes do início do Fórum Econômico Mundial de Davos também não é coincidência: a Oxfam pede a ação dos países em relação a essa realidade e o Fórum, onde se encontram líderes políticos e representantes das empresas mais influentes do mundo pode ser o campo ideal para o começo da mudança.

Para combater o crescimento das desigualdades, a Oxfam recomenda o fim da "era dos paraísos fiscais", acrescentando que nove em dez empresas que figuram entre "os sócios estratégicos" do Fórum Econômico Mundial de Davos "estão presentes em pelo menos um paraíso fiscal".

A Oxfam afirma que acabar com os paraísos fiscais fará com que governos tenham mais recursos para combater a pobreza e a desigualdade. 

Além disso, a organização defende mais duas abordagens: maiores investimentos em serviços públicos e salários mais altos àqueles mal remunerados.



"Devemos abordar os governos, as empresas e as elites econômicas presentes em Davos para que se empenhem a fim de acabar com esta era de paraísos fiscais, que alimenta as desigualdades globais", diz Winnie Byanyima, diretor-geral da Oxfam International, que estará em Davos.

Líderes proeminentes como o papa Francisco e Christine Lagarde, diretora do FMI, já pediram por ações que revertam o curso da desigualdade, mas, segundo a Oxfam, os discursos não tem se revertido em ações. Tanto que a previsão da organização, que o 1% mais rico da população superaria os 99% restantes em termos de receitas no ano de 2016 se concretizou um ano antes do esperado.




REVISTA FORBES 21/01/16



1- Bill Gates - EUA - US$ 79,2 bilhões *
2- Carlos Slim Helu - México - US$ 77,1 bilhões
3- Warren Buffett - EUA - US$ 72,7 bilhões *
4- Amancio Ortega - Espanha - US$ 64,5 bilhões
5- Larry Ellison - EUA - US$ 54,3 bilhões *
6- Charles Koch - EUA - US$ 42,9 bilhões *
7- David Koch - EUA - US$ 42,9 bilhões *
8- Christy Walton - EUA - US$ 41,7 bilhões *
9- Jim Walton - EUA - US$ 40,6 bilhões *
10- Liliane Bettencourt - França - US$ 40,1 bilhões
11- Alice Walton - EUA - US$ 39,4 bilhões *
12- S. Robson Walton - EUA - US$ 39,1 bilhões *
13- Bernard Arnault - França - US$ 37,2 bilhões
14- Michael Bloomberg - EUA - US$ 35,5 bilhões *
15- Jeff Bezos - EUA - US$ 34,8 bilhões *
16- Mark Zuckerberg - EUA - US$ 33,4 bilhões *
17- Li Ka-shing - Hong Kong - US$ 33,3 bilhões
18- Sheldon Adelson - EUA - US$ 31,4 bilhões *
19- Larry Page - EUA - US$ 29,7 bilhões *
20- Sergey Brin - EUA - US$ 29,2 bilhões *
21- Georg Schaeffler - Alemanha - US$ 26,9 bilhões
22- Forrest Mars Jr. - EUA - US$ 26,6 bilhões *
23- Jacqueline Mars - EUA - US$ 26,6 bilhões *
24- John Mars - EUA - US$ 26,6 bilhões *
25- David Thomson - Canadá - US$ 25,5 bilhões
26- Jorge Paulo Lemann - Brasil - US$ 25 bilhões
27- Lee Shau Kee - Hong Kong - US$ 24,8 bilhões
28- Stefan Persson - Suécia - US$ 24,5 bilhões
29- George Soros - EUA - US$ 24,2 bilhões *
30- Wang Jianlin - China - US$ 24,2 bilhões
31- Carl Icahn - EUA - US$ 23,5 bilhões *
32- Maria Franca Fissolo - Itália - US$ 23,4 bilhões
33- Jack Ma - China - US$ 22,7 bilhões
34- Prince Alwaleed bin Talal Alsaud - Arábia Saudita - US$ 22,6 bilhões
35- Steve Ballmer - EUA - US$ 21,5 bilhões * 
36- Phil Knight - EUA - US$ 21,5 bilhões *
37- Beate Heister & Karl Albrecht Jr. - Alemanha - US$ 21,3 bilhões
38- Li Hejun - China - US$ 21,1 bilhões
39- Mukesh Ambani - Índia - US$ 21 bilhões
40- Leonardo Del Vecchio - Itália - US$ 20,4 bilhões
41- Len Blavatnik - EUA - US$ 20,2 bilhões * 
42- Tadashi Yanai - Japão - US$ 20,2 bilhões
43- Charles Ergen - EUA - US$ 20,1 bilhões *
44- Dilip Shanghvi - Índia - US$ 20 bilhões
45- Laurene Powell Jobs - EUA - US$ 19,5 bilhões *
46- Dieter Schwarz - Alemanha - US$ 19,4 bilhões
47- Michael Dell - EUA - US$ 19,2 bilhões *
48- Azim Premji - Índia - US$ 19,1 bilhões
49- Theo Albrecht Jr. - Alemanha - US$ 19 bilhões
50- Michael Otto - Alemanha - US$ 18,1 bilhões
51- Paul Allen - EUA - US$ 17,5 bilhões *
52- Joseph Safra - Brasil - US$ 17,3 bilhões *
53- Anne Cox Chambers - EUA - US$ 17 bilhões *
54- Susanne Klatten - Alemanha - US$ 16,8 bilhões
55- Pallonji Mistry - Irlanda - US$ 16,3 bilhões
56- Ma Huateng - China - US$ 16,1 bilhões
57- Patrick Drahi - França - US$ 16 bilhões
58- Thomas & Raymond Kwok - Hong Kong - US$ 15,9 bilhões
59- Stefan Quandt - Alemanha - US$ 15,6 bilhões
60- Ray Dalio - EUA - US$ 15,4 bilhões *
61- Vladimir Potanin - Rússia - US$ 15,4 bilhões
62- Serge Dassault - França - US$ 15,3 bilhões



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

ENTREVISTA COM FREI BETTO E SUAS ANALOGIAS DO PT COM CATOLICISMO - DILMA, CUNHA, TEMER, RENAN, LULA, IMPEACHMENT ...



Em entrevista ao jornalista Alex Solnik, o escritor best-seller Frei Betto afirma que, com a decisão de aceitar o pedido de impeachment, "Eduardo Cunha tentou chantagear o PT e quebrou a cara"; para ele, o processo de impedimento da presidente Dilma "não tem futuro"; apesar de tecer críticas aos governos petistas, de um dos quais participou diretamente, o religioso acredita que na mesa da Santa Ceia, "Lula é o Messias", "Dilma é a discípula que deveria ouvir mais o Mestre" e "Cunha é o Judas"; Frei Betto também disse que, apesar de o impeachment ser uma página virada, enquanto Cunha não for afastado da presidência da Câmara "a turbulência não cessará"

 

Escritor best-seller – "Fidel e a religião" vendeu mais de 3 milhões de exemplares em todo o mundo e foi o presente de Fidel ao Papa Francisco na visita a Cuba – Frei Betto poderia ter sido diretor de teatro ou político, mas preferiu, ao contrário de seus conterrâneos Betinho e Henfil que também como ele ingressaram na JEC – Juventude de Esquerda Católica – continuar cumprindo os votos de pobreza e de castidade exigidos por sua Ordem, a dos Dominicanos. Nunca se arrependeu, ao contrário, como revela nessa entrevista exclusiva a 247. Apesar de tecer críticas aos governos petistas, de um dos quais participou diretamente, ele acredita que na mesa da Santa Ceia, "Lula é o Messias", "Dilma é a discípula que deveria ouvir mais o Mestre" e "Cunha é o Judas". Ele também disse que, apesar de o impeachment ser uma página virada, enquanto Cunha não for afastado da presidência da Câmara dos Deputados "a turbulência não cessará". Frei Betto afirmou também que tanto o Papa Francisco quanto Jesus "são de esquerda".

O que achou da decisão de Cunha de deflagrar o impeachment?
Eduardo Cunha tentou chantagear o PT e quebrou a cara. Acredito que o processo de impeachment a Dilma não tem futuro. Impeachment é mero revanchismo de quem não assume a derrota.

O que diz a tua bola de cristal sobre os próximos dias?
Acho que haverá manifestações pró e contra o impeachment. Já o Eduardo Cunha, que só tem apoio de quem tem rabo preso com ele, vai dançar. Mas enquanto ele não for afastado da presidência da Câmara dos Deputados haverá turbulência.

Na Santa Ceia, quem seriam Dilma, Lula, Michel Temer, Cunha, Renan Calheiros?
Lula ainda é o Messias que, na esperança de muitos, poderia salvar o Brasil do retrocesso, e promover a partilha do pão e do vinho, da comida e da bebida. Dilma, a discípula que deveria dar ouvidos ao Mestre. Temer, o apóstolo que aguarda pacientemente a oportunidade de ocupar o lugar do Mestre. Renan, o discípulo que ora fica ao lado do Mestre, ora de Caifás. E Cunha, o Judas, que se vendeu por 30 dinheiros...

Por que e como Cunha se aguenta no poder apesar de ser o Judas?
Porque muitos deputados e senadores têm o rabo preso nas mãos dele.

Havia luta pelo poder entre os discípulos de Cristo?
Basta ler a Carta dos Gálatas, do apóstolo Paulo, para constatar a disputa pelo poder entre ele e Pedro. Onde há poder sempre haverá disputa.

Como era a disputa entre Pedro e Paulo?
Paulo acusou Pedro, na Carta aos Gálatas, de ser cínico, comportar-se como judeu, embora fosse discípulo de Jesus, e ainda discriminar os pagãos. Para Paulo, judeu que passara a ser cristão não tinha mais que observar os preceitos judaicos.

Que analogia pode ser feita entre o momento político brasileiro e o Natal?
Natal significa nascimento e o momento político brasileiro é fúnebre, de morte de um modelo desenvolvimentista-consumista que chegou ao seu limite.

Então é o caso de trocar o ministro da Fazenda?
Não adianta mudar o ministro da Fazenda se não for modificado o projeto político rentista, mais voltado ao mercado externo do que ao interno, dependente de investimentos externos. O Brasil só renascerá, e viverá seu novo Natal, se promover reformas estruturais profundas, como a agrária e a tributária, priorizando o mercado interno e a redução das desigualdades sociais.

Que presente o Papai Noel deveria dar para Dilma?
A ousadia de fazer o que Evo Morales fez na Bolívia: priorizar, em seu arco de alianças, os movimentos sociais – raiz e razão de ser do PT.

De que forma o governo Dilma poderá chegar a 2018?
Como um carro atolado em suas próprias contradições.

Quais são as contradições do governo Dilma? Como ela é vista nos movimentos populares?
Dilma não mantém diálogo permanente com nenhum setor da sociedade brasileira, nem com os movimentos sociais, nem com o Congresso. Parece ter terceirizado a política para o PMDB e a economia em mãos de Joaquim Levy. Os movimentos sociais são críticos ao governo dela, sobretudo devido ao ajuste fiscal que penaliza principalmente os mais pobres.

Você vê semelhança entre o momento atual e algum outro da história recente do Brasil?
Sim, após o fracassado governo Sarney, quando o país entrou em crise aguda, com recessão e inflação altíssima, e o poder foi disputado por Collor, Lula e Brizola.

Lula é o novo Getúlio ou o novo Fidel?
Ele tem, dos dois, o talento oratório, a capacidade de argumentar, o carisma de empatia com o povão, e a opção preferencial por políticas sociais.

Você continua próximo a Lula, conversa com ele ou está afastado?
Continuamos amigos. Tivemos uma boa e longa conversa no Instituto Lula dia 23 de julho. E sobre isso não falo.

Acredita que Lula fez tudo certo no governo e sofre campanha moralista ou tem alguma culpa no cartório?
Os governos Lula foram os melhores de nossa história republicana. Os que mais tiraram pessoas da miséria e da fome. No entanto, cometeram muitos equívocos que aponto em dois livros sobre o período, ambos da editora Rocco: "A mosca azul - reflexão sobre o poder" e "Calendário do poder", meu diário de dois anos de Planalto (2003-2004).

Quais foram os equívocos dos governos Lula?
Entre muitos acertos, os governos Lula cometeram os equívocos de facilitar à população acesso aos bens pessoais (linha branca, carro, crédito etc) e não aos bens sociais (educação, saúde, segurança, transporte, saneamento etc); não complementaram a inclusão econômica com a política; não fortaleceram o protagonismo dos movimentos sociais e da imprensa alternativa.

O fato de ele ter ganho muito dinheiro o desqualifica como interlocutor do povo brasileiro ou não muda nada?
Ganhou honestamente, e isso não é ilegal nem é pecado. Os acusadores que apresentem o ônus das provas.

Muita gente acha que Lula e FHC deveriam fumar o cachimbo da paz para pacificar petistas e tucanos pois a agitação política provoca a instabilidade econômica. Você concorda?
Não. A crise brasileira não se resolve com diálogo entre caciques. O diálogo deve ser entre Dilma e movimentos sociais, que estão na origem do PT e garantiram a vitória dela em 2014. Mas ela prefere dialogar com o Congresso, aquela casa na qual Lula denunciou "300 picaretas"...

Você conversou muito com Fidel, o que ele pensa sobre o Brasil, sobre Lula, sobre Fernando Henrique?
Ele é um gênio da política. Por isso, apenas faz perguntas. E nunca manifesta o que pensa quando há o risco de afetar suas relações políticas.

Que perguntas ele te fez?
Não trato publicamente de conversas pessoais.

Você conhece bem Fidel e Lula. Quais são as semelhanças entre os dois?
Eu acho que os dois são pessoas carismáticas. Os dois têm uma relação cordial com as pessoas. Não são racionalistas, raciocinam mais com o coração que com a cabeça. São pessoas afetuosas no contato pessoal, é isso que cativa muita gente. Fidel é uma pessoa que sabe escutar. Ele jamais encontra alguém para conversar por dez minutos. Por isso ele não dá audiência para ninguém. Ele é que escolhe com quem vai conversar e no mínimo ele fica uma hora com a pessoa. E Lula é um pouco assim também. É alguém que, você conversando com ele, fica amigo de infância dele em cinco minutos. Tem essa coisa afetuosa sem prepotência, sem achar que é o dono da verdade.

O que acha da participação cada vez maior dos evangélicos na política? É legítima?
Qualquer participação é legítima, desde que não queira impor ao conjunto da sociedade valores e preceitos que são próprios de um determinado segmento religioso. Isso é fundamentalismo. Evangélicos e católicos, entre os quais me incluo, precisam passar da fé em Jesus para a fé de Jesus!

Me explica uma coisa como é possível haver tantas demonstrações de ódio entre petistas e não-petistas como vemos principalmente na internet se o Brasil é um país muito religioso e as religiões pregam o amor e não o ódio?
Uma coisa é crer, outra, viver o que se crê. Não esqueça que as maiores atrocidades da história foram cometidas por países predominantemente cristãos - Inquisição, nazismo, colonialismo, bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, duas grandes guerras etc. E essa gente "religiosa" não presta atenção no que Shakespeare disse magistralmente: "O ódio é um veneno que você toma esperando que o outro morra."

Durante a ditadura os artistas e a sociedade civil estavam unidos na luta por eleições diretas. Por que agora os artistas estão desunidos? Ou silenciosos em relação às tentativas de derrubar a presidente?
Em geral, os artistas são inteligentes. E sabem que Dilma não vai cair.

Por que você nunca quis ser deputado ou senador?
Porque não tenho vocação para funções políticas institucionais. Sou um feliz ING - Indivíduo Não Governamental.

Você recebeu algum retorno do papa depois que ele ganhou do Fidel um exemplar de "Fidel e a religião"?
Não. Uma nova edição brasileira do livro sairá em 2016 pela Companhia das Letras.

Há papas "de direita" e "de esquerda"? O atual é de direita ou de esquerda?
Se ser de esquerda é indignar-se com a desigualdade social, Francisco é de esquerda. Graças a Deus!

Numa licença poética poderíamos dizer que Deus é de esquerda?
Jesus sim, sem dúvida. E por isso morreu como prisioneiro político: preso, torturado, julgado por dois poderes políticos e condenado à pena de morte dos romanos, a cruz.

O principal problema da Igreja Católica é a pedofilia como diz a mídia?
Não, embora seja um grave problema, que deve ser rigorosamente coibido e punido. O principal problema é o clericalismo, padres e bispos convencidos de que suas funções os promovem acima do comum dos mortais, e não terem a mesma sensibilidade de Jesus diante da miséria e da opressão.

Você é um padre?
Não, eu sou um religioso. Veja bem: nos dominicanos você tem os frades que se ordenam sacerdotes e continuam sendo chamados de frei e tem os frades que são só religiosos, que têm os votos, mas não são ordenados. Eu não posso celebrar missa. Por opção. Mas eu sou um pregador, um evangelizador, um homem da palavra. Eu tenho voto de pobreza e voto de castidade.

É melhor viver sem mulher?
Olha, é difícil dizer isso, mas partindo da minha experiência, eu te falo sinceramente: eu não tenho saudade da família que não constituí... Eu não generalizo isso, nem quero estabelecer comparações, mas, a vida religiosa, a minha vida celibatária me dá uma liberdade muito grande! E eu me sinto muito amado. Sabe, na vida, a questão é afeto. Então, isso realmente me dá uma saúde e uma felicidade muito grande. Além do que, eu não vivo mergulhado numa cultura nem de pornografia nem de erotismo, então, essa questão, também, eu acho que tem muito a ver com qual é o meu alimento interior. E uma das coisas que além de escrever... as duas coisas que eu mais gosto de fazer são: escrever e orar. Não posso passar um dia sem pelo menos meia hora de meditação. Porque é como se eu pulasse o almoço, pulasse o café da manhã, deixasse de tomar banho naquele dia.

Você nunca teve mulher?
Não, eu namorei quando era adolescente...

Antes dos votos? Com quantos anos você fez voto de castidade?
Eu fiz com 20 anos...

Quer dizer: não é que você não tenha tido experiência sexual... você teve, antes dos votos...
Ah, tive namoradas... como adolescente comum que viveu em Belo Horizonte, depois no Rio...

Mas você nunca namorou pensando em se casar?
Não.

Por que? Não te atraía o sexo?
Aos 16 anos já começou a me inquietar essa coisa da vocação. Eu achava que Deus queria isso, que meu projeto no mundo era esse, por causa do contato que a gente tinha com os dominicanos. Eu era da JEC-Juventude de Esquerda Católica. Betinho também... o Henriquinho, que depois virou o Henfil. Muitos entraram para o convento. Muitos saíram depois. Mas toda uma geração da JEC resolveu ser frade dominicano empolgado pelo estilo de vida, pela cabeça. Eu entrei para sair, não entrei para ficar. Eu não queria chegar aos 40 anos falando: pô, acho que Deus queria que eu fosse padre, mas eu não tive coragem. Falei: então vou entrar, porque aí eu tiro a limpo. E me empolguei, me encontrei, sou feliz. A única crise de vocação que eu tive foi quando eu trabalhei no Teatro Oficina – fui assistente de direção do Zé Celso no Rei da Vela... Disso sim, tenho saudades. Foi um período de muita efervescência cultural e criatividade. Não sei como conseguia dormir em 1967: aulas de filosofia pela manhã, repórter da Folha da Tarde no período vespertino, Teatro Oficina em seguida e, em meio a tudo isso, subversão via ALN de Marighella... O "Rei da Vela" é um marco histórico no teatro brasileiro e criou o tropicalismo. Foi um privilégio viver a empolgação pelo espetáculo. E fiquei muito tentado em me tornar diretor de teatro.

Mas aquilo era uma esbórnia! Por isso você saiu...
Não, não foi pela esbórnia. O pessoal até brincava muito comigo. Mas era muito mais sadio do que aparentava. Mas o que aconteceu é que eu descobri que tinha vocação para diretor de teatro. E aí eu vi que era incompatível. Os dominicanos procuram ao máximo viver do seu trabalho. Não temos fazenda, gráfica, prédios alugados. Outras congregações e ordens têm, nós não temos. Por opção. Vivemos do próprio trabalho. E eu sempre vivi do jornalismo e da literatura. Isso é compatível. Mas o teatro não é: o teatro é um sacerdócio...

Ahhh....
A dedicação é total. Durante cinco meses, é dia e noite...naquilo... você não pode pensar em outra coisa. Zé Celso foi meu mestre, mas muitas vezes ele deixava nas minhas mãos o trabalho com os atores. E eu descobri que tinha muita facilidade para aquilo.

No teatro certamente você não iria cumprir o voto de castidade...
Eu não sei...

O apelo seria muito forte...
Eu não sei... mas não é uma questão relevante, realmente não é. Eu me lembro que o Narciso Kalili, da Realidade veio fazer uma matéria aqui. Ele era completamente agnóstico. "Vou ficar 15 dias aqui dentro junto com vocês vivendo como vocês". No terceiro dia, ele andava para um lado e para o outro. Eu perguntei: o que que está havendo? "Ô, cara, eu estou pirado! Não tenho dormido. Porque não é possível que vocês vivam felizes! Eu pensei que ia encontrar gente pulando o muro de madrugada, mulheres... vocês conseguem ser felizes assim?!" Foi preciso Roberto Freire, que também era da Realidade e psicanalista, dar um apoio clínico para o Narciso porque ele estava pirado, literalmente pirado.

Mas você não sente atração sexual?
Claro que sinto, é normal, como qualquer ser humano. Padre não é assexuado.

E o que você faz nessa hora?
Eu canalizo para Deus...

Tem mulheres que assediam você?
Isso tem, é comum. Aconteceu uma vez mais forte, mas não foi tão difícil escapar porque ela era muito feia.

Mas teve alguma mulher que literalmente atacou você sexualmente?
Não, assim também não. O que é mais comum, o que tem mais são mulheres que tentam se aproximar para tomar conta de mim. Mas eu prezo muito a minha liberdade.

Você concorda com o celibato na igreja?
A minha posição é muito clara: eu acho que o celibato deve acabar na igreja como medida obrigatória. Então você terá aqueles que têm vocação, continuarão celibatários, como na igreja primitiva e aqueles que são casados, e são ordenados sacerdotes, como os pastores da igreja evangélica. Além do que, eu também defendo a ordenação de mulheres. Solteiras e casadas. Eu acho que não há nenhum fundamento teológico, bíblico, que impeça isso. Se Jesus não teve uma apóstola, foi pela mesma razão que ele não condenou a energia nuclear. Seria uma extrapolação total da cultura em que ele vivia. Mas Pedro era casado. Tanto que Jesus curou a sogra de Pedro. Se Pedro gostou ou não, não sei, não vou entrar nesses detalhes da intimidade dele. Mas se Jesus curou a sogra de Pedro é porque Pedro era casado. E Jesus não só o escolheu como apóstolo como o escolheu como líder do grupo. Ou seja: preconceito em relação ao sacerdócio do homem casado Jesus certamente não tinha.

Se houvesse essa opção, você se casaria?
Não, eu continuaria na minha. Continuaria porque a essa altura da vida...

Mas pode namorar. Não precisa casar...
Não... não... Já esquento a cabeça com muita coisa. A gente se mete muito - no bom sentido - a gente se envolve muito na vida das pessoas... família... amigos... separações...Eu falo para o meu irmão, que é psicanalista: a diferença entre nós dois é que você marca hora e eu não; você cobra, e eu não. Você não sabe os dramas que eu ouço aqui nessa sala.

De tanto ouvir esses dramas, você preferiu o celibato...
É a minha opção. Tem uma coisa muito clara para mim: a minha luta, hoje, é por ter mais tempo para me dedicar à literatura. E a literatura é um ato solitário. Eu me sinto muito feliz quando chegam aqueles dias que eu tiro só para escrever. Então, vou para o sítio de um amigo, fico rezando, faço minha ginástica, leio, escrevo, sou dono do horário, eu mesmo cozinho, eu não sou um gourmet, sou um "gourmãe"...Minha mãe, Maria Stella Libânio Christo é a maior especialista em culinária mineira. E eu herdei essa vocação, tenho um livro de culinária – Comer como frade, divinas receitas para quem sabe porque temos o céu na boca... O que eu queria da vida, a vida me deu...

Você nunca quis ter filho?
Não, nunca quis ter filho, nunca quis ter poder, nunca quis ter mandato, nunca quis ter dinheiro. A maior tentação não é a tentação do sexo, nem do dinheiro; é a tentação do poder. Realmente, não quis, porque tive várias oportunidades de ter tudo isso, mas não tenho a menor veleidade...

E não se arrepende?
Nem me arrependo. Pelo contrário: me regozijo por ter dito não a situações que me teriam levado a poder, a dinheiro, não sei o que. Agradeço a Deus por ter dito não a essas situações.

Você acha que dinheiro dá confusão?
Não é confusão. Eu vejo muitos amigos que são escravos dessa coisa de dinheiro. Vira uma bola de neve. O cara tem dinheiro, aí já quer fazer uma casa na praia, tem que manter a casa e tem que ter um outro carro, sabe, começa um negócio de que o cara tem que estar num certo padrão de vida e se reduz ele fica humilhado, se sente mal. Eu não quero que bens materiais determinem a oscilação do meu estado de humor, meu temperamento, meu estado psíquico. Eu tenho o meu Golzinho que ao mesmo tempo serve à comunidade, eu estou muito feliz, preciso de muito pouco para viver, às vezes com o dinheiro que eu ganho de palestras e direitos autorais eu ajudo os movimentos pastorais que eu acompanho...

Agora, como é que você, um religioso, amante da paz, um cara preocupado em ajudar, foi se envolver na luta armada em 1968?
Naquele momento nós achávamos que não havia outra forma de luta, de resistência, todos os meios pacíficos estavam esgotados. E há um princípio na teologia, um princípio medieval nosso do confrade Tomás de Aquino. Chama-se Princípio do Tiranicídio. São Tomás diz o seguinte: em caso do tirano que oprime o povo causando a morte de muitas pessoas se a morte desse tirano significar o bem do povo é legitimo esse combate. Com base nesse princípio, nós colaboramos – nunca pegamos em armas, mas colaboramos – com a ALN, a VPR, a VAR-Palmares, com uma série de organizações, com o Partidão, muito, com a Ação Popular. Eles se abrigavam aqui no convento...

O convento foi invadido pelo Exército?
Foi invadido na nossa prisão. Eu fui preso no Rio Grande do Sul, depois de passar pela fronteira 11 militantes ligados ao Marighela, inclusive o braço-direito dele, Joaquim Câmara Ferreira, que foi quem teve a ideia de sequestrar o embaixador americano. Mas quando prenderam Ivo e Fernando invadiram o convento aqui e prenderam vários frades. Então, esse era o princípio de que era um recurso legal e teologicamente aceito pela igreja até hoje. Mas veja bem: eu sou contra o terrorismo em qualquer circunstância. Mesmo que seja praticado pela esquerda. Por uma razão simples: o terrorismo nunca favoreceu a causa dos pobres. Sempre favorece a extrema-direita. Sempre é um prato cheio para justificar o terrorismo de extrema-direita.

Você conheceu bem Marighela? Você acha que ele seria o líder se a luta armada tivesse vencido?
Prefiro não raciocinar sobre hipóteses, sobretudo hipóteses "achistas". Sim, conheci Marighella e o tenho na conta de um dos principais heróis brasileiros, que entregou sua vida para que tivessem uma nação mais livre e justa. Os detalhes de minha relação com ele estão em meu livro "Batismo de Sangue" (Rocco).

Os superiores de vocês sabiam que vocês estavam escondendo o pessoal da luta armada? Vocês esconderam só eles ou armas também?
Nunca pegamos em armas. Sim, conforme descrevo no meu livro "Diário de Fernando - nos cárceres da ditadura militar brasileira" (Rocco) e em "Batismo de Sangue", nossos superiores sabiam de nossa participação na resistência à ditadura militar.

Como foi a história da morte do Marighela? Ele ia se encontrar com algum frade? É verdade que quem deu a pista para a polícia foi um dos frades presos?
Todos os detalhes estão em "Batismo de Sangue" e no livro de biografia de Mario Magalhâes, "Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo" (Companhia das Letras). Nenhum frade foi responsável pela cilada na qual Marighella foi assassinado pela polícia.

Você estava preparado para ser preso? Para resistir à tortura? Quanto tempo você foi torturado?
Ninguém está preparado para ser preso e muito menos torturado. Fui torturado em minha primeira prisão, no CENIMAR, no Rio, em junho de 1964. Em 1969, ao ser preso pela segunda vez após 7 dias foragido, me livrei da tortura graças à intervenção de um tio general.

Como foi o fim do Frei Tito?
Devido às torturas que sofreu, foi levado ao suicídio em agosto de 1974, quando se encontrava exilado na França. Os detalhes estão em "Batismo de Sangue" e na biografia dele, "Um homem torturado - nos passos de frei Tito de Alencar Lima", de Leneide Duarte (Civilização Brasileira).

O que vai acontecer com a vitória de Macri na Argentina? Podemos prever turbulências na América Latina?
Temo ser o começo do fim da fase de governos progressistas na América Latina. Agora Brasil e Venezuela estão no alvo dos neoliberais. Os governos progressistas, com todos os avanços, como a redução da miséria, e conquistas, como integração continental, cometeram o erro de não complementar a inclusão econômica que propiciaram com a inclusão política. Formaram consumistas e não protagonistas políticos.

domingo, 8 de novembro de 2015

A SOLIDÃO DO PAPA FRANCISCO


Papa Francisco está lutando contra os cardeais e bispos que gastam milhões de euros para manter um alto padrão de vida e luxos pessoais, contra a corrupção, desvios de dinheiro de doações e escândalos financeiros dentro da Santa Sé.

Uma nova era para o catolicismo, 
a ERA DE FRANCISCO.





Papa Francisco: "É triste ver na Igreja bispos e padres apegados ao dinheiro" - "Se um fiel fala da pobreza ou dos sem-teto e leva uma vida de faraó... isso não se pode fazer. Essa é a primeira tentação." Essa foi a declaração do Papa Francisco ao Straatnieuws, um jornal de rua holandês, concedida no dia 27 de outubro de 2015 e traduzida sexta-feira (06/11/15) pela Radio Vaticana.


A reportagem é de Renato Paone, publicada no sítio L'HuffingtonPost.it, 06-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.



A afirmação do pontífice, relida à luz do escândalo Vatileaks 2, que surgiu nos últimos dias, soa mais como uma resposta às críticas sobre o luxo em que vivem cardeais e bispos, e à corrupção e aos escândalos financeiros dentro da Santa Sé, em vez de um simples chamado aos valores do Evangelho.

Pensamento reiterado na homilia da manhã dessa sexta-feira em Santa Marta: "Há aqueles que, em vez de servir, de pensar nos outros, de lançar as bases, se servem da Igreja, os carreiristas apegados ao dinheiro. E quantos sacerdotes e bispos vimos assim".

"Deus nos salve das tentações de uma vida dupla, onde eu me mostro como alguém que serve e, em vez disso, me sirvo dos outros", foi a advertência do papa. "É-nos pedido – continuou Francisco – que nos coloquemos ao serviço, mas há alguns que alcançaram um status e vivem comodamente sem honestidade, como os fariseus no Evangelho. Comovem-me aqueles padres e aquelas irmãs que, por toda a vida, estiveram a serviço dos outros." São esses padres e essas irmãs, destacou o papa, "que representam a alegria da Igreja".

"No Evangelho – retomou Bergoglio – o Senhor nos faz ver a imagem de outro servo, que, em vez de servir os outros, se serve dos outros." E, sublinhou, "nós lemos aquilo que esse servo fez, com quanta esperteza se moveu, para permanecer no seu lugar". Uma ambivalência que não deveria existir dentro da Igreja, concluiu Francisco. 

Na entrevista ao Straatnieuws, Bergoglio insiste na necessidade de resistir às tentações, duas em particular: "A Igreja deve falar com a verdade e também com o testemunho da pobreza. Se um fiel fala da pobreza ou dos sem-teto e leva uma vida de faraó... isso não se pode fazer. Essa é a primeira tentação. A outra tentação é fazer acordos com os governos", disse o papa, desde que sejam acordos claros e transparentes. 

"Nós administramos este edifício – exemplifixou Bergoglio –, mas as contas são todas controladas, para evitar a corrupção. Porque sempre há a tentação da corrupção na vida pública, tanto política, quanto religiosa." 

O Papa Francisco contou uma experiência concreta sua: "Lembro que, uma vez, vi com muita dor quando a Argentina, sob o regime dos militares, entrou em guerra contra a Grã-Bretanha pelas Ilhas Malvinas. As pessoas davam coisas, e eu vi que muitas pessoas, inclusive católicos, que eram encarregados de distribuí-las, levavam-nas para casa. Sempre há o perigo da corrupção. Uma vez, eu fiz uma pergunta a um ministro argentino, um homem honesto, que deixou o cargo porque não podia concordar com algumas coisas um pouco obscuras. Eu lhe perguntei: 'Quando vocês enviam ajudas, sejam alimentos, sejam roupas, seja dinheiro aos pobres e aos necessitados, daquilo que vocês enviam, quanto chega lá, tanto em dinheiro quanto em despesas?' Ele me disse: '35%'. Significa que 65% se perde. É a corrupção: um pedaço para mim, outro pedaço para mim". 

Uma história que parece reforçar o caso do Óbolo de São Pedro descrito no livro de Gianluigi Nuzzi, Via Crucis, que revelou que, dos 10% que em 2013/2014 entraram no Vaticano para a beneficência do pontífice, 6% iam parar no saneamento das contas em vermelho da Cúria, 2% eram postos de lado em um fundo – que já soma 400 milhões de euros – e só 2% eram direcionados ao canal humanitário dedicado à beneficência. 

"Ontem – continuou o papa na entrevista – eu pedi para enviar ao Congo 50 mil euros para construir três escolas em países pobres. A educação é uma coisa importante para as crianças. Eu fui até a administração competente, fiz esse pedido, e o dinheiro foi enviado." 

Depois, ele explicou por que renunciou ao apartamento do Palácio Apostólico, optando por Santa Marta: "Depois de ver aquele apartamento, me pareceu um funil ao contrário, isto é, grande, mas com uma porta pequena. Isso significa estar isolado. Eu pensei: não posso viver aqui, simplesmente por motivos mentais. Me faria mal. No início, parecia uma coisa estranha, mas eu pedi para ficar aqui, em Santa Marta. E isso me faz bem, porque eu me sinto livre. Eu como na sala de jantar, onde todos comem. E, quando chego antes, eu como com os funcionários. Encontro as pessoas, as cumprimento, e isso faz com que a gaiola de ouro não seja tanto uma gaiola. Mas eu sinto falta da rua". 

Bergoglio também enfatiza que não existem tesouros da Igreja, porque estes, na realidade, são "tesouros da humanidade": "Se amanhã eu disser que a Pietà de Michelangelo seja leiloada, isso não se pode fazer, porque não é propriedade da Igreja. Ela está em uma igreja, mas é da humanidade. Isso vale para todos os tesouros da Igreja. Mas começamos a vender presentes e as outras coisas que me são dadas. E os proventos da venda vão para Dom Krajewski, que é meu esmoleiro. E depois há a rifa. Havia carros que foram todos vendidos ou doados com uma rifa, e a renda foi usada para os pobres. Há coisas que podem ser vendidas, e estas são vendidas". 

Francisco termina a entrevista expressando um desejo, uma esperança: "Eu gostaria de um mundo sem pobres. Embora me pareça um pouco difícil de imaginar. Nós devemos lutar por isso. Mas sou uma pessoa que crê e sei que o pecado está sempre dentro de nós. E a cobiça humana sempre existe, a falta de solidariedade, o egoísmo que cria os pobres. Eu não sei se conseguiremos esse mundo sem pobres, porque o pecado sempre existe e nos traz o egoísmo. Mas devemos lutar sempre". 






domingo, 27 de setembro de 2015

DISCURSO HISTÓRICO NA ÍNTEGRA (ESCRITO EM PORTUGUÊS E VÍDEO EM ESPANHOL) DO PAPA FRANCISCO NA SEDE DAS ONU - 25/09/15


Sou fã, discípula do Evangelho que o Papa Francisco prega do verdadeiro cristianismo. Continuo sendo Espírita Kardecista, porém tem voltado meus olhos e coração para este atual Papa. 





Viagem do Papa Francisco aos Estados Unidos

Visita à Sede da Organização das Nações Unidas – ONU

Sexta-feira, 25 de setembro de 2015



Senhor Presidente,

Senhoras e Senhores!

Mais uma vez, seguindo uma tradição de que me sinto honrado, o Secretário-Geral das Nações Unidas convidou o Papa para falar a esta distinta assembleia das nações. Em meu nome e em nome de toda a comunidade católica, Senhor Ban Ki-moon, desejo manifestar-lhe a gratidão mais sincera e cordial; agradeço-lhe também as suas amáveis palavras. Saúdo ainda os chefes de Estado e de Governo aqui presentes, os embaixadores, os diplomatas e os funcionários políticos e técnicos que os acompanham, o pessoal das Nações Unidas empenhado nesta LXX Sessão da Assembleia Geral, o pessoal de todos os programas e agências da família da ONU e todos aqueles que, por um título ou outro, participam nesta reunião. Por vosso intermédio, saúdo também os cidadãos de todas as nações representadas neste encontro. Obrigado pelos esforços de todos e cada um em prol do bem da humanidade.

Esta é a quinta vez que um Papa visita as Nações Unidas. Fizeram-no os meus antecessores Paulo VI em 1965, João Paulo II em 1979 e 1995 e o meu imediato antecessor, hoje Papa emérito Bento XVI, em 2008. Nenhum deles poupou expressões de reconhecido apreço pela Organização, considerando-a a resposta jurídica e política adequada para o momento histórico, caracterizado pela superação das distâncias e das fronteiras graças à tecnologia e, aparentemente, superação de qualquer limite natural à afirmação do poder. Uma resposta imprescindível, dado que o poder tecnológico, nas mãos de ideologias nacionalistas ou falsamente universalistas, é capaz de produzir atrocidades tremendas. Não posso deixar de me associar ao apreçamento dos meus antecessores, reiterando a importância que a Igreja Católica reconhece a esta instituição e as esperanças que coloca nas suas actividades.

A história da comunidade organizada dos Estados, representada pelas Nações Unidas, que festeja nestes dias o seu septuagésimo aniversário, é uma história de importantes sucessos comuns, num período de inusual aceleração dos acontecimentos. Sem pretender ser exaustivo, pode-se mencionar a codificação e o desenvolvimento do direito internacional, a construção da normativa internacional dos direitos humanos, o aperfeiçoamento do direito humanitário, a solução de muitos conflitos e operações de paz e reconciliação, e muitas outras aquisições em todos os sectores da projecção internacional das actividades humanas. Todas estas realizações são luzes que contrastam a obscuridade da desordem causada por ambições descontroladas e egoísmos colectivos. Apesar de serem muitos os problemas graves por resolver, todavia é seguro e evidente que, se faltasse toda esta actividade internacional, a humanidade poderia não ter sobrevivido ao uso descontrolado das suas próprias potencialidades. Cada um destes avanços políticos, jurídicos e técnicos representa um percurso de concretização do ideal da fraternidade humana e um meio para a sua maior realização.

Por isso, presto homenagem a todos os homens e mulheres que serviram, com lealdade e sacrifício, a humanidade inteira nestes setenta anos. Em particular, desejo hoje recordar aqueles que deram a sua vida pela paz e a reconciliação dos povos, desde Dag Hammarskjöld até aos inúmeros funcionários, de qualquer grau, caídos nas missões humanitárias de paz e reconciliação.

A experiência destes setenta anos demonstra que, para além de tudo o que se conseguiu, há constante necessidade de reforma e adaptação aos tempos, avançando rumo ao objetivo final que é conceder a todos os países, sem exceção, uma participação e uma incidência reais e equitativas nas decisões. Esta necessidade duma maior equidade é especialmente verdadeira nos órgãos com capacidade executiva real, como o Conselho de Segurança, os organismos financeiros e os grupos ou mecanismos criados especificamente para enfrentar as crises econômicas. Isto ajudará a limitar qualquer espécie de abuso ou usura especialmente sobre países em vias de desenvolvimento. Os Organismos Financeiros Internacionais devem velar pelo desenvolvimento sustentável dos países, evitando uma sujeição sufocante desses países a sistemas de crédito que, longe de promover o progresso, submetem as populações a mecanismos de maior pobreza, exclusão e dependência.

A tarefa das Nações Unidas, com base nos postulados do Preâmbulo e dos primeiros artigos da sua Carta constitucional, pode ser vista como o desenvolvimento e a promoção da soberania do direito, sabendo que a justiça é um requisito indispensável para se realizar o ideal da fraternidade universal. Neste contexto, convém recordar que a limitação do poder é uma ideia implícita no conceito de direito. Dar a cada um o que lhe é devido, segundo a definição clássica de justiça, significa que nenhum indivíduo ou grupo humano se pode considerar onipotente, autorizado a pisar a dignidade e os direitos dos outros indivíduos ou dos grupos sociais. A efetiva distribuição do poder (político, econômico, militar, tecnológico, etc.) entre uma pluralidade de sujeitos e a criação dum sistema jurídico de regulação das reivindicações e dos interesses realiza a limitação do poder. Mas, hoje, o panorama mundial apresenta-nos muitos direitos falsos e, ao mesmo tempo, amplos setores sem proteção, vítimas inclusivamente dum mau exercício do poder: o ambiente natural e o vasto mundo de mulheres e homens excluídos são dois setores intimamente unidos entre si, que as relações políticas e econômicas preponderantes transformaram em partes frágeis da realidade. Por isso, é necessário afirmar vigorosamente os seus direitos, consolidando a proteção do meio ambiente e pondo fim à exclusão.

Antes de mais nada, é preciso afirmar a existência dum verdadeiro «direito do ambiente», por duas razões. Em primeiro lugar, porque como seres humanos fazemos parte do ambiente. Vivemos em comunhão com ele, porque o próprio ambiente comporta limites éticos que a ação humana deve reconhecer e respeitar. O homem, apesar de dotado de «capacidades originais [que] manifestam uma singularidade que transcende o âmbito físico e biológico» (Enc. Laudato si’, 81), não deixa ao mesmo tempo de ser uma porção deste ambiente. Possui um corpo formado por elementos físicos, químicos e biológicos, e só pode sobreviver e desenvolver-se se o ambiente ecológico lhe for favorável. Por conseguinte, qualquer dano ao meio ambiente é um dano à humanidade. Em segundo lugar, porque cada uma das criaturas, especialmente seres vivos, possui em si mesma um valor de existência, de vida, de beleza e de interdependência com outras criaturas. Nós cristãos, juntamente com as outras religiões monoteístas, acreditamos que o universo provém duma decisão de amor do Criador, que permite ao homem servir-se respeitosamente da criação para o bem dos seus semelhantes e para a glória do Criador, mas sem abusar dela e muito menos sentir-se autorizado a destruí-la. E, para todas as crenças religiosas, o ambiente é um bem fundamental (cf. ibid., 81).

O abuso e a destruição do meio ambiente aparecem associados, simultaneamente, com um processo ininterrupto de exclusão. Na verdade, uma ambição egoísta e ilimitada de poder e bem-estar material leva tanto a abusar dos meios materiais disponíveis como a excluir os fracos e os menos hábeis, seja pelo fato de terem habilidades diferentes (deficientes), seja porque lhes faltam conhecimentos e instrumentos técnicos adequados ou possuem uma capacidade insuficiente de decisão política. A exclusão econômica e social é uma negação total da fraternidade humana e um atentado gravíssimo aos direitos humanos e ao ambiente. Os mais pobres são aqueles que mais sofrem esses ataques por um triplo e grave motivo: são descartados pela sociedade, ao mesmo tempo são obrigados a viver de desperdícios, e devem sofrer injustamente as consequências do abuso do ambiente. Estes fenômenos constituem, hoje, a «cultura do descarte» tão difundida e inconscientemente consolidada.

O caráter dramático de toda esta situação de exclusão e desigualdade, com as suas consequências claras, leva-me, juntamente com todo o povo cristão e muitos outros, a tomar consciência também da minha grave responsabilidade a este respeito, pelo que levanto a minha voz, em conjunto com a de todos aqueles que aspiram por soluções urgentes e eficazes. A adoção da «Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável», durante a Cimeira Mundial que hoje mesmo começa, é um sinal importante de esperança. Estou confiado também que a Conferência de Paris sobre as alterações climáticas alcance acordos fundamentais e efetivos.

Todavia não são suficientes os compromissos solenemente assumidos, mesmo se constituem um passo necessário para a solução dos problemas. A definição clássica de justiça, a que antes me referi, contém como elemento essencial uma vontade constante e perpétua: Iustitia est constans et perpetua voluntas ius suum cuique tribuendi. O mundo pede vivamente a todos os governantes uma vontade efetiva, prática, constante, feita de passos concretos e medidas imediatas, para preservar e melhorar o ambiente natural e superar o mais rapidamente possível o fenômeno da exclusão social e econômica, com suas tristes consequências de tráfico de seres humanos, tráfico de órgãos e tecidos humanos, exploração sexual de meninos e meninas, trabalho escravo, incluindo a prostituição, tráfico de drogas e de armas, terrorismo e criminalidade internacional organizada. Tal é a magnitude destas situações e o número de vidas inocentes envolvidas que devemos evitar qualquer tentação de cair num nominalismo declamatório com efeito tranquilizador sobre as consciências. Devemos ter cuidado com as nossas instituições para que sejam realmente eficazes na luta contra estes flagelos.

A multiplicidade e complexidade dos problemas exigem servir-se de instrumentos técnicos de medição. Isto, porém, esconde um duplo perigo: limitar-se ao exercício burocrático de redigir longas enumerações de bons propósitos – metas, objetivos e indicadores estatísticos –, ou julgar que uma solução teórica única e apriorística dará resposta a todos os desafios. É preciso não perder de vista, em momento algum, que a ação política e econômica só é eficaz quando é concebida como uma atividade prudencial, guiada por um conceito perene de justiça e que tem sempre presente que, antes e para além de planos e programas, existem mulheres e homens concretos, iguais aos governantes, que vivem, lutam e sofrem e que muitas vezes se vêem obrigados a viver miseravelmente, privados de qualquer direito.

Para que estes homens e mulheres concretos possam subtrair-se à pobreza extrema, é preciso permitir-lhes que sejam atores dignos do seu próprio destino. O desenvolvimento humano integral e o pleno exercício da dignidade humana não podem ser impostos; devem ser construídos e realizados por cada um, por cada família, em comunhão com os outros seres humanos e num relacionamento correto com todos os ambientes onde se desenvolve a sociabilidade humana – amigos, comunidades, aldeias e vilas, escolas, empresas e sindicatos, províncias, países, etc. Isto supõe e exige o direito à educação – mesmo para as meninas (excluídas em alguns lugares) –, que é assegurado antes de mais nada respeitando e reforçando o direito primário das famílias a educar e o direito das Igrejas e de agregações sociais a apoiar e colaborar com as famílias na educação das suas filhas e dos seus filhos. A educação, assim entendida, é a base para a realização da Agenda 2030 e para a recuperação do ambiente.

Ao mesmo tempo, os governantes devem fazer o máximo possível por que todos possam dispor da base mínima material e espiritual para tornar efetiva a sua dignidade e para formar e manter uma família, que é a célula primária de qualquer desenvolvimento social. A nível material, este mínimo absoluto tem três nomes: casa, trabalho e terra. E, a nível espiritual, um nome: liberdade do espírito, que inclui a liberdade religiosa, o direito à educação e os outros direitos civis.

Por todas estas razões, a medida e o indicador mais simples e adequado do cumprimento da nova Agenda para o desenvolvimento será o acesso efetivo, prático e imediato, para todos, aos bens materiais e espirituais indispensáveis: habitação própria, trabalho digno e devidamente remunerado, alimentação adequada e água potável; liberdade religiosa e, mais em geral, liberdade do espírito e educação. Ao mesmo tempo, estes pilares do desenvolvimento humano integral têm um fundamento comum, que é o direito à vida, e, em sentido ainda mais amplo, aquilo a que poderemos chamar o direito à existência da própria natureza humana.

A crise ecológica, juntamente com a destruição de grande parte da biodiversidade, pode pôr em perigo a própria existência da espécie humana. As nefastas consequências duma irresponsável má gestão da economia mundial, guiada unicamente pela ambição de lucro e poder, devem constituir um apelo a esta severa reflexão sobre o homem: «O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza» (BENTO XVI, Discurso ao Parlamento da República Federal da Alemanha, 22 de Setembro de 2011; citado na Enc. Laudato si’, 6). A criação vê-se prejudicada «onde nós mesmos somos a última instância (…). E o desperdício da criação começa onde já não reconhecemos qualquer instância acima de nós, mas vemo-nos unicamente a nós mesmos» (BENTO XVI, Discurso ao clero da Diocese de Bolzano-Bressanone, 6 de Agosto de 2008; citado na Enc. Laudato si’, 6). Por isso, a defesa do ambiente e a luta contra a exclusão exigem o reconhecimento duma lei moral inscrita na própria natureza humana, que inclui a distinção natural entre homem e mulher (cf. Enc. Laudato si’, 155) e o respeito absoluto da vida em todas as suas fases e dimensões (cf. ibid., 123; 136).

Sem o reconhecimento de alguns limites éticos naturais inultrapassáveis e sem a imediata atuação dos referidos pilares do desenvolvimento humano integral, o ideal de «preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra» (Carta das Nações Unidas, Preâmbulo) e «promover o progresso social e um padrão mais elevado de viver em maior liberdade» (ibid.) corre o risco de se tornar uma miragem inatingível ou, pior ainda, palavras vazias que servem como desculpa para qualquer abuso e corrupção ou para promover uma colonização ideológica através da imposição de modelos e estilos de vida anormais, alheios à identidade dos povos e, em última análise, irresponsáveis.

A guerra é a negação de todos os direitos e uma agressão dramática ao meio ambiente. Se se quiser um desenvolvimento humano integral autêntico para todos, é preciso continuar incansavelmente no esforço de evitar a guerra entre as nações e entre os povos.

Para isso, é preciso garantir o domínio incontrastado do direito e o recurso incansável às negociações, aos mediadores e à arbitragem, como é proposto pela Carta das Nações Unidas, verdadeira norma jurídica fundamental. A experiência destes setenta anos de existência das Nações Unidas, em geral, e, de modo particular, a experiência dos primeiros quinze anos do terceiro milênio mostram tanto a eficácia da plena aplicação das normas internacionais como a ineficácia da sua inobservância. Se se respeita e aplica a Carta das Nações Unidas, com transparência e sinceridade, sem segundos fins, como um ponto de referência obrigatório de justiça e não como um instrumento para mascarar intenções ambíguas, obtém-se resultados de paz. Quando, pelo contrário, se confunde a norma com um simples instrumento que se usa quando resulta favorável e se contorna quando não o é, abre-se uma verdadeira caixa de Pandora com forças incontroláveis, que prejudicam seriamente as populações inermes, o ambiente cultural e também o ambiente biológico.

O Preâmbulo e o primeiro artigo da Carta das Nações Unidas indicam as bases da construção jurídica internacional: a paz, a solução pacífica das controvérsias e o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações. Contrasta fortemente com estas afirmações – e nega-as na prática – a tendência sempre presente para a proliferação das armas, especialmente as de destruição em massa, como o podem ser as armas nucleares. Uma ética e um direito baseados sobre a ameaça da destruição recíproca – e, potencialmente, de toda a humanidade – são contraditórios e constituem um dolo em toda a construção das Nações Unidas, que se tornariam «Nações Unidas pelo medo e a desconfiança». É preciso trabalhar por um mundo sem armas nucleares, aplicando plenamente, na letra e no espírito, o Tratado de Não-Proliferação para se chegar a uma proibição total destes instrumentos.

O recente acordo sobre a questão nuclear, numa região sensível da Ásia e do Médio Oriente, é uma prova das possibilidades da boa vontade política e do direito, cultivados com sinceridade, paciência e constância. Faço votos de que este acordo seja duradouro e eficaz e, com a colaboração de todas as partes envolvidas, produza os frutos esperados.

Nesta linha, não faltam provas graves das consequências negativas de intervenções políticas e militares não coordenadas entre os membros da comunidade internacional. Por isso, embora desejasse não ter necessidade de o fazer, não posso deixar de reiterar os meus apelos que venho repetidamente fazendo em relação à dolorosa situação de todo o Médio Oriente, do Norte de África e de outros países africanos, onde os cristãos, juntamente com outros grupos culturais ou étnicos e também com aquela parte dos membros da religião maioritária que não quer deixar-se envolver pelo ódio e a loucura, foram obrigados a ser testemunhas da destruição dos seus lugares de culto, do seu patrimônio cultural e religioso, das suas casas e haveres, e foram postos perante a alternativa de escapar ou pagar a adesão ao bem e à paz com a sua própria vida ou com a escravidão.

Estas realidades devem constituir um sério apelo a um exame de consciência por parte daqueles que têm a responsabilidade pela condução dos assuntos internacionais. Não só nos casos de perseguição religiosa ou cultural, mas em toda a situação de conflito, como na Ucrânia, Síria, Iraque, Líbia, Sudão do Sul e na região dos Grandes Lagos, antes dos interesses de parte, mesmo legítimos, existem rostos concretos. Nas guerras e conflitos, existem pessoas, nossos irmãos e irmãs, homens e mulheres, jovens e idosos, meninos e meninas que choram, sofrem e morrem. Seres humanos que se tornam material de descarte, enquanto nada mais se faz senão enumerar problemas, estratégias e discussões.

Como pedi ao Secretário-Geral das Nações Unidas, na minha carta de 9 de Agosto de 2014, «a mais elementar compreensão da dignidade humana obriga a comunidade internacional, em particular através das regras e dos mecanismos do direito internacional, a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para impedir e prevenir ulteriores violências sistemáticas contra as minorias étnicas e religiosas» e para proteger as populações inocentes.

Nesta mesma linha, quero citar outro tipo de conflitualidade, nem sempre assim explicitada, mas que inclui silenciosamente a morte de milhões de pessoas. Muitas das nossas sociedades vivem um tipo diferente de guerra com o fenómeno do narcotráfico. Uma guerra «suportada» e pobremente combatida. O narcotráfico, por sua própria natureza, é acompanhado pelo tráfico de pessoas, lavagem de dinheiro, tráfico de armas, exploração infantil e outras formas de corrupção. Corrupção, que penetrou nos diferentes níveis da vida social, política, militar, artística e religiosa, gerando, em muitos casos, uma estrutura paralela que põe em perigo a credibilidade das nossas instituições.

Comecei a minha intervenção recordando as visitas dos meus antecessores. Agora quereria, em particular, que as minhas palavras fossem como que uma continuação das palavras finais do discurso de Paulo VI, pronunciadas quase há cinquenta anos, mas de valor perene. «Eis chegada a hora em que se impõe uma pausa, um momento de recolhimento, de reflexão, quase de oração: pensar de novo na nossa comum origem, na nossa história, no nosso destino comum. Nunca, como hoje, (…) foi tão necessário o apelo à consciência moral do homem. Porque o perigo não vem nem do progresso nem da ciência, que, bem utilizados, poderão, pelo contrário, resolver um grande número dos graves problemas que assaltam a humanidade» (Discurso aos Representantes dos Estados, 4 de Outubro de 1965, n. 7). Sem dúvida que a genialidade humana, bem aplicada, ajudará a resolver, entre outras coisas, os graves desafios da degradação ecológica e da exclusão. E continuo com as palavras de Paulo VI: «O verdadeiro perigo está no homem, que dispõe de instrumentos sempre cada vez mais poderosos, aptos tanto para a ruína como para as mais elevadas conquistas» (ibid.).

A casa comum de todos os homens deve continuar a erguer-se sobre uma reta compreensão da fraternidade universal e sobre o respeito pela sacralidade de cada vida humana, de cada homem e de cada mulher; dos pobres, dos idosos, das crianças, dos doentes, dos nascituros, dos desempregados, dos abandonados, daqueles que são vistos como descartáveis porque considerados meramente como números desta ou daquela estatística. A casa comum de todos os homens deve edificar-se também sobre a compreensão duma certa sacralidade da natureza criada.

Tal compreensão e respeito exigem um grau superior de sabedoria, que aceite a transcendência, renuncie à construção duma elite onipotente e entenda que o sentido pleno da vida individual e coletiva está no serviço desinteressado aos outros e no uso prudente e respeitoso da criação para o bem comum. Repetindo palavras de Paulo VI, «o edifício da civilização moderna deve construir-se sobre princípios espirituais, os únicos capazes não apenas de o sustentar, mas também de o iluminar e de o animar» (ibid.).

O Gaúcho Martín Fierro, um clássico da literatura da minha terra natal, canta: «Os irmãos estejam unidos, porque esta é a primeira lei. Tenham união verdadeira em qualquer tempo que seja, porque se litigam entre si, devorá-los-ão os de fora».

O mundo contemporâneo, aparentemente interligado, experimenta uma crescente, consistente e contínua fragmentação social que põe em perigo «todo o fundamento da vida social» e assim «acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios interesses» (Enc. Laudato si’, 229).

O tempo presente convida-nos a privilegiar ações que possam gerar novos dinamismos na sociedade e frutifiquem em acontecimentos históricos importantes e positivos (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 223).

Não podemos permitir-nos o adiamento de «algumas agendas» para o futuro. O futuro exige-nos decisões críticas e globais face aos conflitos mundiais que aumentam o número dos excluídos e necessitados.

A louvável construção jurídica internacional da Organização das Nações Unidas e de todas as suas realizações – melhorável como qualquer outra obra humana e, ao mesmo tempo, necessária – pode ser penhor dum futuro seguro e feliz para as gerações futuras. Sê-lo-á se os representantes dos Estados souberem pôr de lado interesses setoriais e ideologias e procurarem sinceramente o serviço do bem comum. Peço a Deus onipotente que assim seja, assegurando-vos o meu apoio, a minha oração, bem como o apoio e as orações de todos os fiéis da Igreja Católica, para que esta Instituição, com todos os seus Estados-Membros e cada um dos seus funcionários, preste sempre um serviço eficaz à humanidade, um serviço respeitoso da diversidade e que saiba potenciar, para o bem comum, o melhor de cada nação e de cada cidadão.

A bênção do Altíssimo, a paz e a prosperidade para todos vós e para todos os vossos povos. Obrigado!