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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

ESTOU EM LUTO!!! Morre o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman


O intelectual tinha 91 anos e era considerado um dos principais pensadores do século XX


O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman morreu nesta segunda-feira (9), em Leeds, na Inglaterra, informou o jornal polonês Gazeta Wyborzca. A causa da morte não foi divulgada. Aos 91 anos, Bauman era considerado um dos intelectuais mais importantes do século 20. Ele deixou a mulher, Janine Lewinson-Bauman, e três filhas. 

Nascido em Poznan, no oeste da Polônia, em 1925, Bauman fugiu do nazismo, ainda pequeno, com a família para a União Soviética. Lá, serviu na Segunda Guerra Mundial pelo Exército local.

Mais tarde voltou à Polônia, onde foi professor da Universidade de Varsóvia. O que não durou muito. Destituído do posto, teve obras censuradas e foi expulso do Partido Comunista do qual era afiliado.

Em 1968, deixou a Polônia por conta de perseguições antissemitas. Mais tarde, renunciaria à sua nacionalidade e se instalaria em Tel Aviv, em Israel. Anos depois, se fixou Universidade de Leeds, na Inglaterra, onde desenvolveu a maior parte de sua carreira.

Com uma visão crítica da realidade, Bauman era considerado um pessimista.

Um intelectual que se manteve ativo e trabalhando até os últimos momentos de sua vida. Uma de suas teorias mais conhecidas era a da “modernidade líquida” – que compreende um período de intensa mudança na humanidade: tudo que era sólido se liquidificou. De acordo com o conceito, agora “nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso”.

A filosofia, a cultura, o individualismo, o avanço da desigualdade, a revolução digital, a efemeridade das relações a partir dessa revolução são algumas questões estudadas pelo pensador – que se tornou uma figura de referência em diferentes campos do conhecimento.

A maioria dos livros de Bauman foi traduzida para o português. Seu último título lançado no Brasil foi A Riqueza de Poucos Beneficia Todos Nós? (editora Zahar). Nele, o polonês aborda as atuais consequências do neoliberalismo que triunfou na sociedade capitalista nos aos 80.

O filósofo deu aula em universidades dos Estados Unidos, Austrália e Canadá, sendo professor emérito de sociologia da Universidade de Leeds, onde trilhou a maior parte de sua carreira. Sua obra, que começa nos anos cinquenta, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades em 2010, que obteve juntamente com o colega Alan Touraine.

As teorias de Bauman exerceram grande influência nos movimentos antiglobalização. Seus ensaios alcançaram fama internacional nos anos oitenta, com títulos como Modernidade e Holocausto (1989), em que define o extermínio dos judeus pelos nazistas como um fenômeno relacionado ao desenvolvimento da modernidade. Em sua última entrevista concedida ao EL PAÍS, Bauman fez uma dura crítica às redes sociais: "As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha". 

Entre suas obras mais significativas, destacam-se Modernidade Líquida (2000), em que afirmava que o capitalismo globalizado estava acabando com a solidez da sociedade industrial; Amor Líquido (2005); e Vida Líquida (2006). Além disso, é autor de títulos como A Cultura Como Praxis (1973, sem tradução no Brasil), O Mal-Estar da Pós-Modernidade (1997), A Globalização: As Consequências Humanas (1998), Em Busca da Política (1999), A Sociedade Individualizada(2001) e Vidas Desperdiçadas (2005). 

Entre seus trabalhos publicados em português, também encontram-se Medo Líquido (2006), A Arte da Vida (2008), Desafios do Mundo Moderno (2015) e A Riqueza de Poucos Beneficia Todos Nós? (2015). 

Relações, consumo e globalização: 9 pensamentos de Zygmunt Bauman que vão chacoalhar sua mente 


A seguir, conheça 9 pensamentos deixados pelo intelectual 

1) Sobre identidade e redes sociais

“A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo [...] As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.” Trecho extraído de entrevista ao El País. 

2) Sobre consumo e poder de escolha

“Numa sociedade sinóptica de viciados em comprar/assistir, os pobres não podem desviar os olhos; não há mais para onde olhar. Quanto maior a liberdade na tela e quanto mais sedutoras as tentações que emanam das vitrines, e mais profundo o sentido da realidade empobrecida, tanto mais irresistível se torna o desejo de experimentar, ainda que por um momento fugaz, o êxtase da escolha. Quanto mais escolha parecem ter os ricos, tanto mais a vida sem escolha parece insuportável para nós.” Trecho extraído do livro Modernidade Líquida. 

3) Sobre o sofrimento mediado pelo consumo

“Algum tipo de sofrimento é um efeito colateral da vida numa sociedade de consumo. Numa sociedade assim, os caminhos são muitos e dispersos, mas todos eles levam às lojas. Qualquer busca existencial, e principalmente a busca da dignidade, da autoestima e da felicidade, exige a mediação do mercado.” Trecho extraído do livro Vida Líquida.

4) Sobre redes sociais e privacidade

“Os adolescentes equipados com confessionários eletrônicos portáteis são apenas aprendizes treinando e treinados na arte de viver numa sociedade confessional – uma sociedade notória por eliminar a fronteira que antes separava o privado e o público, por transformar o ato de expor publicamente o privado numa virtude e num dever público (…)” Trecho extraído do livro Modernidade Líquida. 

5) Sobre globalização e uma humanidade interligada 

“Nós somos responsáveis pelo outro, estando atento a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas.” Trecho extraído do livro Modernidade Líquida. 

6) Sobre o Brasil 

“Vocês estão no caminho certo e eu espero de todo o meu coração que vocês cheguem lá. Eu apenas direi que os representantes de 66 governos do mundo vieram para o Rio de Janeiro para se consultarem, para aprenderem sobre a experiência de retirar 22 milhões de pessoas da pobreza. Ninguém mais repetiu esse milagre, só o Brasil. Desejo que continuem isso, mas também agora algumas deficiências estão vindo à tona”. Trecho extraído de entrevista ao jornalista Alberto Dines, em 2015.

7) Sobre a pós-modernidade globalizada

“Na hierarquia herdada dos valores reconhecidos, a ‘síndrome consumista’ destronou a duração, promoveu a transitoriedade e colocou o valor da novidade acima do valor da permanência.” Trecho extraído do livro Vida Líquida.

8) Sobre relacionamentos em um mundo individualista

"Em nosso mundo de furiosa individualização, os relacionamentos são bençãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro. Na maior parte do tempo, esses dois avatares coabitam - embora em diferentes níveis de consciência. No líquido cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns, agudos, perturbadores e profundamente sentidos da ambivalência." Trecho extraído do livro Amor Líquido. 

9) Sobre relacionamento e riscos 

"Não se deixe apanhar. Evite abraços muito apertados. Lembre-se de que, quanto mais profundas e densas suas ligações, maiores os seus riscos. (...) E lembre-se, claro, de que apostar todas as suas fichas em um só número é a máxima insensatez!" Trecho extraído do livro Amor Líquido. 


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ZYGMUNT BAUMAN: BABEL ENTRE A INCERTEZA E A ESPERANÇA por Leonardo Cazes (08/08/2016)


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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

ZYGMUNT BAUMAN: BABEL ENTRE A INCERTEZA E A ESPERANÇA por Leonardo Cazes (08/08/2016)


Nada parece estar mais em seu lugar no mundo. Estamos entre o que deixou de ser e o que ainda não é.


De um lado, problemas políticos e econômicos produzidos globalmente devem ser solucionados localmente por governos que hoje não encarnam mais os antigos Estados-nação. De outro, uma hiperconectividade que pode dar, através das redes sociais, a sensação ilusória de ativismo e participação política, mas que funciona muitas vezes como mero desencargo de consciência. No meio, o tecido movediço que rege as relações incertas de nosso tempo e no qual, ainda assim, sobrevive a esperança.

Esta é a ideia central do novo livro de Zygmunt Bauman, Babel — Entre a incerteza e a esperança (Zahar), um diálogo com o jornalista e escritor italiano Ezio Mauro. Em entrevista, Bauman defende que não é a democracia que está em crise, mas o Estado nacional, incapaz frente ao poder das corporações e aos fluxos comerciais, financeiros e informacionais. Apesar do horizonte sombrio, o sociólogo afirma que “o que nos mantém vivos é a imortalidade da esperança". 

E aponta que construir o novo é o desafio que se impõe no presente.Leia trechos de Babel — Entre a incerteza e a esperança

Seu novo livro, “Babel", aborda a crise da democracia no mundo. Quais são as causas dessa crise? 
A chamada “crise da democracia" na era da globalização do poder deriva da crise da territorialidade do Estado nacional. Esse Estado foi proclamado como o modelo universal da coabitação humana, pela autonomia e o autogoverno. Hoje, existe uma discrepância entre o alcance global — extraterritorial — dos poderes que realmente importam para nossa vida e as políticas dos Estados, destinadas a confrontá-los, mas que estão confinadas às fronteiras territoriais. Os Estados que pretendem proteger seus residentes e defender seus interesses não podem mais cumprir suas promessas, pois não têm mais os poderes necessários para isso. E é nos Estados que, corretamente, mais se orgulham do seu espírito democrático e das suas instituições que a crise é erradamente traduzida como uma crise da democracia.

A crise da democracia afeta também a crença nos valores democráticos mais nobres, como a tolerância e o respeito às diferenças? 
A tolerância e o respeito às diferenças e a democracia são dois lados da mesma moeda, e seus destinos são inseparáveis. A crise de um é, simultaneamente, a crise do outro. Democracia sem tolerância e respeito pelo Outro é um oximoro, enquanto democracia com tolerância e respeito à diferença é um pleonasmo. Assista a Bauman: Democracia global

O senhor diz que os indivíduos se sentem vulneráveis, não se sentem representados politicamente e desconfiam do Estado. Qual a consequência dessa vulnerabilidade? 
Um serviço fundamental esperado do Estado era a redução dos desconfortos da vida. No entanto, ou esse serviço foi completamente abandonado pelo Estado ou ficou muito abaixo do nível adequado. Os desconfortos, então, se multiplicaram e se intensificaram pelos tormentos da incerteza e da humilhação trazidas pela sensação de inadequação pessoal. Esta última, o efeito de uma política que tornou os indivíduos os únicos responsáveis pelos seus resultados, particularmente os negativos e os desapontadores. Como coloca o ditado popular inglês, “cada um por si e o diabo fica por último". As pessoas pararam, então, de ver o Estado como um investimento seguro e confiável de suas esperanças.

O sentimento predominante no mundo contemporâneo parece ser a raiva. O espaço da tolerância e do respeito parece cada vez menor. Essa seria uma reação à sensação de vulnerabilidade? 
A vulnerabilidade é como nós nos sentimos após um processo prolongado de individualização forçada, privatização e “flexibilização" das nossas preocupações, das nossas posições na sociedade, dos direitos, dos deveres e das responsabilidades. O sedimento deste sentimento de vulnerabilidade é a incerteza, a ameaça constante à nossa autoestima. Nossas conquistas ao longo da vida se tornam frágeis, instáveis e não confiáveis, temporárias até segunda ordem. Esses medos tendem a ser difusos, desfocados e indefinidos, por essa razão ainda mais insuportáveis. E nos provocam raiva. Pelo menos um alívio parcial — a que somos levados a acreditar pelo canto da sereia de todo o tipo de demagogo interessado no capital político oferecido pela nossa incerteza, nosso medo e nossa raiva — pode ser oferecido pela descarga das nossas tensões e ansiedades sobre alvos específicos. Atualmente, os alvos preferidos são imigrantes e refugiados, aqueles estranhos que tornam vívida a fragilidade do nosso próprio destino. Por isso, estão aptos a ocuparem esse lugar. São lembretes da nossa miséria e da nossa impotência. Assista a Zygmunt Bauman: Identidade pessoal

O projeto da União Europeia foi uma tentativa de superação dos limites dos Estados nacionais, mas hoje está em crise, com ascensão da extrema-direita em todo o continente. O que houve? 
Cada Estado e a própria União Europeia são pressionados por duas forças contraditórias e inconciliáveis: de um lado, os poderes extraterritoriais que estão fora do seu alcance e, do outro, as demandas dos seus próprios cidadãos e eleitores. Nessas circunstâncias, nenhum dos dois lados fica totalmente satisfeito com o desempenho do governo e considera suas ações adequadas. E por isso não me admira que a visão dos próprios membros da União Europeia varie entre uma armadura de proteção contra pressões hostis e um agente de tais pressões.

O senhor aponta que vivemos um interregno, um tempo entre aquilo que não é mais e aquilo que não é ainda. Quais são as bases do futuro que devemos construir? 
A “base para esse futuro que devemos construir" reside precisamente no espaço “entre o que não é mais e aquilo que não é ainda". Não podemos continuar como antes, mas os novos caminhos ainda são, na melhor das hipóteses, rascunhos. Esse é o desafio do nosso tempo. Os tempos do interregno.