sexta-feira, 8 de julho de 2016

HITLER ANTES DE HITLER por Volker Ullrich


Como foi a infância e a juventude do mais odiado ditador da História

Um jovem quase comum - Adolf Hitler

No filme A Queda, de Bernd Eichinger, o famoso ator Bruno Ganz interpreta Adolf Hitler em seus últimos dias, acuado no bunker da Chancelaria do Reich, em pleno processo de negação e declínio psicológico. A atuação magistral de Ganz fez com que muitos se perguntassem: “Podemos retratar Hitler como um ser humano?”. 

O historiador alemão Volker Ullrich defende que não só podemos como devemos. Ullrich é o autor de uma nova biografia do ditador nazista, Adolf Hitler Vol. 1 – Os Anos de Ascensão, 1889-1939 (Amarilys, 2016). O trabalho, aclamado pela crítica e best-seller instantâneo na Alemanha e na Inglaterra, é o primeiro tomo de uma obra em dois volumes que se propõe a preencher lacunas na bibliografia já existente e, principalmente, tratar do ser humano por trás da persona pública. 

O simples processo de demonização, segundo o autor, é um erro perigoso, pois distorce a avaliação da verdadeira personalidade de Hitler, com suas contradições e antagonismos, deixando de lado os traços empáticos que fizeram dele um líder palatável às massas populares e às elites política e econômica da Alemanha. O objetivo é desconstruir o mito Hitler, presente de variadas maneiras na literatura e no debate público após 1945 como uma “fascinação (negativa) pelo monstro”. Na nova obra, Hitler é “normalizado”, mas isso não o torna “mais normal”; pelo contrário, ele parece ainda mais indecifrável. Sua imagem torna-se mais complexa, um homem de muitas faces, sempre adaptadas a diferentes públicos.

Baseando-se em pistas conhecidas e documentos revelados apenas recentemente, Ullrich discute que, se não fosse pela Primeira Guerra Mundial e as revoluções sociais que ela provocou na Europa, talvez Hitler permanecesse uma figura desconhecida às margens da História. Suas origens são, para dizer o mínimo, nebulosas. “Não sei de nada sobre a história da minha família. Nessa questão, sou uma pessoa muito mal informada (...) sou completamente desprovido de sentimentos familiares e não tenho nenhuma ligação com um clã. Isso não é de minha natureza. Eu pertenço à minha comunidade étnica”, confessou Hitler em 1942, num de seus muitos monólogos. 

Talvez ele visse boas razões para ocultar sua ascendência. O pai de Hitler, Alois Schicklgruber, era um filho ilegítimo adotado por um tio postiço, Johann Nepomuk Hiedler (irmão mais novo do marido da mãe de Alois), numa história enrolada que sugere algum escândalo familiar abafado. Somente aos 19 anos Alois foi registrado como filho legítimo de Johann Georg, o irmão de Johann Nepomuk. Nessa ocasião, o notário alterou o sobrenome Hiedler para Hitler. Alois Hitler viria a ser um funcionário-modelo na alfândega de Braunau. Em 1885, após ficar viúvo pela segunda vez (as taxas de mortalidade na época eram altíssimas), Alois casou-se com Klara Pölz. Klara era neta do tio postiço de Alois. Portanto, se de fato Alois era filho de Johann Georg, os dois seriam primos em segundo grau. Se, como se suspeita, fosse filho de Nepomuk, o parentesco seria ainda mais próximo, o de tio e sobrinha. 

Em 1889, nascia Adolf Hitler, o quarto filho do casal (os três primeiros morreram cedo). Boatos sobre uma possível origem judaica de Hitler (que circulavam desde a década de 1920) não se confirmaram. Ainda assim, é irônico que o ditador que exigia um certificado de “ascendência ariana” de cada cidadão alemão não fosse capaz de demonstrar a própria. 

Existem poucos testemunhos sobre os primeiros anos de vida de Adolf Hitler. As informações publicadas por ele sobre o ambiente familiar no primeiro capítulo de Minha Luta certamente são uma mistura de meias-verdades e invenções, com as quais tentou angariar simpatias e tornar crível sua vocação política como líder de um novo Reich alemão. Sabe-se que Alois fora um pai severo, adepto de castigos físicos. A experiência da violência doméstica foi interpretada como uma das causas para a política assassina do ditador. No entanto, Ullrich adverte que se deve tomar cuidado ao tirar conclusões: naquela época, castigos físicos eram comumente usados com finalidade educativa. Um pai repressor e uma mãe amorosa não eram uma combinação rara entre as famílias de classe média por volta da virada do século. Hitler, portanto, teve uma infância bastante normal. 

Juventude incerta
Adolf Hitler fora um excelente aluno nos primeiros anos escolares. Como todos os garotos de sua idade, era leitor dos romances de aventura do escritor alemão Karl May (dizem que durante a guerra, principalmente nas situações mais difíceis, Hitler citava um dos heróis de May, o índio apache Winnetou, como um “paradigma de comandante militar”). Entretanto, quando fez a transição para a escola secundária em Linz, Hitler passou a ser mais um entre muitos. Terminou por abandonar a escola, após reprovações e resultados medíocres. 

O fracasso em terminar o grau secundário custou caro, quando ele se inscreveu para o exame de admissão na Academia de Belas-Artes de Viena, já que o diploma era um requisito básico. Hitler (mais livre após a morte do pai, em 1903) passara a fazer visitas frequentes à capital, em que se deleitava com as paisagens da metrópole austríaca, com seus museus, a ópera, o Parlamento e a magnífica Ringstrasse. O fracasso acadêmico, que ele não contara à família ou aos amigos, foi difícil de aceitar. Muitos atribuem a perseguição aos intelectuais e seu desprezo pela intelligentsia alemã como resultado dessa rejeição.

O ano de 1907 foi marcado pela morte da mãe, em consequência de um câncer de mama. “Em meus quase 40 anos de atividade, nunca vi um jovem tão indescritivelmente triste e arrasado como o jovem Adolf Hitler”, escreveu o médico judeu que tratara Klara Hitler, doutor Eduard Bloch, em uma anotação de 1938. Não há indícios de que o tratamento médico feito por Bloch tenha sido a causa do patológico ódio antissemita de futuro Führer. No próprio dia do funeral, Hitler foi até o consultório dele para agradecer pelos cuidados com a mãe. 

Em 1938, quando o líder fez sua entrada triunfal na “cidade natal” Linz, após ter anexado a Áustria, dizem que perguntou imediatamente pela saúde do “bom e velho doutor Bloch”. Dentre todos os judeus de Linz, Hitler colocou o médico sob a proteção da Gestapo. No final de 1940, a família Bloch conseguiu emigrar em segurança para os Estados Unidos. 

Há relatos de que Hitler também manteve relações cordiais com judeus nos abrigos e pensionatos vienenses em que morou entre 1908 e 1913. Viena era na época a grande metrópole europeia, centro de uma vida econômica e cultural efervescente, com uma enorme comunidade de intelectuais e artistas de vanguarda. 

Naquela cidade, os problemas do Estado multinacional austro-húngaro podiam ser observados como numa lente de aumento. Nenhuma outra apresentava uma taxa de imigrantes tão elevada. A reação dos habitantes locais ao “perigo” de uma “infiltração estrangeira” produzira desde o final do século 19 a criação de associações e partidos que estampavam o nacionalismo radical entre as suas bandeiras. 

A imigração maciça, principalmente de judeus orientais, despertou temores de uma “judaização” de Viena; o sucesso dos imigrantes judeus, bem-educados e orientados a subir na vida, despertou inveja e amargura nos habitantes nativos. 

Hitler escreve em Minha Luta que os anos em Viena foram de miséria e pobreza. Outra meia-verdade, pois, enquanto durou a herança materna, a pensão de órfão e a ajuda que recebia de uma tia, Hitler teve condições de manter seu estilo de vida habitual: não fazer nada. Quando a tia que o socorria também faleceu, ele então teve de buscar o próprio sustento. 
 
Artista sem futuro
No outono de 1909, Hitler chegou a viver num abrigo para moradores de rua, onde conheceu Reinhold Hanisch. De manhã cedo, os ocupantes do abrigo tinham de deixar o lugar, retornando somente à noite. Durante o dia, Hanisch e Hitler tentavam ganhar alguns trocados fazendo bicos. Ao saber da inclinação artística do colega de abrigo, Hanisch sugeriu que Hitler pintasse os cartões-postais da cidade para que ele os vendesse em bares e restaurantes, dividindo a receita. O sucesso da empreitada foi maior que o esperado e em 9 de fevereiro de 1910 ambos conseguiram trocar o abrigo por um pensionato masculino. Hitler viria a morar ali pelos três anos seguintes.

A parceria com Hanisch durou pouco. Para que o negócio fosse rentável, era preciso pintar um quadro por dia, como cobrava o colega. Mas Hitler argumentava que se tratava de um trabalho artístico, para o qual era necessário estar inspirado; quando não estava, passava o dia lendo jornais ou participando de discussões políticas na sala de leitura do pensionato. 

Em agosto de 1910, Hitler acusou Hanisch de tê-lo enganado e deixado de pagar por algumas telas vendidas. Passou então a vender suas obras por meio de Jacob Altenberg e Samuel Morgenstern, dois judeus proprietários de uma loja de artes. Ambos pagavam a Hitler muito bem, permitindo-lhe independência financeira. Além de preferir fazer negócios com comerciantes judeus, Hitler mantinha boa convivência com outros moradores do pensionato que eram de origem judaica. 
O ex-sócio Hanisch viria a afirmar que “naquela época, Hitler não odiava os judeus. Isso só aconteceu mais tarde”. 
O contraste entre o pintor de telas parceiro de marchands, colega de quarto de judeus e o futuro ditador genocida é desconcertante. Para Ullrich, uma coisa é certa: mesmo que quisesse, Hitler não teria conseguido evitar contato com correntes antissemitas naquela Viena da virada do século. Políticos vienenses que Hitler admirava batiam constantemente na tecla do inimigo externo judeu: Georg von Schörener, o líder do pangermanismo austríaco a quem Hitler cita como influência fundamental em Minha Luta, associou sua campanha pelo “germanismo” com um antissemitismo até então desconhecido na Áustria; o prefeito Karl Lueger não media palavras ao dizer que “a Grande Viena não deve se transformar numa Grande Jerusalém”, além de acusar a “imprensa judaica” de compor uma imagem estereotipada de judeus abastados, intelectualmente refinados e arrogantes. 
Seria uma surpresa se o jovem Hitler não tivesse sido influenciado por isso.
Um outro aspecto desses anos que alimenta a curiosidade de historiadores é a suposta homossexualidade de Hitler. Na contramão de diversas obras que veem nas ações do ditador indícios de uma orientação sexual frustrada e reprimida, Ullrich não se convence de que Hitler pudesse ter tido relações homoafetivas no período em que morou nos pensionatos masculinos. No entanto, inúmeras fontes dão conta de um comportamento celibatário do futuro Führer. Numa metrópole vanguardista e de costumes em ebulição como era Viena, em que peças teatrais de Arhtur Schnitzler e quadros permissivos de Gustav Klimt causavam escândalo, o jovem Hitler vivia um ascetismo quase monástico. 

Ao que tudo indica, ele também não recorria a prostitutas. Segundo um amigo da época, isso se dava principalmente pelo medo de contrair uma doença sexualmente transmissível bastante comum na época: a sífilis. Mas talvez a ideologia pangermanista de Schörener também tenha desempenhado um papel nisso. Além de defender a superioridade cultural dos alemães, a dissolução do império multinacional Habsburgo e a formação de um Império Alemão único, Schörener defendia também o celibato até os 25 anos, a fim de tonificar a força física e intelectual. Se Hitler se manteve fiel a esse mandamento de castidade, ele ainda não tinha dormido com nenhuma mulher ao deixar Viena, aos 24 anos de idade.

Hitler já pensava em emigrar para a Alemanha havia algum tempo. Munique era a cidade que mais o atraía. Ali, ele frequentou o meio boêmio de Schwabing e seguiu ganhando a vida pintando paisagens. Sua senhoria o descreveu como um jovem retraído, que se fechava no quarto como um eremita. Para Ullrich, a falta de contatos era apenas um sinal externo de sua profunda insegurança interna. Após um ano na cidade, Hitler teve de admitir que sua carreira artística não lhe oferecia futuro. Somente o início da Primeira Guerra Mundial, no começo de 1914, o libertaria daquele estado frustrante e sem perspectivas.

Primeira Guerra Mundial
A escalada de hostilidades que se seguiu ao assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando produziu na Alemanha um estado de euforia patriótica a favor da guerra. O escritor Stefan Zweig viria a descrever esse momento “arrebatador” como “algo de que era difícil escapar”. Com o início do conflito, Hitler afirma ter obtido uma autorização do rei Ludwig III da Baviera para servir em um regimento bávaro apesar de sua nacionalidade austríaca. O mais provável é que naqueles dias tumultuados ninguém checasse com afinco a nacionalidade dos recrutas voluntários; do contrário, Hitler não poderia ter servido.

Em meados de outubro de 1914, o recruta Hitler enfrentou seu “batismo de fogo”. Seu regimento lutou em violentas batalhas homem a homem no front ocidental, tendo perdas imensas (de 3 500 oficiais, restaram 600). Em novembro, Hitler seria promovido a cabo, encarregado de levar mensagens e ordens dos comandantes de regimento até a linha de frente. Segundo Hitler, esse trabalho colocava todos os dias sua vida em risco. Para os soldados de trincheira, os mensageiros militares não passavam de oficiais de caserna. De uma forma ou de outra, Hitler escreveu em Minha Luta: “O horror assumiu o lugar do romantismo da guerra. 

O entusiasmo arrefeceu gradualmente e o júbilo excessivo foi sufocado pelo medo da morte”. Antes mesmo do final da guerra, a direita radical e os pangermanistas já haviam eleito bodes expiatórios para os revezes da Alemanha: as “atividades subversivas” de sociais-democratas e esquerdistas em geral, e a suposta falta de engajamento dos judeus no esforço de guerra. A despeito dos milhares de judeus que morreram nas trincheiras, foi convocada em 1916 uma “contagem de judeus” a fim de verificar a situação do serviço militar de judeus alemães (um primeiro passo para os registros que viriam a ocorrer nos anos seguintes). Em 1918, diante da derrota iminente da Alemanha, esses grupos intensificaram sua propaganda antissemita.

O rapaz tímido ainda estava para descobrir seus dons extraordinários de oratória, mas a Revolução Alemã, que derrubou o kaiser e instaurou uma república parlamentarista de inspiração esquerdista, provocou em Hitler tal comoção que o convenceu a abdicar de suas ambições artísticas e entrar na política. Junte-se a esse político aspirante com patronos influentes no meio militar a reação das elites econômicas ao novo governo, a fobia contra a esquerda e o ressentimento contra os judeus, e temos montado o cenário para a ascensão de Hitler e do nazismo. O Hitler pós-guerra se reinventou completamente, para prejuízo de milhões de vítimas que ele viria a fazer em sua ascensão sanguinolenta ao poder. Uma ascensão que, como Ullrich defende, merece ser mais bem compreendida.

SAIBA MAIS - LIVRO
Adolf Hitler Vol. 1 – Os Anos de Ascensão, 1889-1939, Volker Ullrich, 2016, Amarilys


Fonte: http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/personagem/hitler-antes-de-hitler.phtml#.V3_5p9IrK5e




SER DESINTERESSADO POR POLÍTICA É UMA FORMA DE CULPA



Documentário dá voz a uma colaboradora passiva do nazismo: hoje com 105 anos, Brunhilde Pomsel foi secretária de Goebbels, uma das últimas de uma geração que "nada viu e de nada sabia". A DW  (Deutsche Welle é uma empresa de radiodifusão da Alemanha) entrevistou os diretores.

Brunhilde Pomsel, ex-secretária de Goebbels, é protagonista de documentário sobre a era nazista

Estreia no Festival de Cinema de Munique, nesta quarta-feira (06/07), um filme-entrevista sobre uma notável testemunha da era nazista: hoje com 105 anos de idade, Brunhilde Pomsel foi estenógrafa e secretária pessoal de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Adolf Hitler, nos últimos três anos da Segunda Guerra Mundial.

A partir de várias horas de entrevistas, quatro diretores – Christian Krönes, Olaf Müller, Roland Schrotthofer e Florian Weigensamer – montaram um documentário elucidador. A concepção de Ein deutsches Leben (Uma vida alemã) é quase minimalista: em preto e branco, suas longas sequências de diálogo só são interrompidas por breves cenas documentais.

Ao enfocar de forma distanciada uma contemporânea da época nazista que servia em posição subalterna, o resultado é mais convincente do que muitos dos incontáveis e pomposamente encenados programas da TV alemã sobre a Segunda Guerra e o Holocausto. A própria protagonista aprovou, comentando: "É importante, no fim da vida, ser colocada diante do espelho e reconhecer tudo o que se fez errado."

A Deutsche Welle entrevistou dois dos diretores, Christian Krönes e Florian Weigensamer.

Diretores Roland Schrotthofer, Christian Krönes e Florian Weigensamer (da esq. para a dir.) no Festival de Munique

DW: Brunhilde Pomsel se mostrou imediatamente disposta a participar de Ein deutsches Leben?
Christian Krönes: Nós encontramos a Sra. Pomsel por acaso, no decorrer de uma outra pesquisa. Esse não mais esperado encontro com uma lenda viva foi, então, pretexto para nós arriscarmos a tentativa. Quando começamos a rodar, ela estava com 101 anos. Nós sabíamos que não íamos ter muito tempo mais, mas queríamos fazer esse filme de todo jeito.

Como transcorreram os preparativos e a filmagem?
CK: Levou um tempo para ela relaxar, pois ela tinha tido experiências muito ruins com a mídia, que apresentou a história dela e as entrevistas de forma muito abreviada. Levou algum tempo para convencê-la. Quando ela estava pronta, aí enfrentou com grande concentração e disciplina os trabalhos de rodagem, certamente muito cansativos para ela. Foi realmente a primeira vez que se abriu de forma abrangente.

O espectador tem a impressão de que a Sra. Pomsel se expressa e também reflete com honestidade. Vocês também tiveram essa sensação durante as gravações?
CK: Não acredito que ela tivesse recalcado os fatos. Ela certamente refletiu. Ela também participa muito dos acontecimentos atuais, reflete sobre o presente, sobre a própria vida. Sem dúvida, na narrativa dela há fórmulas de expressão que se repetem. Com certeza ainda há um detalhe ou outro, uma história ou outra, que ela não nos contou e que nunca contou.
Por outro lado, de certa forma ela fez uma confissão sobre a própria vida. Quando lhe mostramos o filme, de que gostou muito, ela pronunciou uma frase francamente admirável: como é importante, no fim da vida, ser colocada diante do espelho e reconhecer tudo o que se fez errado.

Ela oscila entre "rechaçar a culpa" e "confessar". Isso ainda é o reflexo do comportamento de muitos após a Segunda Guerra?
CK: Acho que a Sra. Pomsel é representativa de milhões de outras pessoas, de milhões de colaboradores passivos que tornaram possível esse sistema. Isso é provavelmente o aspecto que torna esse filme histórico, esse documento da história recente, tão interessante para o presente. O filme conta sobre uma sociedade funcional que sai dos eixos: crise econômica mundial, desemprego, ascensão dos nacional-socialistas – menos de uma década mais tarde, isso desemboca na maior catástrofe da história da humanidade.

No presente estamos, de certa maneira, numa situação muito semelhante, o que torna o filme moderno e atemporal. Superamos uma crise econômica e somos atingidos por uma onda de refugiados. Por toda a Europa, os partidos de direita se fortalecem. O problemático é que não é apenas um país, como a Alemanha naquela época, mas desta vez é o continente europeu como um todo que de certa maneira vai resvalando para a direita.

Uma cena mostra a Sra. Pomsel reagindo de forma emocional, que é quando ela fala da morte dos filhos de Goebbels. Em relação às outras vítimas, ou seja, judeus, civis, etc., a reação dela é menos emocional. O que isso revela?
Florian Weigensamer: Há ainda uma segunda cena, que trata de Sophie Scholl e da resistência. Pomsel diz: "Esses pobres jovens, executados por causa de um panfleto..." Ambas as cenas demonstram muito bem, acho, que para a Sra. Pomsel o que estava em jogo eram sempre as emoções pessoais, e nunca o "estar acima dos fatos", o panorama político global. Isso, ela nunca viu.

Ela tem pena dos dois pobres jovens executados por causa de um panfleto: "Se eles tivessem ficado de boca fechada, estariam vivos até hoje." Em si, isso é uma constatação absurda, mas que, no mundo dela, tem lógica. Pois ela só se importa com essas duas pessoas. E, com os filhos de Goebbels, o que conta para ela são apenas as emoções pessoais: "As pobres criancinhas..." Para ela, todo o desvario em volta não conta.

Brunhilde Pomsel no Festival de Cinema de Munique, ladeada pelos diretores de "Uma vida alemã"

Vamos falar de estética cinematográfica: vocês trabalham em preto e branco e sem comentários, e inserem apenas breves documentários entre os blocos de entrevistas, filmes de propaganda nazista ou rodados pelos Aliados logo após a libertação dos campos de concentração.
CK: O tema em questão é atemporal. Nós queríamos experimentar lhe dar uma estética também atemporal. Nós optamos pela variante em preto e branco, que dá esse caráter; mediante a situação de estúdio, nós situamos Brunhilde Pomsel fora do espaço e do tempo.

FW: O material de arquivo não se pode comentar: em si, ele já é propaganda. Intervir novamente aí seria propaganda ao quadrado, disfarçada de material histórico. Nós queríamos deixá-lo intencionalmente dessa forma, sem música, sem cortes, sem a nossa intervenção. Queríamos caracterizar o material pela finalidade para que foi produzido. Aí, ele conta uma história diferente da que se costuma ver nos especiais de televisão.

Se bem que não se trata só de propaganda nazista: também as sequências registradas por americanos e russos depois da libertação são mostradas sem comentários. Por quê?
FW: É claro que, de certo modo, é para ser também um contraponto à visão da Sra. Pomsel sobre essa época. "Ah, meu Deus, os judeus... Eu nem percebi nada... os campos de concentração..." Então é simplesmente preciso mostrar o que foi e que era perfeitamente possível saber, sim, se se quisesse, e se tivesse visto essas imagens.

Essa é a única acusação e a única culpa que ela carrega. Olhar para o lado é culpa, sim, e ser apolítico já é culpa suficiente. A intenção não foi desmascará-la como nazista. Isso ela decerto não era. Ela só era desinteressada – e isso é, justamente, uma forma de culpa.













Fonte: http://www.dw.com/pt/ser-desinteressado-por-pol%C3%ADtica-%C3%A9-uma-forma-de-culpa/a-19377077



quinta-feira, 7 de julho de 2016

18 COMPORTAMENTOS DE PESSOAS COM INTELIGENCIA EMOCIONAL ELEVADA



Cada pessoa traz em si programas biológicos de ação e reação automáticos. Porém, o meio em que vivemos, nossa cultura local e experiências de vida, vão moldando nossa bagagem biológica para definir nossas respostas e manifestações diante dos estímulos emocionais com que nos deparamos.

Algumas pessoas têm alta capacidade de lidar com as emoções e sentimentos sejam seus ou dos outros – mesmo diante de situações desafiadoras, de ansiedade ou estresse. Essa capacidade de lidar bem (ou não) com as emoções pode ser medida e é chamada de inteligência emocional (QE). As pessoas que tem o QE elevado costumam ter comportamentos diferenciados e mais chances de sucesso em empreendimentos. Veja abaixo quais são esses comportamentos:

1. Amplo vocabulário emocional
Muitas pessoas quando passam por algum problema com suas emoções, apenas expressam que estão se sentindo “mal” ou com um “nó no peito”. Já as pessoas emocionalmente inteligentes podem identificar especificamente como se sentem, “irritados”, “frustrados”, “oprimidos”, ou “ansiosos.”

2. Curiosidade a respeito de pessoas
A vida dos outros e como eles se sentem é importante para a pessoa que tem QE elevado. Um dos sinais marcantes é a empatia. Quanto mais você se preocupa com os outros, mais curiosidade terá sobre eles.

3. Fácil adaptação
As pessoas de alto QE, não se desesperam com as mudanças. Elas sabem que mudanças são necessárias às vezes e estão dispostas a se adaptarem. São flexíveis e sabem que rotinas desgastantes e medo de mudanças são paralisantes.

4. Autoconhecimento
Conhecer seus pontos fortes e suas fraquezas e utilizá-los para seu pleno desenvolvimento é outro comportamento comum de pessoas com inteligência emocional alta. Elas compreendem as próprias emoções e sabem em que são boas e em que são ruins.

5. Senso de julgamento
A inteligência emocional está muito ligada à consciência social. Envolve a capacidade de ver o outro e fazer um julgamento correto sobre seu caráter; é quase uma capacidade de “ler” as outras pessoas. O inteligente emocional compreende seus problemas e motivações, ainda que não sejam aparentes.

6. Autoconfiança
A pessoa que consegue rir de si mesmo, que não se ofende com brincadeiras e até mesmo críticas – pois tem autoconfiança – é uma pessoa emocionalmente bem-dotada. Além disso, os limites entre humor e degradação estão bem claros para ela.

7. Sabem dizer “não”
Tanto a si mesma quanto aos outros. Uma pesquisa da Universidade da Califórnia, concluiu que não saber dizer “não” causa estresse, esgotamento e até depressão. Saber dizer não a si mesmo, adiar a própria gratificação ou exercer autocontrole é característico do QE alto. Dizer “não” aos outros, pode ser libertador. Quando você diz não a um compromisso, isso lhe permite cumprir os que já assumiu e cumpri-los com êxito, já que não há sobrecarga nem pressa.

8. Mudam a si mesmas
Outra característica comum à inteligência emocional alta é a capacidade de ver os próprios erros, corrigi-los ou abandoná-los. Não significa esquecer seus erros, pois se aprende com eles, mas não cometer os mesmos erros novamente.

9. Não são interesseiras
Não dão algo esperando outro em troca. Seus relacionamentos são firmes, porque se preocupam com os outros.

10. Não guardam ressentimentos
Pesquisadores da Universidade Emory demonstraram que guardar rancor faz a pressão arterial subir e causar problemas cardíacos. As pessoas emocionalmente inteligentes sabem que devem evitar a todo o custo.

11. Lidam bem com pessoas
Até mesmo com as chamadas “tóxicas”. Elas identificam as próprias emoções e não se deixam afetar pelo confronto. Mesmo em situações de enfrentamento conseguem encontrar soluções e um ponto em comum.

12. Não são perfeccionistas
Sabem que a perfeição não existe e não perdem tempo procurando por ela. Sabem também que buscar a perfeição que não existe, lhes deixará sempre com a sensação de fracasso e tira seu ânimo para avançar.

13. Apreciam o que têm
Uma pesquisa conduzida na Universidade da Califórnia descobriu que as pessoas que buscam diariamente cultivar uma atitude de gratidão notam melhora do humor, energia e bem-estar físico através da redução do cortisol.

14. Descansam
A qualquer custo. Não negligenciam seu tempo “off-line”, pois sabem que é fundamental para enfrentar a rotina e ter boa saúde.

15. Limitam a cafeína
Cafeína é um estimulante cerebral útil se você precisa de uma resposta do tipo: fugir ou lutar? O que é ótimo, se você está diante de um rinoceronte, mas totalmente desnecessário se for para responder a um e-mail. Indivíduos de alto QE sabem que a cafeína é um problema e não se deixam escravizar por ela. Nem por qualquer outra substância ou hábito.

16. Sono adequado
Pessoas com alto QE são assim por justamente dormirem o necessário. O sono recarrega o cérebro e limpa as memórias desnecessárias do dia através do sonho e armazena as necessárias. Seu cérebro fica alerta e “afiado”. Por isso, sono para pessoas assim é prioridade.

17. Não ruminam pensamentos negativos
Sabem que pensamentos negativos são apenas isso: pensamentos. Sabem que a maioria dos nossos medos jamais acontece. Por isso, se livram dos pensamentos negativos e se movem a uma perspectiva mais positiva.

18. Não se comparam
Sua autoestima é forte. Pelo autoconhecimento e a autoconfiança já citados, não se abalam com comentários alheios e não se comparam com o sucesso dos outros. Quando se sentem bem sobre algo que fizeram, não vão deixar que comentários maldosos lhes tirem a alegria, pois quando se depende da opinião alheia, deixa-se de ser autor da própria felicidade.

Texto de: Stael F. Pedrosa Metzger

Stael Pedrosa Metzger é escritora free-lancer, tradutora, desenhista e artesã, ama literatura clássica brasileira e filmes de ficção científica. É casada e mãe de dois filhos.




SOBRE ESTAR SOZINHO por Flávio Gikovate



Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor. O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.

A ideia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona suas características para se amalgamar ao projeto masculino. A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo e assim por diante. Uma ideia prática de sobrevivência e pouco romântica por sinal.

A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.

Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficarem sozinhas e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.

O ser humano é um animal que vai mudando o mundo e depois tem de ir se reciclando para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.

A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa a aproximação de dois inteiros e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.

A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.

Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.

O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado.

Texto de Flávio Gikovate



COMO UMA FRASE AJUDOU A SALVAR O MEU CASAMENTO por Richard Paul Evans

UM HOMEM QUE TODA MULHER QUER TER 
AO SEU LADO ATE O FIM DA VIDA
Roberta Carrilho


— Minha filha mais velha Jenna me disse recentemente:

«Quando eu era pequena, meu maior medo era que você e minha mãe se divorciassem. No entanto, quando fiz 12 anos, pensei que pudesse ser a melhor escolha, pois sempre brigavam!» E depois acrescentou com um sorriso: «Estou contente que agora se deem bem».

Por muitos anos, minha esposa Keri e eu brigamos muito. Olhando para trás, não entendo muito bem como foi que nos casamos, nossas personalidades não eram muito compatíveis. Quanto mais tempo ficávamos casados, mais profundas pareciam ser as nossas diferenças. A fortuna e a fama não fizeram a nossa vida mais fácil. Ao contrário, parecia que os problemas foram ficando piores. Nossas brigas se tornaram constantes e era difícil até imaginar uma relação pacífica. Estávamos sempre na defensiva, criando fortalezas emocionais em torno de nossos corações. Estávamos prestes a nos divorciar e repetidamente discutimos o assunto.

Estava numa turnê promovendo o meu livro, quando as coisas chegaram ao extremo. Tivemos outra briga séria pelo telefone e Keri desligou na minha cara. Estava sozinho e me sentia sozinho, frustrado e irritado. Tinha atingido o meu limite. Estava no chuveiro, em Buckhead, Atlanta Ritz-Carlton, gritando que meu casamento fora um grande erro e que eu já não aguentava mais. Odiava a ideia do divórcio, mas seguir assim me machucaria muito. Estava confuso e não conseguia entender por que meu casamento com Keri era tão difícil. No meu coração, sabia que Keri era uma boa pessoa. E eu também era. Então, por que não nos dávamos bem? Por que eu me casei com alguém tão diferente de mim? Por que ela não podia mudar?

No final, rouco e com o coração partido, sentei-me no chuveiro e comecei a chorar. De repente, no fundo do meu ser veio a inspiração. Você não pode mudá-la, Rick. Você só pode mudar a si mesmo. No dia seguinte, voltei para casa. Minha esposa mal me cumprimentou. Naquela noite, quando fomos para a cama dormir, os centímetros que nos separavam pareciam quilômetros. Eu sabia que tinha de fazer algo.

Na manhã seguinte, perguntei a Keri: «O que posso fazer para melhorar o seu dia?»

Keri olhou para mim com raiva: «O que?»

«O que posso fazer para melhorar o seu dia?»

«Nada», disse ela. «Por que você pergunta?»

«Porque eu realmente quero isso», disse. «Eu só quero saber o que eu posso fazer para tornar o seu dia melhor».

Ela olhou para mim com ironia. «Você quer fazer alguma coisa? Bem, vá limpar a cozinha».

Certamente pensava que eu ficaria bravo. Em vez disso, apenas assenti. «Ok». Levantei-me e limpei a cozinha.

No dia seguinte, perguntei a mesma coisa. «O que posso fazer para melhorar o seu dia?»

«Limpe a garagem».

Respirei profundamente. Tive um dia agitado e sabia que ela só disse isso para me irritar. Mas somente disse: «Ok». Levantei-me e passei duas horas seguidas limpando a garagem. Keri não sabia o que pensar.

Na manhã seguinte perguntei: «O que posso fazer para melhorar o seu dia?»

«Nada!», ela disse. «Você não pode fazer nada. Por favor, pare de perguntar».

«Desculpe», respondi. «Mas não posso. Fiz uma promessa a mim mesmo. O que posso fazer para melhorar o seu dia?»

«Porque você faz isso?»

«Porque eu me importo», lhe disse. «E eu me preocupo com o nosso casamento».

Na manhã seguinte, perguntei novamente. E continuei perguntando. Na segunda semana, um milagre aconteceu. Quando fiz a mesma pergunta, os olhos de Keri se encheram de lágrimas. Começou a chorar. Quando conseguiu falar, disse: «Por favor, pare de me perguntar. Você não é o problema. Sou eu. Sou uma pessoa difícil de aguentar. Não sei por que você ainda está comigo».

Gentilmente levantei seu queixo para que pudesse me olhar nos olhos. «Porque eu amo você», eu disse. «O que posso fazer para melhorar o seu dia?»

«Eu é quem devia lhe perguntar isso».

«Certo», eu disse. «Mas não agora. Agora eu preciso mudar. Quero que você saiba o quanto significa para mim».

Ela colocou a cabeça no meu peito. «Perdoe-me por me comportar tão mal».

«Eu amo você», eu disse.

Eu amo você«, respondeu.

«O que posso fazer para melhorar o seu dia?»

Ela me olhou com carinho.

«Podemos simplesmente sair juntos?»

Sorri, «Adoraria!».

Continuei perguntando por mais de um mês. E as coisas realmente mudaram. As brigas acabaram. Em seguida, Keri começou a perguntar: «O que eu posso fazer para ser uma boa esposa?»

O muro entre nós caiu, começamos a ter conversas profundas e significativas sobre o que queríamos da vida e como poderíamos nos fazer felizes. Não, nós não resolvemos todos os nossos problemas. Não posso dizer que nunca mais voltamos a brigar. Mas a natureza de nossas discussões mudou. Não só se tornaram menos frequentes, mas também lhes faltava força. Cortamos o seu oxigênio. Paramos de permitir que nos feríssemos.

Keri e eu estamos há mais de trinta anos casados. Não só amo minha esposa, mas gosto de estar com ela. Preciso dela. Adoro ela. Muitas das nossas diferenças se tornaram nossos pontos fortes. Aprendemos como cuidar um do outro e, o mais importante, temos vontade disso.

O casamento é difícil. Mas ser pai, fazer exercício, escrever livros e tudo o mais que importa na vida também. Ter uma parceira é um presente significativo. Eu também aprendi que o casamento pode ajudar-nos a aceitar as características que não gostamos em nós.

Com o tempo eu aprendi que a nossa experiência foi uma ilustração de outra lição, ainda maior do que o casamento. A pergunta que todos aqueles que estão em um relacionamento devem fazer a seus parceiros é a seguinte: «O que posso fazer para melhorar a sua vida?» É o amor. Os romances (escrevi alguns) são sobre o desejo e têm sempre um final feliz, mas esse «final feliz» não vem do desejo. O verdadeiro amor não se trata de desejar a pessoa, mas honestamente desejar que seja feliz, às vezes às custas de nossa própria felicidade. O verdadeiro amor não é conseguir uma cópia de você como companheiro. É expandir nossas habilidades de tolerância e procurar fazer com que seu parceiro se sinta bem. O resto é apenas uma farsa de interesse egoísta.

Eu não quero dizer a minha experiência funcione para todas as relações. Nem dizer que todos os casamentos no mundo devem ser salvos. Mas eu, pessoalmente, sou incrivelmente grato pela inspiração dada a mim naquele dia. Sou grato à vida porque minha família ainda está intacta e ainda tenho a minha esposa, minha melhor amiga na cama todas as manhãs ao acordar. E estou feliz porque, mesmo agora, décadas depois, ainda nos perguntamos: «O que posso fazer para melhorar o seu dia?» Isso faz com que valha a pena acordar de manhã.





OS 95% DE BRASILEIROS TRABALHADORES PRECISAM CRER QUE 5% DE CANALHAS NAO SAO INVENCIVEIS por Mário Sérgio Cortella



Como promover as reais mudanças na política?

A primeira coisa é que, numa democracia, nós somos os grandes provedores da política, isto é, os que lá estão não aparecem porque tomaram o poder, isso seria uma ditadura. Nós os colocamos. O que significa que, de um determinado modo, nossas boas escolhas para a gestão pública da atividade política é decisiva. Em segundo lugar, a incapacidade que algumas pessoas têm, às vezes, de supor que a política não acontece somente na época das eleições. Ela exige que eu continue acompanhando no meu dia a dia aquilo que é feito pelas pessoas que me representam. E, terceiro, é que as pessoas de bem se candidatem também para os cargos. Se a gente diz que a política está muito vinculada ao desvio, ao ‘entornar o caldo’, é preciso quem não queira fazê-los, isto é, gente que não quer ser desonesto, que ela decida também participar da política.

O poder corrompe obrigatoriamente?
Ela [a corrupção] é uma possibilidade. Ela é uma possibilidade. Mas ela não é uma obrigatoriedade. Eu insisto sempre: a corrupção nunca será extinta da vida humana porque nós somos livres para o malefício e para o benefício. Isso significa que posso, sim, ter a situação, mas não sou obrigado a ter. Você tem mecanismos judiciais que bloqueiam isso, uma sociedade que acompanha e recusa a corrupção do dia a dia. Porque quando eu encontro um grande movimento é porque ele acontece no dia a dia e no momento em que a pessoa se relaciona com o poder público. Quando essa pessoa está na frente do agente de trânsito, quando ela quer oferecer e facilitar. Essas são coisas que, pouco a pouco, vai minando nossa condição.

Todo político é corrupto porque também a sociedade é corrupta?
Não concordo. Eu acho que, por exemplo, eu costumo dizer, e vou insistir: 95% dos brasileiros acordam todos os dias em vários estados do País e vão trabalhar. Levantam de madrugada, pegam ônibus, cavalos, bicicletas, moto e vão. 5% são canalhas. Esses 5% de canalhas conseguiram duas coisas perigosíssimas. Primeira, dizer aos 95% que não são canalhas que não sê-lo é uma forma de ser tonto e otário. Segunda, que eles, os 5%, são invencíveis. Aí, duas mentiras. Primeira: Não é correto ser canalha. Segunda: que os 5% não são invencíveis. Nós temos hoje, no País, um processo de limpeza dolorido, complicado, nos dá raiva em vários momentos, mas ele é necessário. A palavra crise tem origem numa palavra do sânscrito que é purificar, pu-ri-fi-ca-cão. Por isso cria. Tem pessoa que no exercício de ioga se cria. O que é purificar? É você se separar. A febre, por exemplo, é uma forma de purificação.

A gente pode ter uma realidade diferente daqui em diante?
A gente precisa ter. Se a gente perder essa ocasião, se nós perdermos essa ocasião… Nós não podemos perder essa chance no País porque a democracia não quebra a nação. Nós não temos uma política hoje em que a gente fica desgovernado. Ao contrário, a gente tem uma rota, ela (a democracia) está seguindo com algumas tribulações. Mas nós temos capacidade hoje de fazer um País que possa ser melhor. O que a gente não pode é achar “O que eu posso fazer?”. Qual é a frase mais perigosa num país como o nosso?: “Que horror, alguém tem que fazer alguma coisa”.

E a gente não faz nada?
Pois é, como se fosse o lado certo. Por isso vivemos um momento especial. É difícil, é duro, muito complicado, mas ele é algo que nós nunca tivemos na história. Nós não podemos perder a ocasião.

Precisamos ter uma boa conduta moral para cobrar dos outros?
Claro. Mas a ideia de que o outro não está fazendo o que deve fazer não significa que eu adiro, ou seja, acato a lógica de que “eu faço, todo mundo faz”. Isso é absolutamente perigoso. Afinal de contas, como diz o Corpo de Bombeiros: nenhum incêndio começa grande. Todo incêndio começa com uma faísca, com uma fagulha. Quando a gente tem, assim, esse tipo de apodrecimento nos modos de convivência, tem a ver comigo. O que significa, acima de tudo, que eu preciso participar da vida coletiva de um modo que seja decente. “Ah, mas o outro não faz…”.Lamento. A frase é clássica mas eu sou caipira; sou de Londrina. E o caipira costuma dizer que é ‘pobre, mas é limpinho’. A ideia de ser pobre e limpinho é uma coisa que é decisiva numa circunstância como essa. O que não pode é ser cínico. O cínico é aquele que finge que é honesto. Mas é só da boca pra fora. Isso aí, como diz um personagem da TV, é nojento.

Rui Barbosa disse que ‘chegará o dia em que o homem teria vergonha de ser honesto’. Vale desistir de tentar mudar o mundo?
Jamais. Jamais. Nós somos marcados, nós humanos, pela capacidade da esperança, isto é, esperança do verbo ‘esperançar’. Tem gente que tem esperança do verbo esperar. Esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. “Ah, eu espero que dê certo, eu espero que aconteça. Eu espero que resolva. Isso, repito, não é esperança, é esperar. Esperança é ir atrás, é se juntar, é não desistir. Afinal, as pessoas olham e diz assim: “Ah, se ficar o bicho come, se correr o bicho pega”. Falta a terceira parte, é essa que decide. Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega, mas SE JUNTAR O BICHO FOGE. E é isso que é decisivo.

Entrevista com o professor Mário Sérgio Cortella. Repórteres: Handerson Pancieri e Suelen Reis. TV Anhanguera, Goiânia-GO. Fonte: Programa Bom Dia Goiás – Quadro – Bom Dia Responde, TV Anhanguera, Goiânia-GO, entrevista concedida em 22 de setembro de 2015.

MEU PROBLEMA É ESPERAR QUE OS OUTROS AJAM COMO EU AGIRIA por Valeria Sabater




A origem de muitas das nossas decepções é esperar que os outros ajam como nós mesmos agiríamos. Esperamos a mesma sinceridade, o mesmo altruísmo e reciprocidade, mas, no entanto, os valores que definem os nossos corações não são os mesmos que vivem na mente dos outros.

William James, filósofo, fundador da psicologia funcional e, por sua vez, irmão mais velho de Henry James, comentou em suas teorias que uma maneira simples de encontrar a felicidade reside no fato de minimizar as nossas expectativas. Quanto menos você esperar, mais poderá receber ou encontrar. É certamente um argumento um tanto controverso, no entanto, não deixa de ter a sua lógica.
“Não espere nada de ninguém, espere tudo de si mesmo, desse modo o seu coração irá armazenar menos decepções.”
Todos nós temos muito claro que no que diz respeito às nossas relações, é impossível não ter expectativas. Esperamos que certos comportamentos e aspectos desejamos ser amados, defendidos e valorizados. Agora, isso não significa que, por vezes, estas previsões nos falhem. Quem espera muito dos outros geralmente acaba ferido em algum detalhe, alguma nuance, portanto, vale a pena considerar uma série de aspectos.


Quando esperamos que os outros ajam de acordo com nossas expectativas

Os pais que esperam que seus filhos ajam de uma determinada maneira, os casais que esperam tudo de seu parceiro, e amigos que esperam que os apoiemos em tudo que fazem, mesmo que às vezes vá contra os nossos valores. Todas estas situações comuns são exemplos claros do que é conhecido como “a maldição das expectativas.”

Às vezes, algumas pessoas passam a acreditar que o que pensam, sentem e julgam é quase algo “normativo” e até mesmo chegam a colocar um patamar tão elevado quando se trata do conceito de amizade, amor ou família que ninguém pode chegar a estas cimeiras e, portanto, a decepção encontra-se em todos os lados. A chave, como sempre, está no equilíbrio e, sobretudo, na necessidade de ser realista.

É claro que existem certos tipos de expectativas que se enquadram dentro do que é esperado (não traição, sinceridade, respeito, fidelidade …) todos são pilares que sustentam relacionamentos positivos e saudáveis. No entanto, assim que alguém se torna obcecado com a “excelência” da ligação, seja emocional, pai-filho ou amizade matéria, frustração, ressentimento ou até mesmo a raiva que parece. É algo a considerar.

Como parar de esperar muito dos outros

Ninguém é ingênuo por necessitar ver sempre o lado bom das pessoas. Temos o direito de vê-lo, encontrá-lo e até mesmo promovê-lo, mas com alguma cautela. Porque a decepção é a irmã das elevadas expectativas, por isso é mais apropriado não se deslumbrar antes do tempo.
“As aparências não costumam enganar, o que muitas vezes costuma falhar são nossas próprias expectativas sobre os outros …”
Podemos esperar muito dos demais, no entanto, o certo é sempre esperar mais de nós mesmos.


Chaves que nos ajudarão a deixar de esperar muito das pessoas

Para ajudá-lo a deixar de esperar muito das pessoas ao seu redor, oferecemos as seguintes chaves:

Ninguém é perfeito, nem mesmo nós mesmos. Se fôssemos agradar as expectativas que os outros têm sobre nós, viveríamos estressados e infelizes. É impossível, ninguém é um exemplo de perfeição ou virtude absoluta. Basta respeitar uns aos outros e exercer a reciprocidade da forma mais humilde possível.

Aprenda a diferenciar expectativas e dependência. Às vezes culpamos os outros pela nossa própria felicidade. Nós construímos grandes expectativas em relação a alguém em particular porque somos dependentes do que nos oferece, e, portanto, exigimos que aja como queremos, porque é a única maneira de nos sentirmos bem..

Aceite que nem sempre tem que obter algo em troca. Este é um aspecto que caracteriza muitas pessoas: “Se eu lhe fizer um favor, espero outro de volta.” Como essas coisas nem sempre são cumpridas, o correto é aceitar os outros como eles são.


Para concluir, talvez William James, a quem citamos no início, estava certo com sua simples proposta: quanto menos esperamos, mais surpresas podemos ter. Isso seria simplesmente dar-se ao luxo de ser um pouco mais livre e menos dependente do comportamento dos outros.

Somos todos falíveis, somos todos seres maravilhosamente imperfeitos tentando viver em um mundo onde, por vezes, decepções caóticas são inevitáveis, mas no qual também habitam o amor sincero e amizades duradouras.



sábado, 2 de julho de 2016

15 FILMES QUE IRÃO COLOCAR SUA MENTE EM XEQUE



Alguns filmes esquisitos e incomuns às vezes nos colocam num beco sem saída; fazem pensar e ir a fundo para tirar conclusões. E, passados os créditos no final, nos perguntamos: “como o autor foi capaz de criar uma trama como essas?“

Esta seleção reuniu algumas dessas obras. Se já as assistiu, talvez queira assistir de novo, analisando cena a cena e voltando aos antigos enigmas. Agora, se nunca as viu, que tal aproveitar um final de semana para ver pela primeira vez e pensar um pouco?

O amigo oculto
Hide and Seek


Um psiquiatra de meia idade, David, está desesperado para ajudar sua pequena filha Emily a enfrentar a morte da mãe. Ele se dá conta de mudanças estranhas no comportamento da menina. Acontece que agora ela tem um amigo imaginário chamado Charlie. A princípio David não leva a sério, mas quando eventos misteriosos começam a acontecer a seu redor, ele passa a investigar quem é esse amigo.


O duplo
The Double


Este filme faz pensar muito. Simon é um humilde empregado. No trabalho, ninguém presta atenção nele e a garota dos seus sonhos o ignora. Parece que tal situação irá durar para sempre, mas um dia surge no escritório um tal de James, que é fisicamente idêntico a Simon, mas com uma personalidade totalmente oposta. Assim, pouco a pouco, James passa a se apropriar da vida de Simon.


Donnie Darko
Donnie Darko


Donnie Darko nunca foi considerado um rapaz comum, sempre foi visto como um ”bicho esquisito". O filme é igualmente esquisito, tal qual o personagem principal. A trama é complexa e emaranhada, porém interessante e fascinante. A história conquistou muitos fãs ao redor do mundo e muitos a consideram uma obra cult.



O Operário
The Machinist


Trevor Reznik passa um ano sem conseguir dormir. Ele se transforma em um esqueleto ambulante que tenta encontrar o equilíbrio entre sonho e realidade. Os diálogos e a música fazem deste filme um verdadeiro transe, no qual o protagonista luta para dormir e, ao mesmo tempo, descobrir o que o impede de pegar no sono. Christian Bale está simplesmente irreconhecível.


A caixa
The Box


Arthur e Norma são recém-casados e estão passando por dificuldades financeiras. De repente, se transformam nos felizes proprietários de uma caixa enigmática que tem um botão. É explicado a eles que, ao apertar o botão, imediatamente ganharão um milhão de dólares. Só que existe um porém. No mesmo momento em que apertarem o botão, em algum lugar do mundo uma pessoa desconhecida morrerá... O filme é um pouco chocante e nos leva a pensar: você seria capaz de tirar a vida de alguém?


Quero ser John Malkovich
Being John Malkovich


Em seu escritório, Craig Schwartz descobre uma pequena porta secreta por trás da qual encontra um corredor escondido que leva diretamente à mente do ator americano John Malkovich! Craig resolve organizar excursões para quem quiser viajar à mente do astro. O filme é tão estranho que os personagens às vezes querem entrar também na mente de quem está assistindo.


Paixão à Flor da Pele *adoro drama e romance
Wicker Park


É um imponente drama com uma trama sensível, que o mantém em estado de tensão. Até o último momento, não é possível saber como irá terminar nem em que resultará a crescente tensão e a intriga inteligente que desperta sua imaginação. A trilha sonora, de extremo bom gosto, merece atenção especial.


Spider — Desafie sua Mente
Spider


Após passar 20 anos em um hospital para doentes mentais, o esquisito e solitário Dennis Clegg retorna ao lugar onde cresceu. Como uma aranha, ele explora a teia das lembranças que cobriu sua mente. O ambiente do filme é um pouco psicodélico, mas quem ama cinema precisa assisti-lo.


O Homem Duplicado
Enemy


Filme interessante e digno de sua atenção, na mesma linha de ’O Duplo’. Ao alugar um filme, um rapaz percebe que um dos atores que aparecem é uma cópia exata dele mesmo. O desejo de encontrar seu clone se transforma em uma obsessão. Mas será que aquele homem é mesmo sua cópia?


Filth
Filth


É um filme forte, com história interessante e uma excelente atuação. Bruce Robertson é um policial corrupto, obcecado por álcool e sexo. Ele deseja ser promovido no emprego, mas seus odiados companheiros poderiam lhe atrapalhar. No decorrer da história, os demônios internos de Robertson lhe deixam louco. O ator James McAvoy (que interpreta Robertson) conseguiu expressar as emoções do personagem de maneira extraordinária.


Triângulo do Medo *não gosto de terror e nem suspense
Triangle


Greg convida sua namorada Jess para passar um dia num iate com amigos. Uma forte tempestade vira o barco, mas para salvar-lhes surge do nada um enorme transatlântico. O navio de cruzeiro parece estar vazio e com os relógios parados. Porém, eles não estão sozinhos na embarcação. Alguém os observa constantemente.


Identidade
Identity


Durante um terrível dilúvio, 10 viajantes se veem obrigados a passar a noite num hotel de beira de estrada. Logo depois, porém, as pessoas começam a morrer, uma depois da outra, e o assassino que os espreita não é descoberto. Nem tente adivinhar... a trama é tão complexa que o final é realmente inacreditável.


Contraponto
Tideland


Um pai relapso, Noe, decide levar sua filha, Jeliza-Rose, até a casa onde passou a infância, situada entre grandes campos de trigo. A fuga da realidade o leva a um lugar estranho e sombrio, onde até as fantasias mais selvagens parecem histórias inofensivas. O filme, totalmente maluco, não é para qualquer um. Mas é impossível deixar de vê-lo.


Império dos Sonhos
Inland Empire


Os filmes do diretor David Lynch são muito peculiares e ocupam um lugar especial na história do cinema. Como todas as suas obras, não há como descrever Império dos Sonhos. É uma obra que foge à lógica, ao menos da lógica dita normal. Recomendada para todos os cinéfilos.


A vida de David Gale
The Life of David Gale


Este talvez seja o melhor filme sobre a luta do ser humano contra o sistema da Justiça. O maravilhoso Kevin Spacey prende a atenção com sua atuação do começo ao fim. O final obriga o espectador a perceber de outra forma tudo o que aconteceu, rejeitando por completo a narrativa anterior.