quinta-feira, 17 de novembro de 2011

CRESCE O NÚMERO DE CRIANÇAS QUE SÃO DEVOLVIDAS PELOS PAIS ADOTIVOS EM BELO HORIZONTE


Pela primeira vez, o órgão prepara levantamento de ocorrências do tipo, que deve ser divulgado em dezembro deste ano.

Cresce o número de crianças que são devolvidas pelos pais adotivos em Belo Horizonte. A afirmação é da coordenadora de orientação e fiscalização das entidades sociais da Vara Cível da Infância e da Juventude, Nádia Queiroz. Pela primeira vez, o órgão prepara levantamento de ocorrências do tipo, que deve ser divulgado em dezembro deste ano.

"Esses casos sempre foram raros. Mas percebemos um aumento significativo nesse último ano", explica Nádia. Com 20 anos de experiência na Vara, a psicóloga e coordenadora técnica Rosilene Miranda estima ter atendido mais de dez situações de devolução.

Muitos casos tramitam em sigilo pela Justiça, por isso, passam despercebidos pela sociedade, segundo a professora de sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Maria Lygia Quartim. "Pai adotivo querer devolver uma criança é mais comum do que se sabe", avalia.

Em Minas Gerais, o Tribunal de Justiça nunca tratou de destituição do poder familiar de pais adotivos, como afirma o presidente da comissão de defesa dos direitos da criança, adolescente, jovem e idoso da OAB-MG, Stanley Ramos.

Mas no Sul do país, um casal de Santa Catarina - seis anos após adotar dois irmãos - tentou devolver o mais velho, alegando problemas de relacionamento. Com isso, eles perderam a guarda do garoto, de 12 anos, e da menina, de dez, e tiveram que indenizar cada criança em R$ 40 mil.

Stanley Ramos diz ter ficado "estupefato" ao saber da atitude da família catarinense. "Eu mandaria prender. Isso é contra a humanidade", endossa. Ele explica que em casos semelhantes, os responsáveis poderiam responder a crime de abandono de incapaz ou por maus tratos.

A Justiça deveria ser mais rígida tanto com os pais adotivos que abandonam os filhos, quanto com os responsáveis que desistem da guarda, na avaliação da coordenadora do TJ Criança Abriga, Flávia Figueiredo.

Atualmente, a instituição abriga um menino e uma menina, de 4 anos, que foram devolvidos pelos pais responsáveis pela guarda deles, em menos de um ano. Ambas foram entregues aos prantos na instituição e, hoje, recebem acompanhamento psico-terapêutico. "O segundo acolhimento numa instituição é ainda mais traumático. Na cabeça da criança fica a ideia: ninguém gosta de mim", analisa.

Em um primeiro momento, a criança fica sob a guarda da família, geralmente por um ano. Nesse tempo, o termo de guarda pode ser revogado pela vontade dos pais ou por uma sentença do juiz, como explica a assistente social da Vara Cível da Infância e Juventude de BH, Lúcia Regina.

A pesquisadora Maria Lygia critica essa prática da guarda sem responsabilidade legal dos pais. "É um escândalo devolver depois de seis anos, mas depois de um ano não é crime devolver", ironiza.

Rosilene Miranda, psicóloga da Vara, afirma que são muitas as sequelas para as crianças que são abandonadas também pelos pais adotivos. "A criança vai ter mais dificuldade em criar vínculos, e perder a confiança em si mesma e nos outros". Além disso, ela reforça que a criança pode perder a única chance de ser adotada, já que a maior parte dos pretendentes à adoção deseja crianças de até três anos.

A maioria dos pais aponta como motivo de devolução a dificuldade de relacionamento com o menor. "Eles chegam a dizer que as crianças são muito teimosas e podem entrar em uma situação de risco", exemplifica Rosilene. E afirma que a Vara oferece sempre ajuda psico-social à família e que esclarece sobre o universo infanto-juvenil aos pais antes de firmar a guarda.

Brasil tem 4.856 pequenos cidadãos em busca de uma família

O problema é que esses pequenos brasileiros não se encaixam no perfil exigido pela maioria dos 27.478 candidatos a pais.

Eles gostam de pular corda, bater figurinhas e, principalmente, de jogar futebol. Jorge, de 13 anos, Gustavo, de 10, e Pedro (nomes fictícios), de 9, dominam com precisão as normas dessas e de outras brincadeiras. Mas nenhum dos garotos consegue explicar as regras da vida para que não tenham uma família como outras crianças. Ao serem questionados, os meninos abaixam a cabeça. A assistente social Susana Maia, diretora do Lar Marista, onde eles estão abrigados, lamenta a situação. “Os três já estão aqui há dois anos, sem passar por processo de adoção”.

Jorge, Gustavo e Pedro pertencem ao grupo de 4.856 crianças, no Brasil, que têm mínimas chances de encontrar uma nova família. O problema não está na falta de pais pretendentes. Na fila dos adotantes estão 27.478 pessoas, uma média de cinco interessadas para cada criança.

A solução numérica não funciona na prática porque grande parte dos menores não tem o perfil procurado pelos candidatos a pais. “O filho sonhado não pode ser negro, ter irmão ou idade superior a 2 anos ou ser soropositivo”, afirma a coordenadora da Política de Convivência Familiar e Comunitária da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República, Alice Bittencourt.

A cada aniversário da criança, diminui a probabilidade dela ser adotada. O Cadastro Nacional de Adoção do Conselho Nacional de Justiça revela que cerca de 20% dos pais desejam um filho com até 3 anos. Quando o menino ou a menina chega aos 4, as chances de ganhar um lar caem pela metade (9,96%). Mas as menores faixas de interesse se concentram entre os 6 e os 17 anos: 2,99% e 0,06%, respectivamente.

Também há uma preferência majoritária por crianças brancas. Mais de 90% dos pais em potencial querem um filho nesse perfil. Já os dispostos a acolher um negro representam quase um terço disso: 33,38%. Desejos bem distantes da realidade dos jovens à espera de uma família. Negros e pardos aptos à adoção são 3.146 (64%), enquanto o total de brancos é de 1.656 (34%). “Não conseguimos casar os números. Esbarramos no preconceito”, constata Alice.

A intenção dos pais pretendentes revela uma cultura que repudia também o sexo masculino. “A maioria quer uma menina, porque acha que é mais fácil de criar”, argumenta a diretora jurídica da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (Angaad), Silvana do Monte Moreira.

As preferências vêm da falta de informação sobre o universo infanto juvenil, diz a coordenadora técnica da Vara Cível da Infância e Juventude de Belo Horizonte, Rosilene Miranda. Ela avalia que os pais acreditam ser mais simples resolver, por exemplo, o desvio de caráter de um recém-nascido do que o de um garoto de 10 anos. “Os adultos têm medo das experiências já vividas pela criança”.

Silvana, da Angaad, ressalta que a educação de um menor sempre será um desafio. “A gente não diz que adotar significa entrar em um mundo cor-de-rosa. Mas mostramos como é bom enfrentar isso tudo para formar uma família com base no amor e no afeto”, diz a diretora, também mãe adotiva.

Amor vence a resistência dos pais

Moradores de São João del-Rei, no Campo das Vertentes, Weber Neder Issa, de 58 anos, e Raquel, de 38, também tinham preferências quando resolveram adotar um filho. “No começo, a gente queria um recém-nascido”, conta Raquel.

Mas depois de conhecer, pela internet, experiências bem-sucedidas de outras famílias e de participar de uma palestra sobre o assunto, o casal mudou de ideia. Conheceu C. e decidiu adotá-la.

Na época, a menina tinha 10 anos e vivia em um abrigo a 100 quilômetros de São João del-Rei. “Durante o estágio de convivência, todo fim de semana a gente fazia esse trajeto duas vezes, para levá-la e buscá-la”, recorda Raquel.

A mãe – que se deleita em falar das qualidades da filha, alegre e comunicativa – desmistifica a crença de que uma criança mais velha não se apega facilmente à família, por conta de experiências antigas. “Ela me abraça, beija. E até imita o jeito do Weber falar”, diz Raquel, que não viu entraves à maternidade na idade “avançada” de C., na cor parda da pele, na gagueira ou na leve paralisia facial que a menina tem.

Entre crianças e adolescentes aptos à adoção no Brasil, 1.090 apresentam problemas de saúde. O que não deveria ser um fator limitante para os futuros pais, diz a advogada Eni Coimbra, de 60 anos. Para ela, quem quer ser pai ou mãe deve estar disposto a amar sem restrições. “Filho não é igual a sapato. Se me calça bem, eu levo. Se não, deixo no abrigo”, exemplifica.

Há três anos, Eni conheceu Wellington. O menino, então com 7 anos, nunca havia frequentado a escola, não tinha noções básicas de higiene e apresentava apenas 2% da visão do olho direito. Em um primeiro momento, Eni e o marido se comprometeram a cuidar das necessidades urgentes da criança. “Mas após uma semana de convivência a gente já queria ficar com ele para sempre”, lembra. Hoje, o garoto estuda, recuperou 50% da visão e está a caminho de ter os dentes saudáveis.

Abrigos, o endereço dos "inadotáveis"

Meninos e meninas preteridos no cadastro de adoção são condenados a passar a vida dentro de instituições. Entretanto, a situação dos “inadotáveis” representa apenas uma parcela do problema do acolhimento em abrigos no Brasil, segundo o advogado especialista em direitos da criança Rubens Naves. Uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, encomendada pela Secretaria de Direitos Humanos (SDH) do Governo federal e divulgada no início do ano, mostra que 36.929 crianças e adolescentes estão institucionalizados no país.

Nem todos terão como destino uma família substituta. O menor só é registrado no Cadastro Nacional de Adoção (CNA) do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) depois que a destituição de poder dos pais biológicos for concluída.

Mas devido à morosidade dos processos judiciais e à falta de qualificação dos profissionais dos abrigos, esses jovens estão fadados a viver longe de um lar, explica a presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (Angaad), Bárbara Toledo.

“Há crianças que não recebem qualquer visita nos abrigos, mas também não têm possibilidade de sair de lá. Mesmo assim, em muitos casos, o processo de destituição do poder familiar nem começou”, alerta.

Segundo Bárbara, cabe aos gestores das casas-lares e aos juristas da varas cíveis da Infância e Juventude tentar acelerar esse trâmite. A agilidade evitaria que as crianças “envelheçam”, o que diminui as chances de adoção.

Mas o encaminhamento para uma nova família é a última alternativa prevista tanto na Lei Nacional de Adoção, sancionada em 2009, quanto no Estatuto da Criança e Adolescente (ECA). Os dois textos consideram ideal a permanência do menor com os parentes – se não for possível com os pais, tentativas devem ser feitas com avós, tios e primos. Apenas se o retorno à família biológica não der certo é que o pequeno deve ser preparado para adoção.

A lei de 2009 também determina que o tempo de institucionalização não deve exceder dois anos, salvo exceções. E que a cada seis meses a situação do abrigado seja reavaliada.

O objetivo é fazer com que a permanência nos abrigos seja, de fato, provisória. “O tempo da criança é outro, porque esses menores não podem esperar. Doem muito as sequelas do abandono e a sensação de não pertencer a ninguém”, analisa a coordenadora da Política de Convivência Familiar e Comunitária da SDH, Alice Bittencourt.

Mas, aos poucos, ações começam a acontecer para dar a esses menores chances de uma nova vida. Desde 2009, uma força-tarefa tenta resolver a situação de 4.730 mineiros institucionalizados. Em dois anos, o número de abrigados caiu para 3.004. “Do total, 1.478 voltaram para as famílias e 248 foram destinados à adoção”, diz Eliane Quaresma, coordenadora da Política Estadual Pró-Criança e Adolescente.

Grupos de apoio facilitam adoção e convivência 

Como leis não mudam uma cultura de imediato, agentes do governo, membros de ONGs e da sociedade civil se mobilizam para buscar alternativas para crianças e adolescentes que estão à espera de uma família.

Duas medidas a longo prazo são sugeridas por especialistas: a conscientização dos pais pretendentes nas Varas da Infância e Juventude e a participação deles em grupos de apoio à adoção.

Outra solução seria o apadrinhamento, quando adultos se tornam “responsáveis” pelos jovens abrigados e convivem com eles em determinadas situações. Geralmente, durante fins de semana, feriados e datas comemorativas.

No Brasil, existem mais de cem grupos de adoção, segundo a Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (Angaad). O Adote Legal, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, reúne, uma vez por mês, 30 pessoas interessadas em adotar um filho ou que já o fizeram. Nos encontros, são debatidos temas relacionados ao processo judicial e ao relacionamento com os menores.

Felicidade junto a irmãos de pele parda.

A professora Débora Cortezzi, de 39 anos, é uma das diretoras do Adote Legal. Mãe de Henrique, de 11 anos, e de Carlos, de 9, ela conta que junto com o marido, Marcos Luiz Costa, de 46, remou contra a maré: levou para casa irmãos, algo repudiado por 81,93% dos pais pretendentes cadastrados no CNJ.

Na época, o garoto mais velho estava com 5 anos. “Nem tenho mais vontade de ter um filho biológico. Não mudaria em nada minha família”, afirma a professora, mãe de meninos de pele parda.

A Secretaria de Direitos Humanos pretende montar um protocolo nacional com parâmetros mínimos para os grupos de adoção, como temas a serem tratados nas reuniões. “Os pais precisam conhecer a realidade que temos”, diz Alice Bittencourt. Quem quer uma criança branca, recém-nascida e sem problemas de saúde terá que esperar, em média, de quatro a seis anos por ela.

Diretora jurídica da Angaad, Silvana do Monte Moreira reforça a necessidade de uma mudança cultural. “Antes, a adoção servia para dar um filho a quem não tinha condições biológicas de gerar o seu. Hoje, a ideia é dar uma família à criança que dela realmente necessite”. Padrinhos por vocação

Quando chega o fim de semana, Laura, de 16 anos, se prepara para passar algumas horas longe do abrigo, na companhia da professora Gislene Barbosa, de 45 anos. Há seis anos, Gislene participa do programa de apadrinhamento do Centro de Voluntariado de Apoio ao Menor (Cevam). A iniciativa consiste em proporcionar um convívio familiar esporádico para crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos.

Enquanto os menores não podem ser acolhidos definitivamente em uma família, o apadrinhamento desponta como uma solução, diz a coordenadora técnica da Vara Cível da Infância e Juventude de Belo Horizonte, Rosilene Miranda. A convivência cumpre a função de trazer uma espécie de “exemplo” do adulto para o jovem. E proporciona um momento de individualidade dele. “No abrigo, tudo é de todo mundo. Mas a criança ou adolescente precisa ter algo só seu para construir a própria identidade”.

Sensibilizadas com a realidade desses “inadotáveis”, a juíza federal Vânila de Moraes e duas amigas fundaram a Associação Alegria, há seis anos, na tentativa de dar um lar a seis meninas. Hoje, as adolescentes entre 16 e 18 anos se consideram irmãs. Estudam em escolas diferentes, têm objetos pessoais e dividem o serviço da casa. “É como uma república”, diz Vânila.

Uma das moradoras é Tatiane Maria de Oliveira, de 18 anos. Ela cursa o 3º ano do Ensino Médio, trabalha desde os 16 anos e sonha em se mudar para a Inglaterra. Também se considera mais feliz do que muitas meninas da sua idade. “Com certeza sou mais. Muita gente tem uma vida mais difícil que a minha”.

Publicado em 19/09/2011 - Fonte: Jornal Hoje em Dia
http://www.recivil.com.br/news.asp?intNews=16587

DIVINÓPOLIS/MG SEDIA O 1º ENCONTRO ESTADUAL DE APOIO À ADOÇÃO DE MINAS GERAIS



Sou voluntária a muitos anos do GRUPO DE APOIO À ADOÇÃO DE VOLTA PRA CASA.


Este ano estamos sediando no próximo dia 25 de novembro de 2011 no auditório da Faculdade Pitágoras - unidade Divinópolis/MG o 1º Encontro de Apoio à Adoção em Minas Gerais. Marco histórico. Segue abaixo a PROGRAMAÇÃO dos palestrantes e temas a serem discutidos nesse encontro. 


Estamos organizando esse projeto com muito carinho e zelo, pois, acredito se cada um contribuir para o bem de todos o mundo com certeza se tornará melhor, mais humanizado.


 Eu estou fazendo minha parte e você?


 Fica meu convite a todos os interessados em participar. 



ESCRIÇÕES PELO EMAIL: devoltapracasa2010@gmail.com

INFORMAÇÕES PELO TELEFONE: (37)3222.4410


OBS.: O participante receberá ao final  um certificado que será válido nos cursos (Direito, Assistência Social e Psicologia) como matéria complementar para a graduação.

Abraços,
Roberta Carrilho



Realização:

  Encontro Estadual de Apoio à Adoção
do Estado de Minas Gerais

Local: Auditório da Faculdade Pitágoras - Rua Santos Dumont, 1.001 - Bairro do Carmo – Divinópolis/MG.

Objetivo: orientação e capacitação de habilitandos, habilitados, adotantes, adotados e demais pessoas interessadas no instituto da adoção, proporcionando uma reflexão, de forma a fomentar a nova cultura da adoção, além de outras matérias de interesse comum, no âmbito da nova cultura de adoção, promovendo o fortalecimento dos grupos de apoio à adoção no Estado de Minas Gerais.

Público Alvo: Grupos de Apoio à Adoção, Representantes do Judiciário, Ministério Público e Defensoria Pública, Equipes Técnicas, Dirigentes de Abrigos, Representantes e Servidores do Poder Executivo, Sociedade Civil organizada ou não.

Público esperado: 500 pessoas (e famílias)




Programação:


Dia 25/11/2011, Sexta feira:

Entrega de credenciais: 8h30min as 9h00min

Abertura dos trabalhos no auditório da Faculdade Pitágoras às 9 horas:


Palavra da Presidente do Grupo de Apoio a Adoção ¨De volta pra Casa¨- Divinópolis - Sandra Amaral


Palestra de Abertura: Responsabilidade da Família. - Magno Malta: Senador da Republica, Presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa da família brasileira.


Lançamento da Frente Parlamentar de Apoio à Adoção em Minas Gerais:
Deputada Estadual Luzia Ferreira


O paradoxo da necessidade da busca ativa e a realidade dos abrigos fechados - Dr. Sávio Bittencourt: Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, Fundador do Grupo de Apoio a Adoção Quintal da Casa de Ana-Niterói-RJ e Presidente da ABRAMPA (Associação Brasileira do Ministério Público de Meio Ambiente).


Almoço livre escolha: 12h15min

Retorno: 13h15min


Panorama Nacional da Convivência Familiar x Abrigamento: Alice Bittencourt: Coordenadora Geral da Política de Convivência Familiar e Comunitária na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

A importância dos Grupos de Apoio à Adoção para Garantia do Direito a Convivência Familiar: Bárbara Toledo: Formada em Direito pela Universidade Federal Fluminense; Mestre em Direito pela Universidade Estácio de Sá; Pós-Graduada em Metodologia do Ensino Superior pela Fundação Dom André Arcoverde, em Direito Notarial e Registral pela Pontifícia Universidade Católica em Belo Horizonte/MG, e em Direito Especial da Criança e do Adolescente pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). É a Fundadora da Associação Civil Quintal da Casa de Ana que apoia à Adoção e o Direito à Convivência Familiar e Comunitária; e atualmente é a Presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (ANGAAD).


Nova lei de Adoção - Silvânia Moreira: advogada, coordenadora de Grupos de Apoio à Adoção, moderadora do Grupo Virtual de Apoio à Adoção - Adoção, um Exemplo de Amor, Diretora de Assuntos Jurídicos da ANGAAD - Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção, apresentadora do programa: Adoção, um Exemplo de Amor exibido semanalmente pela TV MUNDI - www.tvmundi.com.br.


Coffee Break: 15h15min

Retorno 15h30min:


Adoção Especial e Tardia - Fabiana Gadelha: Advogada, especialista em direito público, consultora do Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA, da Secretaria de Direitos Humanos – Presidência da República, Diretora Jurídica do Aconchego – Convivência Familiar e Comunitária, Vice-presidente do DFDOWN e Coordenadora Jurídica da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down e mãe adotiva.


Depoimento - Junya Sant Anna: Representante Estadual da Associação de Adoção Italiana Senza Frontiere (sem fronteiras) e mãe adotiva, adoção internacional e inter-racial.

Debate: 16h30min às 17h30min:

18h00min: Encerramento e escolha da sede do II Encontro Estadual de Apoio à Adoção do Estado de Minas Gerais.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

PERDAS NECESSÁRIAS por Judith Viorst

Por mim e pela minha filha, Maria Eduarda Carrilho
Roberta Carrilho



Quando pensamos em perda, pensamos na morte das pessoas que amamos. Mas a perda é muito mais abrangente em nossa vida. Pois perdemos, não só pela morte, mas também por abandonar e ser abandonado, por mudar e deixar coisas para trás e seguir nosso caminho. E nossas perdas incluem não apenas separações e partidas dos que amamos, mas também a perda consciente ou inconsciente de sonhos românticos, expectativas impossíveis, ilusões de liberdade e poder, ilusões de segurança – e a perda do nosso próprio eu jovem, ou eu se julgava para sempre imune às rugas, invulnerável e imortal. Um tanto mais velha, examinei essas perdas. 

Essas perdas de uma vida inteira. 

Essas perdas necessárias. 

As perdas que enfrentamos quando nos vemos face a face com o fato do qual não podemos fugir... que minhas filhas vão me deixar, e que eu vou deixa-las; que o amor das minhas filhas jamais será só meu; que as dores que nos machucam nem sempre desapareceram com um beijo; que estamos no mundo essencialmente por nossa conta; que teremos de aceitar – nos outros e em nós mesmos – um misto de amor e ódio, de bem e de mal; que, por mais sábia, bela e encantadora que seja, nenhuma garota pode se casar com o pai quando crescer; que nossas opções são limitadas pela anatomia e pela culpa; que há falhas em qualquer relacionamento humano; que nosso status neste planeta é implacavelmente efêmero; e que somos completamente incapazes de oferecer a nós mesmos, ou aos que amamos qualquer forma de proteção – proteção contra o perigo e contra a dor, contra as marcas do tempo, contra a velhice, contra a morte, proteção contra nossas perdas necessárias.

Essas perdas são parte da vida – universais, inevitáveis, inexoráveis. E essas perdas são necessárias porque para crescer temos de perder, abandonar e desistir.

Pois a estrada do desenvolvimento humano é pavimentada com renúncia. Durante toda a vida crescemos desistindo. Abrimos mão de alguns dos nossos mais profundos vínculos com outras pessoas. De certas partes muito queridas de nós mesmos. Precisamos enfrentar, nos sonhos que sonhamos, bem como nos nossos relacionamentos íntimos, tudo o que jamais teremos e tudo o que jamais seremos. Investimentos emotivos nos fazem vulneráveis a perdas. E às vezes, por mais inteligente que sejamos, temos de perder.

Perder suga a gente. Em qualquer idade, temos de concordar: perder é difícil e doloroso. Consideremos também o ponto de vista de que só através de nossas perdas nos tornamos seres humanos plenamente desenvolvidos.

Para compreender nossas vidas precisamos compreender como enfrentamos nossas perdas. A ideia de que as pessoas que somos e a vida que vivemos são determinadas, para o melhor e para o pior, pelas nossas experiências de perda. A conscientização ajuda, que reconhecer o que estamos fazendo ajuda, e que a auto-compreensão pode ampliar o campo das nossas escolhas e possibilidades.


Judith Viorst


Judith Viorst. Esta autora e seu livro PERDAS NECESSÁRIAS foram muito significativos para mim principalmente quando passei por num momento de perdas. Eu tinha perdido a presença e convivência com uma pessoa que eu amo com a alma. Sem explicação. Eu não conseguia entender os motivos de toda aquela dor dilacerante rasgando meu ser. Rezava para suportar... e nisto aconteceu que eu encontrei esse livro. E foi assim por acaso que eu conheci o livro: "Perdas Necessárias" - Judith Viorst Foi numa daquelas visitas intermináveis que faço às livrarias. O título me chamou à atenção! Eu pensei racionalmente:- Como uma PERDA pode ser necessária? Resolvi comprá-lo depois de ler a aba e algumas páginas. Durante a leitura comecei a sentir emoções intensas que me perturbavam o íntimo. Chorava, pensava, chorava de novo, não comia, pensava, chorava, não dormia... enfim, estava ao mesmo tempo confusa, receiosa e fascinada. Louco isso, né! Deve ser coisa de mulher como dizem os homens na sua simplicidade incauta. Aí resolvi levar a questão para dentro do consultório. Naquela época e até abril deste ano, eu fazia terapia com a Dra. Claudia Rabello
Ter encontrado esta Psicóloga com "P" maiúsculo foi um presente de Deus. Ela e eu estabelecemos uma sintonia de confiança desde o princípio, depois fomos evoluindo e mudou para admiração e respeito pelo seu profissionalismo e muito mais pela sua humanidade. Sentimentos raros e preciosos hoje em dia em profissionais liberais que só visam lucro, e não o que se propõem quando estudam ajudar o outro a entender a si mesmo e achar a solução. Não sou contra a pessoa ganhar dinheiro, claro que não! Ela estudou, paga aluguel, etc e tem que ganhar a vida. Mas não pode ser só isso. Ou visando só isso. A minha relação com ela entre paciente e terapeuta se baseou não na troca, escambo monetário. Se baseou em troca de conhecimentos e acolhimentos, posso me atrever a dizer amor. E, sempre que surgia o assunto PERDA eu comentava sobre o livro da Judith Viorst e dizia a ela: - Dra. Claudia eu não consigo avançar... a cada página me traz uma exaustão emocional que chego no meu limite humano. Demorei muitos, muitos e muitos meses até conseguir termina-lo de lelo. Foi o primeiro e o único livro entre muitos que li e leio que eu tive esta sensação. PERDAS NECESSÁRIAS de Judith Viorst. É um finquete dentro de si próprio sem reservas ou boias... tem que nadar e continuar respirando... intenso!
Por fim, decidi a transcrevê-lo no meu blog para que outras pessoas pudessem ter acesso e se fortalecerem com o conteúdo como eu. PERDER MUITAS VEZES É NECESSÁRIO. Segue um trecho do mesmo e abaixo os links de alguns capítulos transcritos do meu blog. Abraços, Roberta Carrilho



LEIA TAMBÉM

O ALTO PREÇO DA SEPARAÇÃO - PERDAS NECESSÁRIAS por Judith Viorst http://robertacarrilho-div.blogspot.com.br/2011/10/o-alto-preco-da-separacao-perdas.html








O PROIBIDO E O IMPOSSÍVEL - PERDAS NECESSÁRIAS por Judith Viorst
http://robertacarrilho-div.blogspot.com.br/2012/04/o-proibido-e-o-impossivel-perdas.html[


TRIÂNGULOS APAIXONADOS - PERDAS NECESSÁRIAS por Judith Viorst


ANATOMIA E DESTINO - PERDAS NECESSÁRIAS por Judith Viorst


TÃO BOM QUANTO A CULPA - PERDAS NECESSÁRIAS por Judith Viorst




Ainda faltam alguns capítulos... 


O ALTO PREÇO DA SEPARAÇÃO - PERDAS NECESSÁRIAS por Judith Viorst)

Por mim e pela minha filha, Maria Eduarda Carrilho
Roberta Carrilho







O Eu Separado
“Nenhuma dor é tão
mortal quanto a da luta
para sermos nós mesmos".
Ievgêni Vinokurov

O ALTO PREÇO DA SEPARAÇÃO: 

Começamos a vida com uma perda. Somos lançados para fora do útero sem um apartamento, cartão de crédito, um emprego ou um carro. Somos bebês que mamam, choram, se agarram indefesos. Nossa mãe se interpõe entre nós e o mundo, protegendo-nos contra a ansiedade arrasadora. Não teremos nenhuma necessidade maior do que a dos cuidados de nossa mãe.

Bebês precisam de mães. Às vezes, advogados, donas-de-casa, pilotos, escritores e eletricistas também precisam de mães. Nos primeiros anos da nossa vida entramos num processo de desistir de tudo aquilo que devemos abandonar para nos tornamos seres à parte. Mas até aprendermos a tolerar nossa separação física e psicológica, a necessidade da presença de nossa mãe – sua presença literal e real – é absoluta.

Pois é difícil tornar-se um ser à parte, separar-se literalmente e emocionalmente, ser capaz de exteriormente defender-se sozinho e interiormente sentir que se está separado. Temos de suportar perdas, embora possam ser balanceadas pelos ganhos, quando nos afastamos do corpo e do ser de nossa mãe. Mas se nossa mãe nos deixa – quando somos muito novos, despreparados, assustados, desamparados -, o preço desse abandono, o preço dessa perda, o preço dessa separação pode ser alto demais.

Há tempo certo para nos separarmos de nossa mãe.

Porém, a não ser que estejamos preparados para a separação – a não ser que estejamos prontos para deixa-la e ser deixados por ela -, qualquer coisa é melhor do que a separação.

Um garotinho está numa cama de hospital. Assustado e com muita dor. Quarenta por cento do pequeno corpo está coberto de queimaduras. Alguém o encharcou com álcool e então, por incrível que pareça, acendeu um fósforo.

Ele chora pela mãe.

A mãe foi quem o queimou.

Aparentemente, não importa o tipo de mãe que uma criança perde, ou o quanto pode ser perigoso continuar na presença dela. Não importasse ela machuca ou abraça. A separação da mãe é pior do que estar nos braços dela quando as bombas estão explodindo. A separação da mãe é às vezes pior do que ficar com ela quando ela é a própria bomba.

Pois a presença da mãe – da nossa mãe – representa segurança. O primeiro terror que conhecemos é o medo de perdê-la. “Não existe nada semelhante a um bebê”, escreve o pediatra e psicanalista D. W. Winnicott, observando que na verdade os bebês não podem existir sem suas mães. A ansiedade da separação é provocada pela verdade literal de que, sem alguém para tomar conta de nós, morremos.

É claro que o pai pode ser esse alguém. Mas a pessoa encarregada de cuidar do bebê da qual falamos é nossa mãe, de quem podemos suportar qualquer coisa, menos o abandono.

Contudo, somos abandonados pela mãe. Ela nos deixa antes de sermos capazes de entender que vai voltar. Ela nos abandona para trabalhar, para fazer compras, para sair de férias, para ter outro filho – ou simplesmente estando ausente quando precisamos dela. Ela nos abandona para ter uma vida à parte, a sua vida – e precisamos aprender a ter a nossa vida particular também. Mas, nesse ínterim, o que fazemos quando precisamos de nossa mãe – precisamos de nossa mãe! – e ela não está presente?

O que fazemos, sem dúvida, é sobreviver. É claro que sobrevivemos às ausências temporárias. Mas essas ausências nos ensinam um temor que pode nos marcar para toda a vida. E quando nos primeiros anos, especialmente nos seis primeiros anos de vida, somos privados constantemente da mãe que precisamos, e cuja presença desejamos, podemos ser tão prejudicados emocionalmente quanto o garoto encharcado com álcool e queimado. Na verdade, essa privação nos primeiros anos de vida tem sido comparada a uma queimadura ou a um ferimento extenso. A dor é inimaginável. A cicatrização é difícil e lenta. O prejuízo, embora não fatal, pode ser permanente.

Selena enfrenta esse dano todas as manhãs quando os filhos saem para a escola e o marido para o trabalho e, ouvindo a porta do apartamento fechar-se pela última vez; pensa: “Sinto-me sozinha, abandonada, petrificada. Preciso de horas para me refazer. O que acontecerá se eles não voltarem?”

No fim dos anos 30, na Alemanha, quando Selena tinha seis meses, sua mãe começou a luta para sobreviver, saindo todas as manhãs para a fila de alimentos e para vencer a burocracia que cada vez mais dificultava a vida dos judeus. Por uma desesperadora necessidade, Selena ficava sozinha, com uma mamadeira, presa no berço – e, se chorava, suas lágrimas já estavam secas quando, algumas horas depois, a mãe voltava para casa.

Todos os que as conheciam concordavam em dizer que Selena era extremamente boa- uma criança tranquila, sem exigências, de bom gênio, sem problemas, uma criança alegre. E quem a vê agora certamente pensa estar vendo um espírito feliz e brilhante, não marcado por experiências que certamente foram de perda dolorosa.

Mas Selena foi marcada.

Selena é sujeita a crise de depressão. Tem horror ao desconhecido. “Não gosto de aventuras. Não gosto de nada novo”. Diz que suas mais antigas lembranças são de angústia, imaginando o que iria acontecer em seguida. “Tenho medo”, diz ela, “de tudo o que não é familiar para mim.”

Tem medo também de muita responsabilidade: “Gostaria que alguém tomasse conta de mim o tempo todo”. E, embora desempenhando adequadamente o papel de esposa e mãe, arranjou também – no marido, forte e confiável, e em vários amigos mais velhos um substituto do cuidado materno.

As mulheres em geral invejam Selena. Ela é espirituosa, encantadora e cheia de calor humano. Sabe fazer bolos, costurar, gosta de música, gosta de rir. É membro da Phi Beta Kappa – Sociedade de honra nacional, fundada em 1776, cujos membros são escolhidos, como sócios vitalícios, entre os universitários do último ano com destacado desempenho acadêmico – tem dois diplomas de Master, leciona em meio período. E, com seu corpo bem formado, enormes olhos castanhos e bela estrutura facial.

Com a diferença de quem com quase cinquenta anos, Selena continua a ser uma criança, menos uma mulher do que menina. E, finalmente, identificou aquilo que descreve como “algo que me acorda todas as manhãs de minha vida com um gosto horrível na boca e dores na barriga”.

“É zanga”, diz ela, “muita zanga. Acho que me sinto enganada.”

A ideia não é aceitável para Selena. Por que simplesmente não dá graças por estar viv? Observa que seis milhões de judeus morreram, e ela, tudo o que sofreu foi a ausência da mãe. O dano, diz ela, embora permanente, não é fatal.

Somente nas últimas quatro décadas, nos anos seguintes ao nascimento de Selena, começou a ser dada a devida atenção ao alto preço da perda de mãe, ao sofrimento imediato e às consequências futuras das separações, mesmo de curto prazo. A criança, longe da mãe, pode apresentar reações que perduram até muito tempo depois de estarem juntas novamente – problemas de alimentação e de sono, perda do controle da bexiga e dos intestinos, e até diminuição do número de palavras que usa. Além disso, aos seis meses pode se tornar, não apenas tristonha e manhosa, mas gravemente deprimida. E, além disso tudo, a sensação dolorosa conhecida como ansiedade da separação inclui tanto o medo – quando a mãe se ausenta- dos perigos que terá de enfrentar sem ela, quanto o medo – quando estão novamente juntas – de perdê-la outra vez.

Conheço intimamente alguns desses sintomas e alguns desses temores, pois surgiram depois da minha internação no hospital – quando tinha quatro anos – por três meses, praticamente três meses sem mãe, porque naquele tempo os hospitais restringiam rigorosamente as visitas. Anos depois de estar curada, sofri os efeitos da hospitalização. E entre as manifestações da minha ansiedade da separação, surgiu o hábito novo – que continuou até parte da minha adolescência – do sonambulismo.

Um exemplo: numa suave noite de outubro, quando eu tinha seis anos e meus pais – para grande tristeza minha – haviam saído, deixei a cama sem acordar. Fui até a sala, passei pela baby-sister, que estava cochilando, abri a porta e saí de casa. E então, profundamente adormecida, caminhei até a esquina e atravessei o cruzamento movimentado, chegando finalmente ao destino da minha jornada sonâmbula – o corpo de bombeiros.

- O que você quer garotinha? – perguntou um bombeiro atônito mas extremamente carinhoso, procurando não me assustar para que não acordasse.

Contam que, sempre dormindo, eu respondi, alto e bom som, sem hesitar:

- Quero que os bombeiros encontrem minha mamãe.

Uma criança de seis anos pode desejar desesperadamente a presença da mãe.

Uma criança de seis meses pode também desejar desesperadamente a presença da mãe.

Pois, mais ou menos aos seis meses, a criança já pode formar uma imagem mental da mãe ausente. Lembra-se dela e a deseja especificamente, e a ausência provoca sofrimento. E dominada por necessidades insistentes que só a mãe pode satisfazer, sente-se profundamente desamparada e rejeitada. Quanto mais nova a criança, menor é o espaço de tempo – uma vez que esteja já ligada à mãe – em que a ausência é sentida como perda permanente. E embora os cuidados de um substituto a ajudem a tolerar as separações diárias, só aos três anos, gradualmente, começa a compreender que a mãe ausente está viva e intata em outro lugar qualquer – e que vai voltar para ela.

Acontece que a espera pode parecer interminável – pode parecer eterna. 

Pois devemos lembrar que o tempo se acelera com os anos, e que houve uma fase em nossa vida em que medimos o tempo de modo diferente, que então uma hora era um dia, um dia era um mês e um mês era sem dúvida uma eternidade. Não admira que, como crianças, lamentemos a ausência de nossa mãe do mesmo modo que, como adultos, lamentamos nossos mortos. Não admira que, quando uma criança é separada da mãe: “a frustação e a saudade podem leva-la a uma dor desesperada.”

A ausência traz desespero ao coração, e não um aumento do amor.

Na verdade, a ausência produz uma sequência típica de respostas: protesto, desespero, e finalmente alheamento. A criança afastada da mãe e levada para um lugar estranho, sem dúvidas achará a nova vida intolerável. Ela grita, chora, se agita. Protesta porque tem esperança, mas depois de algum tempo, vendo que a mãe não vem... e não vem... o protesto se transforma em desespero, em um estado de ansiedade muda e controlada que pode abrigar um sofrimento indizível. Certas crianças começam apresentar sintomas às vezes imperceptíveis para os adultos a sua volta, pensam que é uma mania, um ‘tic’ da criança, como por exemplo, ficar movimentando freneticamente os braços ou as mãos em um só movimento, com olhos fixos, alheias ao mundo. Entram num mundo inacessível ao adulto, ficam assim se movimentando até exaustão. É uma forma de gastar energia acumulada de sofrimento intenso que ela sente e não sabe explicar. Ela sofre e ninguém percebe que ela está desesperada sentindo falta da mãe. O cheiro, a voz que ela ficou ligada por nove meses. A criança sofre profundamente. É uma dor intensa quando há separação entre ela e sua mãe. Os estímulos externos a fazem esquecer temporariamente esta dor, sorri, brinca, ri, faz gracinhas, mas no íntimo ela quer saber intensamente: onde está a minha mãe?.

Vejamos a descrição feita de Patrick por Anna Freud, três anos e dois meses, que, durante a Segunda Guerra, foi levado para uma creche em Hampstead, Inglaterra e que:

“Garantia a si mesmo e a quem quisesse ouvir, com a maior confiança, que a mãe iria busca-lo, que ela o vestiria com sobretudo e o levaria para casa... Mas tarde aumentou a lista das peças de roupa que a mãe ia vestir nele: ‘Ela vai pôr meu sobretudo e minha calça, ela vai fechar o zíper, e pôr na minha cabeça meu chapéu de duende’. Quando a repetição dessa fórmula ficou monótona e infindável, alguém perguntou se ele não podia parar de dizer sempre a mesma coisa... Ele parou de repetir a fórmula em voz alta, mas o movimento dos seus lábios mostrava que continuava a repeti-la. Ao mesmo tempo, as palavras foram substituídas por gestos que mostravam a posição do chapéu de duende, o sobretudo imaginário sendo vestido, o zíper sendo fechado, etc... Enquanto as outras crianças brincavam com os brinquedos, jogos, faziam música, etc., Patrick, completamente desinteressado, ficava num canto movendo as mãos e os lábios com uma expressão profundamente trágica.”

A necessidade da mãe e tão poderosa que a maioria das crianças desiste do desespero e procura substitutos maternos. Considerando essa necessidade, seria lógico pensar que, quando a mãe perdida finalmente reaparece, a criança vai se atirar alegremente nos seus braços.

Mas não é o que acontece.

Surpreendentemente, a maioria das crianças – especialmente com menos de três anos – pode receber a mãe com frieza, tratando-a com uma atitude distante e apática que quase parece dizer: “Nunca vi esta senhora na minha vida”. É o que chamamos de alheamento – o aprisionamento de todo sentimento, enfrentando a perda de vários modos. Ela castiga a pessoa por ter partido. Serve como disfarce para a raiva, pois o ódio intenso e violento é uma das principais respostas ao abandono. E pode também ser uma defesa – que pode durar horas, dias ou uma vida inteira -, uma defesa contra a agonia de amar outra vez e perder outra vez.

A ausência congela o coração, não aumento o amor.

E se essa ausência for, na verdade, de qualquer papel estável do pai ou da mãe, se a infância é uma série de separações, o que vamos fazer? A psicanalista Selma Fraiberg descreve a atitude de um rapaz de dezesseis anos que entrou com um processo em Alameda County, pedindo indenização de meio milhão de dólares por ter sido colocado em dezesseis casas diferentes, durante seus dezesseis anos. Exatamente qual o dano que ele está alegando? Ele diz que “é como uma cicatriz no cérebro”.

Separações graves no começo da vida deixam cicatrizes emocionais no cérebro porque atacam a conexão humana essencial: o elo mãe-filho que nos ensina que somos dignos de ser amados. O elo mãe-filho que nos ensina a amar. Não podemos nos tornar seres humanos completos – na verdade, é difícil tornar-se um ser humano sem o apoio dessa primeira ligação.

Contudo, algumas argumentam que a necessidade que sentimos de outras pessoas não é um instinto primário, que o amor não passa de um glorioso efeito colateral. O ponto de vista freudiano clássico diz que os bebês encontram, na experiência da alimentação, um alívio para a fome e para outras tensões orais e que, com a repetição do ato de mamar e beber aos goles e da doce saciedade, começam a equacionar satisfação com contato humano. Nos primeiros anos de vida, uma refeição é uma refeição, e gratificação é gratificação. Fontes permutáveis podem satisfazer a todas as necessidades. Com o tempo, a pessoa – a mãe – torna-se tão importante quanto a coisa – a satisfação física. Mas o amor pela mãe começa com o que Anna Freud chama de “amor estomacal”. O amor pela mãe, segundo esta teoria, é um gosto adquirido.

Existe um ponto de vista alternativo, segundo o qual, a necessidade de uma conexão humana é fundamental. Argumenta que somos programados para amar, desde o princípio. “O amor pelos outros aparece”, escreveu o psicoterapeuta Ian Suttie há cinquenta anos, “simultaneamente com o reconhecimento da sua existência”. Em outras palavras, amamos assim que podemos distinguir um “você” separado e um “eu”. O amor é a nossa tentativa de mitigar o terror e o isolamento dessa separação.

O mais conhecido defensor da teoria de que a necessidade da mãe é inata é o psicanalista britânico John Bowlby, o qual diz que os bebês – como os bezerros, os filhotes de patos e de ovelhas e os jovens chimpanzés – comportam-se de modo a estar sempre perto da mãe – A isso ele chama de “comportamento de anexação”, a função de proteger do perigo. Permanecemos perto da mãe, o bebê chimpanzé acha-se protegido contra os predadores que podem mata-lo. Permanecendo perto da mãe, o bebê humano encontra também proteção contra os perigos.

Admite-se que, de modo geral, aos seis ou oito meses o bebê formou uma anexação específica com a mãe. É então que nós todos, pela primeira vez, nos apaixonamos. E seja ou não esse amor ligado à necessidade fundamental de uma conexão humana, como acredito que seja, possui uma intensidade que nos torna extremamente vulneráveis à perda ou até mesmo à ameaça de perda- da pessoa amada.

E se, como estou convencida, uma conexão específica formada nos primeiros meses é vitalmente importante para um desenvolvimento saudável, o preço da quebra do elo crucial – o custo da separação – pode ser muito alto.

O custo da separação é alto quando uma criança de seis meses é deixada sozinha longe da mãe por muito tempo, ou levada de um lar adotivo para outro, ou ainda, deixada num creche em tempo integral – até mesmo na creche de Anna Freud – por uma mãe que promete voltar (voltará?). O preço da separação é alto em situações familiares normais, quando um divórcio, uma hospitalização, uma alteração geográfica ou emocional fragmenta a conexão da criança com a mãe.

O preço da separação pode também ser muito alto quando as mães trabalham não encontram quem tome conta dos filhos ou não podem pagar esse serviço – e mais da metade das mães com filhos de menos de seis anos atualmente trabalha fora! O movimento feminista e a simples necessidade econômica está lançando milhares de mulheres no mercado de trabalho. Mas a pergunta: “O que vou fazer com meus filhos?”, exige resposta melhor do que a resposta dos centros de cuidados infantis de vinte e quatro horas.

“Nos anos em que o bebê e os pais formam os primeiros contatos humanos duráveis”, escreve Selmma Fraiberg, “quando amor, confiança, alegria e auto-avaliação emergem através do amor profícuo dos companheiros humanos, milhões de crianças em nosso país podem estar aprendendo... nos nossos bancos de bebês... que todos os adultos são permutáveis, que o amor é caprichoso, que ligações humanas podem ser investimentos perigosos, e que o amor deve ser reservado para a própria pessoa a serviço da sobrevivência.”
O preço da separação é quase sempre muito alto.

Naturalmente, tem de haver separações nos primeiros anos de vida. E sem dúvida, produzirão tristeza e dor. Mas a maioria das separações normais, dentro do contexto de um relacionamento afetuoso e estável, dificilmente deixará cicatrizes no cérebro. E é certo que mães que trabalham podem estabelecer um relacionamento amoroso, confiante e humano com seus filhos.

Mas quando a separação põe em perigo aquela ligação primeira, torna-se difícil criar confiança, segurança, adquirir a convicção de que durante a nossa vida encontraremos – e merecemos encontrar – pessoas que satisfaçam nossas necessidades. E quando as primeiras conexões são instáveis ou desfeitas, ou mesmo prejudicadas, podemos transferir a experiência e as respostas a ela para aquilo que esperamos dos nossos amigos, nossos filhos, nosso marido, até para nossos sócios comerciais.

Esperando o abandono, ficamos desesperados: “Não me deixe; sem você não sou nada, sem você eu morro!”.

Esperando a traição, procuramos cada falha, cada lapso: “Está vendo? Eu deveria saber que não podia confiar em você”.

Esperando uma recusa, fazemos exigências excessivas e agressivas, com fúria antecipada por saber que não serão atendidas.

Esperando o desapontamento, procuramos garantir que, mais cedo ou mais tarde, seremos desapontados.

Temendo a separação, estabelecemos o que Bowlby chama de conexões iradas e ansiosas. Afastando os que amamos com nossa dependência incômoda. Afastando os que amamos com nossas exigências excessivas. Com medo da separação, repetimos sem lembrar nossa história, impondo novos cenários, novos atores e uma nova produção para nosso passado esquecido, mas ainda tão poderoso.

Pois não estamos sugerindo que podemos lembrar conscientemente experiências da primeira infância, se, por lembrar, queremos dizer refazer a imagem da mãe nos deixando, ou de estar sozinho num berço, ou numa creche aonde não se tem a presença dela, nada e ninguém conseguem substituir, nem mesmo o pai, os avós etc. Nada pode substituir uma mãe para uma criança, nada! Quarenta anos depois, uma porta se fecha com violência, e a mulher é envolvida por ondas de terror primitivo. Essa ansiedade é a sua “lembrança” da perda.
A perda dá origem à ansiedade quando é iminente ou considerada temporária. A ansiedade contém as sementes da esperança. Mas quando a perda parece permanente, a ansiedade – protesto – transforma-se em depressão – desespero – e não só nos sentimos sozinhos, como tristes e responsáveis (ela se foi por minha culpa, por minha causa), sem esperanças (nada posso fazer para trazê-la de volta), desamados (“alguma coisa em mim me faz indigno de ser amado”) e desesperados (“de agora em diante vou me sentir assim para sempre”). 

Estudos demonstram que as perdas na primeira infância nos tornam mais sensíveis às perdas que sofreremos mais tarde. Assim, no meio da vida, nossa resposta à perda de uma pessoa da família, a um divórcio, à perda de um emprego, podem ser causas de depressão grave – a resposta daquela criança desamparada, desesperançada e zangada.

A ansiedade é dolorosa. A decepção é dolorosa. Talvez seja mais seguro não sofrer a perda. E enquanto na verdade não possamos evitar uma morte ou um divórcio – ou evitar que nossa mãe nos abandone -, podemos criar estratégias de defesa contra a dor da separação.

A indiferença emotiva é uma dessas defesas. Não podemos perder uma pessoa amada, se não amarmos. A criança que quer a mãe e cuja mãe nunca está presente pode aprender que amar e precisar é por demais doloroso. E ela poderá, nos seus relacionamentos futuros, pedir e dar muito pouco, investir praticamente nada, e tornar-se indiferente- como uma rocha – porque “uma rocha”, como nos diz a canção dos anos 60, “Não sente dor. E uma ilha jamais chora”.

Outra defesa contra a perda pode ser a necessidade compulsiva de tomar conta de outras pessoas. Ao invés de sofrer, ajudamos os que sofrem, E por meio das nossas bondosas ministrações, aliviamos nossa antiga sensação de desamparo e nos identificamos com aqueles de quem cuidamos tão bem.

A terceira forma de defesa é nossa autonomia prematura. Proclamamos nossa independência cedo demais. Aprendemos muito cedo a não permitir que nossa sobrevivência dependa da ajuda ou do amor de pessoa alguma. Vestimos a criança desamparada com a armadura rígida do adulto autoconfiante.

Essas perdas que estudamos – essas separações prematuras da primeira infância – podem desviar nossas expectativas e nossas respostas, podem desviar nosso modo de enfrentar futuras perdas necessárias das nossas vidas. No livro extraordinário de Marilynne Robinson, Housekeeping, a heroína desolada medita sobre o poder da perda, lembrando: “Quando minha mãe me fazia esperar por ela, estabelecia em mim o hábito da espera e da expectativa, que torna cada momento presente mais significativo do que ele não contém”.

A ausência, ela nos faz lembrar, pode se tornar “gigantesca e múltipla”.

A perda pode conviver conosco durante toda a nossa vida.




Judith Viorst



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