sexta-feira, 27 de julho de 2018

ANIVERSÁRIO DA MINHA FILHA ... MARIA EDUARDA CARRILHO (ESTOU MUITO TRISTE COM O COMPORTAMENTO DELA) :'(

Apesar da decepção e da dor no meu coração, hoje é aniversário da filha que eu mais amei como ser humano neste planeta. Ela era meu amor... minha razão, minha amiga, enfim mesmo decepcionada quero deixar publicado o dia do aniversário dela como eu faço todos os anos desde que eu criei este blog, inclusive foi criado para no futuro ela pudesse acessar e me conhecer melhor, meus gostos e desgostos, o meu lado humano além de mãe.
Fiz tantos planos com ela... mas hoje eu não sei se quero vivê-los. Ela se transformou num ser humano frio, indiferente ao amor, interesseira, manipuladora, etc... tristeza, viu!!! Mas continuarei sendo sua mãe até o último dia da minha existência... e rezando ao Deus todo poderoso faça um milagre nela e em mim para tirar esta tristeza e desconfiança que se instalou no meu coração.
Não gosto de sentir isso e nem omitir meus sentimentos... sou todos eles... como é o título deste blog "...sou sentimentos" e entre eles no momento o sentimento de tristeza e profunda decepção com ela minha ex-bebein! 
Angústia em vê-la se transformar numa pessoa totalmente diferente do que eu desejei ardentemente como mãe para ela como minha filha amada... nada saiu como eu planejei! Nada! 
Enfim, Feliz aniversário minha filha caçula indiferente dos meus sentimentos...  espero que este resto de ano (2018) vc possa começar uma profunda transformação como pessoa e ser humano. Muito diferente do que eu vi nestes últimos anos e confirmei recentemente.
Aprenda a ser uma pessoa boa, amorosa, amiga, empática, sincera, querida, ou seja, uma boa filha apesar de qq coisa que tenha acontecido em nosso passado e no qual vc já sabe de muitas coisas e e ainda saberá muito mais quando ficar adulta e independente emocional e financeiramente dessas pessoas horríveis que mentiram e omitiram a verdade ou simplesmente mostraram só o que os convinham mostrar. Não é certo agir desta forma ainda mais sendo eu e você mãe-filha. Mas Deus vai lhe mostrar mais cedo ou mais tarde a verdade.
Hoje filha vc se transformou numa decepção aos meus olhos e coração. Que dor!
Infelizmente estou tão desolada com o que se transformou sendo educada por uma mulher sem escrúpulos longe de mim... um pai omisso, patético, inerte, manipulável, irresponsável, covarde com a vida, com sentimentos próprios e alheios, velho com mente, comportamento de um adolescente infantilizado e ridículo é trágico.
Foi a pior escolha de uma existência que eu poderia ter feito a nós. Sinto enganada, culpada. Uma mistura ruim de sentimentos confusos e diversos. Sei que não tenho como mudar o que foi feito e isso me dilacera a alma de raiva, arrependimento por ter sido enganada com tantas mentiras, interesses escusos e dissimulações. Covarde é uma palavra elegante para designar tudo que aconteceu. A verdade mesmo que foi e é um ato criminoso que fizeram conosco espiritualmente e humanamente falando, eles nem imaginam o karma que eles fizeram para as vidas deles. O egoísmo e o orgulho deles falaram mais alto do que o amor e a fraternidade em ceder ou acolher a mim e aquela situação momentânea da minha doença. Eles foram impiedosos! 
Mas acredito na lei de retorno, causa e reação crística (do nosso Mestre Cristo Jesus nos ensinou pelas palavras e exemplos) e que nenhum deles que fizeram este mal a minha vida, aliás em nossas vidas, ficarão impunes. Jamais! Ninguém entra nos céus até pagar o último cetil de sua dívida. Assim está escrito e eu acredito porque assim é justo.
Hoje depois de tantos anos eles não precisam se preocupar em mentir, justificar ou inventar desculpas para mim ou ninguém... não!!! Já passou o tempo de reconciliações e perdões.
A inércia foi conveniente e confortável para eles... não pensaram no estrago que deixaram pra trás... por isso eu particularmente só quero que a justiça de Deus seja feita e cobrada diuturnamente pela consciência, lembranças, pensamentos diários, mostrando tudo que eles fizeram ou deixaram de fazer e as consequências das suas escolhas nas nossas vidas.
Quero que seja cobrado cetil por cetil seja agora ou mais tarde... nesta ou em outras vidas... não importa, somos imortais. Acredito que não ficarão impunes porque Deus é misericordioso e o meu coração de mãe está ferido e continua sangrando pelo o que eles me fizeram e me tiraram.
Todos direto ou indiretamente sem exceção pagarão seja pela ação ou omissão. Pela palavra maldita ou pelo silêncio assassino.
Desculpem meu desabafo porque meu coração de mãe está  muito dolorido nestes tempos. Estava precisando colocar para fora, vomitar estas mágoas... 
Assim, é a vida que seguirá seu roteiro através das nossas escolhas e lá na frente chegarão as consequências delas. É o ciclo da evolução obrigatória.
Feliz Aniversário minha filha Maria Eduarda Carrilho.
São os votos de sua mãe, apesar de...
Roberta Carrilho  





segunda-feira, 23 de julho de 2018

LANÇAMENTO DA MINHA PRÉ-CANDIDATURA PARA DEPUTADA ESTADUAL POR MINAS GERAIS






AGORA É A NOSSA VEZ! #VamosJuntas

#PCdoB - uma mulher PROGRESSISTA que tem lado e é o lado do povo trabalhador e assalariado, vulneráveis, minorias, comunidade LGBTI, os servidores públicos e claro, as mulheres


domingo, 22 de julho de 2018

O MARXISMO CONTINUA ATUAL PARA A CRÍTICA DO CAPITALISMO E A DENÚNCIA DAS DESIGUALDADES - ENTREVISTA ESPECIAL COM JOSÉ EUSTÁQUIO DINIZ ALVES




A teoria marxista se sustenta em três linhas do pensamento moderno, surgidos a partir da Revolução Industrial e Energética: economia política inglesa, filosofia alemã e socialismo francês. “De uma forma ou de outra (mas não sem questionamentos), estes três pilares continuam vivos e vão permanecer como referência para a crítica social enquanto houver relações capitalistas de produção”, avalia José Eustáquio Diniz Alves. “Porém, fundamentando toda sua análise na teoria do valor, Marx não conseguiu resolver as incongruências quantitativas entre a magnitude do valor e o preço das mercadorias.” Sendo assim, “uma hipótese fundamental do marxismo que não se confirmou foi a ‘queda tendencial da taxa de lucro’, o que seria um ponto-chave, pois teria como resultado a ‘crise final do capitalismo’”, explica em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Ao refletir sobre o legado teórico de Marx, Alves reconhece que ele nem chegou perto do “sonho de uma sociedade sem exploração e sem dominação, uma sociedade verdadeiramente comunista”. Ao citar o lema “de cada um conforme suas capacidades, a cada um conforme suas necessidades”, afirma que “esta bela utopia […] parece estar mais distante da materialização do que a possibilidade de o ser humano ultrapassar os limites da Via Láctea”.

Para discutir marxismo, Alves também trata do capitalismo. Para ele, “a filosofia marxista continua atual, especialmente no que diz respeito à crítica ao funcionamento do sistema capitalista e à denúncia das desigualdades sociais da sociedade urbano-industrial”. No entanto, ressalva “que o marxismo já nasceu desatualizado no que se refere à relação entre a humanidade e a natureza”.

Sobre um dos debates contemporâneos, acerca da renda básica universal, Alves considera que, “se bem implementada, pode ser um importante mecanismo de transferência de renda, de compensação das falhas do mercado, de combate à pobreza, de melhoria da distribuição de renda e de fortalecimento da cidadania”. No entanto, chama de ideia romântica a aposta de que ela possa salvar o capitalismo. “Acreditar na possibilidade de os capitalistas taxarem os futuros onipresentes e oniscientes robôs e distribuírem uma renda básica universal para que a população desocupada tenha recursos para comprar os seus próprios produtos é uma ideia surreal.”


José Eustáquio Diniz Alves é doutor em Demografia, mestre em Economia e graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, com estágio pós-doutoral na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Foi professor da Universidade Federal de Ouro Preto de 1987 a 2002. É pesquisador titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – Ence/IBGE.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a atualidade de Karl Marx em termos filosóficos? Que intuições se confirmaram e quais nunca foram sequer sombras da realidade?
José Eustáquio Diniz Alves – A teoria marxista foi tecida a partir de três linhas do pensamento moderno, que surgiram a partir do início da Revolução Industrial e Energética, entre o último quartel do século XVIII e o primeiro quartel do século XIX: a economia política inglesa (teoria do valor-trabalho), a filosofia alemã(materialismo histórico-dialético) e o socialismo francês (fim da propriedade privada e da “escravidão assalariada”). De uma forma ou de outra (mas não sem questionamentos), estes três pilares continuam vivos e vão permanecer como referência para a crítica social enquanto houver relações capitalistas de produção.

Porém, fundamentando toda sua análise na teoria do valor, Marx não conseguiu resolver as incongruências quantitativas entre a magnitude do valor e o preço das mercadorias. Assim, um dos problemas não adequadamente equacionados do marxismo é o da “transformação do valor em preço”. Desta forma, uma hipótese fundamental do marxismo que não se confirmou foi a “queda tendencial da taxa de lucro”, o que seria um ponto-chave, pois teria como resultado a “crise final do capitalismo”. Mas apostar no determinismo do colapso capitalista em função de suas “contradições internas” é como apostar contra o cassino, acreditando na incompetência do crupiê.

Como mostrou Geoff Mulgan [1], autor do livro The locust and the bee (o gafanhoto e a abelha), o capitalismo é essencialmente um sistema em movimento, no qual tendências fortemente predatórias (o gafanhoto) se articulam com forças construtivas (a abelha) para formar um amálgama cuja marca é a transformação. Para Mulgan, Marx errou ao subestimar a capacidade do capitalismo de responder e se adaptar às ameaças e pressões políticas. Ou como diria Joseph Schumpeter [2], o capitalismo é um sistema dinâmico, que funciona em ciclos de “destruição criativa” e que se desenvolve impulsionado pela liderança do empresário inovador

Completando a resposta, o que nem sequer chegou perto da realidade foi o sonho de uma sociedade sem exploração e sem dominação, uma sociedade verdadeiramente comunista, funcionando à base do lema: “De cada um conforme suas capacidades, a cada um conforme suas necessidades”. Esta bela utopia, que também era compartilhada pelos anarquistas, parece estar mais distante da materialização do que a possibilidade de o ser humano ultrapassar os limites da Via Láctea.

IHU On-Line – É possível pensar a produção teórica de Marx dentro das sociedades contemporâneas cada vez mais imersas na Revolução 4.0?
José Eustáquio Diniz Alves – A teoria do valor-trabalho é uma referência indispensável para a análise do capitalismo, qualquer que seja a fase do desenvolvimento das forças produtivas. Mas nos últimos 200 anos, desde o nascimento de Marx, o conflito capital versus trabalho se complexificou e não gerou uma polaridade entre uma maioria esmagadora de operários empobrecidos e uma reduzida minoria de capitalistas escandalosamente enriquecidos. Marx e Engels [3], de certa forma, deixando implícita a ideia de um empobrecimento absoluto da classe trabalhadora, disseram no Manifesto Comunista: “Os proletários nada têm a perder, a não ser os seus grilhões. Têm um mundo a ganhar”.

Contudo, houve conquistas além dos grilhões e, na realidade, a extrema pobreza foi reduzida. Segundo os dados do site “Our World in Data”, um projeto da Universidade de Oxford com dados disponíveis gratuitamente na internet, a população mundial, que era de 1,08 bilhão de habitantes em 1820, tinha 1,02 bilhão vivendo na extrema pobreza (representando 94% da população total) e 60,6 milhões vivendo acima da linha da extrema pobreza (representando 6% do total). Em 2015, a população mundial chegou a 7,35 bilhões de habitantes, com 6,6 bilhões (89,8%) acima da linha da extrema pobreza e 705,6 milhões de pessoas (10,2%) vivendo na extrema pobreza. Em resumo, a extrema pobreza caiu de 94% do total populacional, em 1820, para 10% em 2015. A significativa redução da extrema pobreza global foi acompanhada pela melhoria dos indicadores demográficos. A mortalidade na infância (0 a 5 anos) atingia 43,3% das crianças em 1800 (56,7% sobreviviam após os 5 anos) e caiu para 4,2% em 2015 (com 95,8% das crianças sobrevivendo após os 5 anos). A esperança de vida ao nascer da população mundial, que estava abaixo de 30 anos no século XIX, chegou a 71,4 anos em 2015.

Todos estes avanços socioeconômicos só foram possíveis porque houve progresso das forças produtivas, avanços científicos e tecnológicos de grande monta, uma ampla diversificação da estrutura produtiva, o surgimento de um bônus demográfico e uma enorme disponibilidade de energia fóssil a preços baixos. Embora as relações capitalistas de produção sejam hegemônicas, o modo de produção capitalista não funciona no vácuo, pois está inserido em formações sociais concretas. Isto quer dizer que as relações capitalistas de produção, mesmo sendo dominantes, não abarcam todas as formas de se produzir bens e serviços em uma sociedade. Desta forma, nem todos os trabalhadores fazem parte da classe operária (“classe em si”). E, mesmo entre os operários, não é fácil alcançar, na prática, uma consciência de classe (“classe para si”). Em geral, há mais divergências do que convergências unindo os interesses dos diversos trabalhadores de uma estrutura produtiva global tão heterogênea e desigual.

IHU On-Line – Como todas as transformações tecnológicas da contemporaneidade reconfiguram o conceito de valor de Marx?
José Eustáquio Diniz Alves – A Revolução 4.0 tende a diversificar ainda mais a estrutura produtiva, rompendo de vez com o rígido arcabouço fordista de uma produção padronizada e de massa. A atual revolução científica e tecnológica difere das três anteriores na profundidade e na velocidade das transformações, com grande impacto no mundo do trabalho. Não se trata mais de lidar com o “gorila domesticado” de Henry Ford [4], ou com a recomposição da linha de montagem do Toyotismo, que busca capturar o pensamento do operário incorporando suas iniciativas afetivo-intelectuais aos objetivos da produção de bens e serviços. Os trabalhos que vão surgir serão necessariamente diferentes dos atuais, não havendo garantias que serão suficientes para compensar os postos que vão desaparecer, e dificilmente as organizações sindicais atuais dos trabalhadores conseguirão se manter na nova configuração produtiva, tanto quanto os chamados “direitos adquiridos”. Haverá uma produção mais maleável, descentralizada e com flexibilização do processo de trabalho, tanto temporal quanto físico, além da tendência à “individuação” (a “pejotização” é apenas um aspecto) e do enfraquecimento do trabalho material, aglomerado e coletivo. A teoria do valor continuará válida sempre, mas a possibilidade de formação de uma “classe em si” será cada vez menos provável, e o surgimento de uma “classe para si” será um fenômeno quase inimaginável.

IHU On-Line – Dentro da Teoria do Valor, os robôs estão do lado do trabalho ou do capital? Por quê?
José Eustáquio Diniz Alves – Por mais que os robôs possam ser parecidos com os seres humanos, eles entram no processo produtivo do lado do capital e não do trabalho. Isto acontece porque, no regime capitalista, o processo produtivo é composto por dois elementos fundamentais: trabalho e capital, sendo que o primeiro é dividido em duas partes: o trabalho pago (salários) e o trabalho não pago ou mais-valia (trabalho excedente). A lógica dos patrões, para maximizar o lucro capitalista, é aumentar a parte referente ao trabalho não pago (mais-valia) e reduzir a parte do trabalho pago. Como nenhum indivíduo consegue trabalhar 24 horas e 7 dias por semana, existe um limite material à exploração da mais-valia absoluta. Porém, a mais-valia relativa não depende da superexploração física das horas de trabalho e sim da produtividade do trabalho, isto é, do aumento do produto por hora trabalhada. Por conta disto, desde o início da luta entre o capital e o trabalho, o capitalista buscou substituir o trabalhador por máquinas, para criar uma superpopulação relativa (ou exército industrial de reserva) e para aumentar a mais-valia relativa, via aumento da composição orgânica do capital. Os robôs simplesmente exponenciam esta lógica, aumentando a produtividade, desempoderando o trabalhador e aumentando a apropriação capitalista do excedente (mais-valia relativa).

IHU On-Line – Como os robôs reorganizam a noção de mais-valia à medida que, diferente dos humanos, não necessitam de horas de descanso e tampouco exigem reajustes no pagamento das horas de trabalho?
José Eustáquio Diniz Alves – Não há novidade neste aspecto. Os robôs são máquinas. As máquinas nunca necessitaram descanso e pagamento pelas horas trabalhadas, apenas manutenção e reposição. Elas fazem parte do capital fixo. O que a robótica da Revolução 4.0 traz de novo é o casamento das máquinas com a Inteligência Artificial e a Internet das Coisas. Isto permite não só substituir aquele operário representado por Charles Chaplin [5] em Tempos modernos, mas possibilita também uma enorme reorganização da produção e um exponencial aumento da produtividade.

IHU On-Line – O desenvolvimento tecnológico, especialmente a automação e robotização industrial, que retira postos de trabalhos humanos não gera um tipo de produção entrópica? Se não há renda do trabalho para os humanos, como haverá consumidores?
José Eustáquio Diniz Alves – A insuficiência de renda e o subconsumo são componentes inerentes da dinâmica capitalista. As crises de superprodução do capitalismo são recorrentes, e as crises de realização sempre acontecem no processo de reprodução ampliada do capital. As crises são momentos de ajuste de contas e de distribuição dos prejuízos. O boom econômico é momento de aumento de salário e distribuição de lucros. As recessões, como etapas do ciclo econômico, são partes do movimento e da disputa entre as forças predatórias (“gafanhotos”) e as forças construtivas (“abelhas”). Ainda não há elementos para dizer com certeza se a Revolução 4.0 vai criar uma crise permanente de subconsumo, pois a geração de emprego e renda depende da propensão marginal a investir e da demanda agregada, vetores que são influenciados pela política macroeconômica, primordialmente, pelos níveis das taxas de juros e de câmbio. Se os instrumentos da política econômica forem bem administrados e não houver ruptura entre poupança e investimento, poderia valer o estabelecido na chamada Lei de Jean-Baptiste Say [6]: “a oferta cria sua própria demanda”. 

A 4ª Revolução Industrial não vai acabar necessariamente com os empregos e o ganha-pão dos trabalhadores. O trabalho é a galinha dos ovos de ouro do capitalismo. Atualmente, os três países com maior uso de robôs em relação à força de trabalho manufatureira são Coreia do Sul, Cingapura e Japão, todos três com baixas taxas de desemprego. A China tinha uma população em idade ativa (15-64 anos) de 1 bilhão de pessoas em 2015, que deve cair para 814 milhões em 2050 e para 555 milhões em 2100. Ou seja, a força de trabalho chinesa vai se reduzir quase pela metade ao longo do século XXI, e o uso de robôs não roubará empregos, mas, provavelmente, substituirá os trabalhadores que vão “desaparecer” em função da queda da fecundidade, especialmente depois da implementação da política de filho único. Já o Brasil de 2018, que está completamente atrasado no avanço da Revolução 4.0, tem uma taxa de desemprego aberto em torno de 13% e uma taxa de subutilização da força de trabalho próxima de 25%. O desemprego no Brasil nada tem a ver com tecnologia, e o desenvolvimento tecnológico da Coreia do Sul não tem gerado desemprego em larga escala.

IHU On-Line – Nesse sentido, a necessidade daquilo que chamaríamos hoje de renda básica universal não seria a próxima etapa para “salvar” o capitalismo, afinal sem consumidores não há onde escoar a produção, cada vez mais intensiva?
José Eustáquio Diniz Alves – A renda básica universal, se bem implementada, pode ser um importante mecanismo de transferência de renda, de compensação das falhas do mercado, de combate à pobreza, de melhoria da distribuição de renda e de fortalecimento da cidadania. Mas achar que a renda básica universal possa salvar o capitalismo é uma ideia romântica. Acreditar na possibilidade de os capitalistas taxarem os futuros onipresentes e oniscientes robôs e distribuírem uma renda básica universal para que a população desocupada tenha recursos para comprar os seus próprios produtos é uma ideia surreal. Ainda mais bizarro é sonhar com a possibilidade de os robôs com inteligência artificial fazerem todo o trabalho de dominação e exploração da natureza e, obedientemente, produzirem bens e serviços capazes de sustentar uma humanidade ociosa que, preguiçosamente, possa viver no conforto, no lazer e no desfrute eterno de um crescente consumo conspícuo e antiecológico.

Quando Thomas Paine [7], em 1795, no livro Agrarian justice, propôs a criação de um fundo de cidadania, que seria financiado pela taxação da renda da terra, para apoiar os idosos e fornecer uma renda aos jovens para que eles pudessem, autonomamente, se estabelecer na economia, não estava pensando em eliminar a força de trabalho e nem visava a subsidiar o consumo. A proposta do fundo de cidadania do grande revolucionário britânico, que foi pessoa-chave na Independência dos Estados Unidos e no desenrolar da Revolução Francesa, está mais próxima das atuais políticas de proteção social na área de previdência e de geração de renda para os jovens e não da atual concepção da renda básica universal.

Não dá para ignorar que os robôs, com ou sem inteligência artificial, estão do lado do capital, na equação da teoria do valor, e são utilizados no processo produtivo para aumentar a mais-valia relativa. Taxar os robôs para financiar uma renda básica universal é o mesmo que taxar o capital para “expropriar os expropriadores” da mais-valia. A taxação é uma luta que ocorre dentro do conflito distributivo inerente à disputa capital-trabalho. Ao longo da história do capitalismo urbano-industrial, os trabalhadores e os cidadãos, especialmente aqueles com poder de voto na democracia liberal-burguesa, conseguiram arrancar alguns recursos da mais-valia, que seriam apropriados pelos capitalistas, para financiar os direitos de cidadania nas áreas de saúde, educação, infraestrutura etc. Isso foi possível na medida em que houve uma sinergia entre os trabalhadores mais saudáveis e mais qualificados e o aumento da produtividade do trabalho, que incrementou os excedentes da produção. Este é o pacto que tem viabilizado a sobrevivência do capitalismo. Todos ganham (uns mais do que os outros) com o avanço da produtividade e da acumulação de capital. Os trabalhadores, os cidadãos e os capitalistas ficam mais ricos. Somente perdem os ecossistemas. A humanidade progride, enquanto o meio ambiente regride, pois a natureza não tem direitos intrínsecos e os direitos humanos são totalmente antropocêntricos. No modelo hegemônico atual, a renda básica universal aumentaria o enriquecimento da humanidade às custas do empobrecimento do meio ambiente.

IHU On-Line – É possível fazer um paralelo entre a renda básica universal e o comunismo, que, segundo Marx, seria o destino final do capitalismo?
José Eustáquio Diniz Alves – Para Marx, o capitalismo seria destruído pelas suas próprias contradições internas e, via luta de classes, seria substituído pelo socialismo, entendido como uma organização social classista, mas com o proletariado no comando (ditadura do proletariado). Como, em tese, no socialismo teórico, os interesses do proletariado coincidiriam com os interesses da humanidade, o fim da dominação e da exploração de classe levaria a uma convivência social sem a apropriação privada dos meios de produção, livre da “escravidão assalariada” e livre do Estado repressor. Sem os elementos centrais da dominação burguesa, o caminho estaria aberto para o desabrochamento da utopia comunista. Pelos princípios do materialismo histórico, o socialismo, liderado pelo proletariado, seria o sucessor do capitalismo, e o comunismo, o sucessor do socialismo, configurando a etapa mais avançada possível do progresso humano.

O comunismo não seria uma sociedade sem trabalho; ao contrário, todas as pessoas teriam trabalho, mas não o trabalho alienado e gerenciado pelas relações sociais de produção, de dominação e de exploração do capital. Na visão marxista, a força de trabalho do comunismo teria o poder de gerar um sistema cornucopiano, capaz de criar uma abundância fáustica ilimitada, pois o progresso das forças produtivas não encontraria barreiras para se desenvolver e satisfazer todas as demandas da população (“a cada um conforme suas necessidades”). Portanto, no comunismo não haveria necessidade de uma renda básica universal, mesmo porque não haveria mais capital (e nem mais-valia) para ser taxado e redistribuído.

IHU On-Line – É possível produzir riqueza sem o trabalho humano?
José Eustáquio Diniz AlvesDepende do conceito de riqueza. Em geral, os dicionários definem riqueza como “abundância na posse de bens materiais, tais como dinheiro e propriedades”. Este tipo de riqueza só surge por meio do trabalho humano. É possível obter “valor de uso” sem trabalho humano, mas não “valor de troca”. A riqueza capitalista é fruto do suor do trabalhador, apropriado pelos proprietários dos meios de produção. Além de gerar riqueza, o trabalho faz parte da essência humana, como explica Engels no texto Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem. Mas há também, desde antes do surgimento do Homo sapiens, uma incomensurável riqueza que é oferecida gratuitamente pela natureza e que não requer interferência das atividades antrópicas. Refiro-me à riqueza que brota da interação espontânea dos ecossistemas. Por exemplo, o ar que respiramos é a riqueza mais essencial para a vida (ninguém sobrevive alguns minutos sem oxigênio) e, no entanto, ele não tem valor de troca, pois o ato de respirar é gratuito e não requer trabalho humano.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
José Eustáquio Diniz Alves – Voltando à pergunta inicial, reafirmo que a filosofia marxista continua atual, especialmente no que diz respeito à crítica ao funcionamento do sistema capitalista e à denúncia das desigualdades sociais da sociedade urbano-industrial. Mas, completando o raciocínio, é preciso lembrar que o marxismo já nasceu desatualizado no que se refere à relação entre a humanidade e a natureza. O modelo marxista, ao dar ênfase ao conflito capital versus trabalho, deixou em segundo plano o conflito entre as demandas do ser humano e os direitos da natureza. Evidentemente, Marx escreveu sobre a degradação do meio ambiente em várias ocasiões. Todavia, secundarizou o conflito ecológico, considerando que, no comunismo, não haveria grandes contradições entre homem-natureza-demais espécies. Marx ignorou contribuições ambientais pioneiras de autores como Alexander Von Humboldt [8] (1769-1859), Henry David Thoreau [9] (1817-1862) e John Stuart Mill[10] (1806-1873), pesquisadores que escreveram obras essenciais, antes mesmo de o jovem Marx publicar o Manifesto Comunista. A história do marxismo relegou a segundo plano a contradição entre o “capital antrópico” (salários + lucros) e o “capital natural”, fato que as tendências mais antenadas do ecossocialismo tentam corrigir, ao reconhecerem que a depleção da natureza está se convertendo cada vez mais em um elemento desestabilizador da acumulação de capital.

Talvez o maior desafio da contemporaneidade seja levantar evidências de que o capitalismo acabe sendo destruído não por suas contradições internas, mas pelo seu sucesso, já que a enorme produção de bens e serviços e a vitória da incessante acumulação de capital gera uma aceleração tão grande das atividades antrópicas que o modelo “extrai-produz-descarta” entra em contradição direta com a realidade física do fluxo metabólico entrópico da natureza. A produção em massa de mercadorias realizada pelo modo de produção capitalista e pelas formações sociais subordinadas ao capitalismo fizeram a humanidade ultrapassar a capacidade de carga do Planeta, sendo que a Pegada Ecológica global está 70% acima da Biocapacidade global. Além disso, segundo o Stockholm Resilience Centre, quatro das nove fronteiras planetárias foram ultrapassadas, sendo que, duas delas, a mudança climática e a integridade da biosfera, são o que os cientistas chamam de limites fundamentais e têm o potencial de levar a civilização ao colapso.

A 4ª Revolução Industrial pode ser a festa de despedida do capitalismo, na medida em que gere uma explosão do consumo que seja ao mesmo tempo uma implosão ecológica e o rastilho de pólvora para o aumento da entropia e para o irreversível desequilíbrio homeostático do planeta. A 6ª extinção em massa da vida na Terra colocaria fim não somente à biodiversidade, mas também encerraria o conflito capital-trabalho, seja no âmbito do capitalismo ou do socialismo. Não daria sequer para voltar à barbárie. Devido à globalização e à universalização da engrenagem insana que move o atual modo de produção e consumo – responsável pela “grande aceleração” do Antropoceno –, um possível colapso do capitalismo não deixaria alternativas ou rotas de fuga, pois significaria, também, um colapso ambiental e civilizacional global.

Notas:

[1] Geoff Mulgan (1961): diretor executivo do Fundo Nacional para a Ciência, Tecnologia e Artes (em inglês, National Endowment for Science Technology and the Arts – NESTA), instituição de caridade independente que trabalha para aumentar a capacidade de inovação do Reino Unido. Também é professor visitante da University College London, da London School of Economics e da University of Melbourne. Entre os livros que escreveu, estão Communication and Control: Networks and the New Economies of Communication (1991), Politics in an Anti-Political Age (1994), Connexity (1997), Good and Bad Power: the Ideals and Betrayals of Government (2006), The Art of Public Strategy (2009) e The Locust and the Bee (2013). (Nota da IHU On-Line)

[2] Joseph Schumpeter (1883-1950): economista austríaco, entusiasta da integração da Sociologia como uma forma de entendimento de suas teorias econômicas. Seu pensamento esteve em debate no I Ciclo de Estudos Repensando os Clássicos da Economia, promovido pelo IHU em 2005. (Nota da IHU On-Line)

[3] Friedrich Engels (1820-1895): filósofo alemão que, junto com Karl Marx, fundou o chamado socialismo científico ou comunismo. Ele foi coautor de diversas obras com Marx, entre elas Manifesto Comunista. Grande companheiro intelectual de Karl Marx, escreveu livros de profunda análise social. (Nota da IHU On-Line)

[4] Henry Ford (1863-1947): empreendedor estadunidense, fundador da Ford Motor Company e o primeiro empresário a aplicar a montagem em série, de forma a produzir em massa automóveis em menos tempo e a um menor custo. A introdução de seu modelo Ford T revolucionou os transportes e a indústria norte-americanos. Ford foi um inventor prolífico e registrou 161 patentes nos Estados Unidos. Como único dono da Ford Company, se tornou um dos homens mais ricos e conhecidos do mundo. A ele é atribuído o “fordismo”, isto é, a produção em grande quantidade de automóveis a baixo custo por meio da utilização do artifício conhecido como “linha de montagem”, o qual tinha condições de fabricar um carro a cada 98 minutos, além dos altos salários oferecidos a seus operários – notavelmente o valor de 5 dólares por dia, adotado em 1914. (Nota da IHU On-Line)

[5] Charles Chaplin (1889-1977): ator, diretor, produtor, humorista, empresário, escritor, comediante, dançarino, roteirista e músico britânico. Um dos principais atores da era do cinema mudo, notabilizado pelo uso de mímica e da comédia pastelão. Bastante conhecido pelos seus filmes O Imigrante, O Garoto, Em Busca do Ouro, O Circo, Luzes da Cidade, Tempos Modernos, O Grande Ditador, Luzes da Ribalta, Um Rei em Nova York e A Condessa de Hong Kong. Considerado por alguns críticos o maior artista cinematográfico de todos os tempos e um dos pais do cinema, junto com os Irmãos Lumière, Georges Méliès e D.W. Griffit. Sua carreira no ramo do entretenimento durou mais de 75 anos, desde suas primeiras atuações quando ainda era criança nos teatros do Reino Unido, durante a Era Vitoriana, quase até sua morte aos 88 anos de idade. (Nota da IHU On-Line)

[6] Jean-Baptiste Say (1767-1832): economista francês que formulou uma lei econômica, a Lei de Say, que se manteve como princípio fundamental da economia ortodoxa até a grande depressão de 1930. (Nota da IHU On-Line)

[7] Thomas Paine (1737-1809): político britânico, além de panfletário, revolucionário, inventor, intelectual e um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América. Viveu na Inglaterra até os 37 anos, quando imigrou para as colônias britânicas na América, em tempo de participar da Revolução Americana. Suas principais contribuições foram os amplamente lidos Common Sense (1776), advogando a independência colonial americana do Reino da Grã-Bretanha, e The American Crisis (1776-1783), uma série de panfletos revolucionários. Paine também influenciou bastante a Revolução Francesa. Escreveu Rights of Man (1791), um guia das ideias iluministas. Mesmo não falando francês, foi eleito para a Convenção Nacional Francesa em 1792. Em dezembro de 1793, foi aprisionado em Paris, sendo solto em 1794. Tornou-se notório por The Age of Reason (1793-94). Na França, também escreveu o panfleto Agrarian Justice (1797), discutindo as origens da propriedade, e introduziu o conceito de renda mínima. Ele também defendeu a posse de arma por parte dos cidadãos. Paine permaneceu na França durante o início da Era Napoleônica, mas condenava a ditadura de Napoleão, chamando-o de “o mais completo charlatão que já existiu”. A convite do presidente Thomas Jefferson, em 1802 retornou aos Estados Unidos. Foi enterrado onde hoje é chamado Thomas Paine Cottage, em New Rochelle, NY, onde viveu depois de retornar aos EUA. Seus restos mortais foram desenterrados por um admirador, William Cobbett, que procurava retorná-los para o Reino Unido e dar a ele um novo enterro solene em sua terra natal. Os ossos, entretanto, foram perdidos e sua localização atual é desconhecida. (Nota da IHU On-Line)

[8] Alexander von Humboldt [Friedrich Heinrich Alexander, Barão de Humboldt] (1769-1859): naturalista e explorador alemão. Atuou também como etnógrafo, antropólogo, físico, geógrafo, geólogo, mineralogista, botânico, vulcanólogo e humanista, tendo lançado as bases de ciências como Geografia, Geologia, Climatologia e Oceanografia. (Nota da IHU On-Line)

[9] Henry David Thoreau (1817-1862): autor norte-americano, poeta, naturalista, ativista anti-impostos, crítico da ideia de desenvolvimento, pesquisador, historiador, filósofo e transcendentalista. Ele é mais conhecido por seu livro Walden, uma reflexão sobre a vida simples cercada pela natureza, e por seu ensaio Desobediência Civil, uma defesa da desobediência civil individual como forma de oposição legítima frente a um estado injusto. A edição número 509 da IHU On-Line tem a obra do filósofo como tema de capa. (Nota da IHU On-Line)

[10] John Stuart Mill (1806-1873): filósofo e economista inglês. Um dos pensadores liberais mais influentes do século XIX, defensor do utilitarismo. (Nota da IHU On-Line)



sábado, 21 de julho de 2018

JEITO NOVO DE CORRER QUE VIROU FEBRE NO MUNDO FAZ SUCESSO EM BH - CALMA CLIMA, O PRIMEIRO RUNNING CREW DA CAPITAL MINEIRA


Bacana!! Gostei da proposta! Quando voltar morar em BH e vou procurar a turma para ser uma climática ou com a turma do pedal (I Love bike).
Roberta Carrilho



O relógio marca 20h30. “Clima!”, grita um dos puxadores. Logo, o grupo de mais de 100 corredores deixa a praça do Museu Abílio Barreto, no Bairro Cidade Jardim, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, em passos apressados. Ao virar a Rua Sinval Barreto, já na batida da playlist, que sincroniza o ritmo acelerado da música com batimentos cardíacos, o grupo dá largada à corrida. Juntas seguem duas repórteres sedentárias do jornal Estado de Minas, que resolveram encarar o desafio e mostrar a nova forma de correr e explorar a cidade. 

Estamos falando do Calma Clima, o primeiro running crew – um jeito novo de correr, que virou febre nas principais cidades do mundo – da capital. Muito forte fora do país, o conceito já tem levado muita gente a tirar os tênis velhos do armário para dar aquele rolê pela cidade. Missão da noite: sete quilômetros entre o Museu Abílio Barreto e o Edifício Maletta, no Centro.

Grupo conta, agora, com cerca de 100 corredores. No fim do trajeto, a turma bebe uma cerveja bem gelada para se hidratar e fechar a noite com boa conversa

O nome Calma Clima dita os dois momentos que orientam o grupo. Clima: correr; Calma: parar e contemplar. Essa é uma das principais regras que corredores de primeira viagem precisam saber. A outra é: não se trata de uma assessoria esportiva e, muito menos, de uma competição. 

O running crew, que surgiu em Nova York e Los Angeles, é um movimento aberto com o propósito de unir as pessoas de todos os gêneros, tipos físicos e idades. É pura liberdade, sem percurso certo, sem distância. 

“A ideia não é um ser melhor do que o outro, a ideia é correr junto. O Calma Clima nasce para ‘descortinar’ uma cidade invisível. Passamos por locais pelos quais não estamos habituados a passar – seja por segurança ou por sermos condicionados a carro ou ônibus”, contou Bernardo Biagioni, de 30 anos, jornalista, idealizador do Calma Clima.

A "ordem" é não deixar ninguém para trás.

E é em fila indiana que o grupo ganha a passarela sobre a Avenida do Contorno, desemboca na Rua Coelho de Souza, passa pela Avenida Álvares Cabral e cruza a Praça da Assembleia. Ufa, calma! Uma breve parada no início da Avenida Barbacena. Quem chega primeiro descansa, quem vem em ritmo mais lento, fica em desvantagem. Clima! Renovam o grito, e segue a correria. O grupo desce a Barbacena inteira. E a multidão que corria compacta, começa a se dispersar, formando uma espécie de linha do cansaço. Aqui já é possível perceber os desafios que se impõem ao movimento que propõe reunir pessoas de perfis tão diferentes em um único grupo. 

“O Calma Clima surgiu com a ideia de caminhantes marginais. Mas sabemos que temos dois grupos: o que corre muito e o de iniciantes. Temos que lidar com as duas pontas e isso é muito difícil, o que pode frustrar um ou outro. Queremos um rolê que seja amor e que todos terminem com a sensação de missão cumprida”, disse Luiza Drummond, de 30 anos, educadora física que puxa o alongamento antes de iniciar as corridas.

Continuando o roteiro, a multidão atravessa a passarela sobre a Avenida Teresa Cristina. Passa pela estação do Metrô Carlos Prates, e segue a toada na Avenida Nossa Senhora de Fátima. Estamos na metade do caminho. Ali, duas estreantes já pedem arrego e tentam uma carona com o carro da reportagem. Mas, é importante registrar o apoio e cuidado da equipe tanto no incentivo como na segurança dos participantes. Durante todo o trajeto, os climáticos – como são chamados os participantes do projeto – se revezam na “escolta” para não deixar ninguém para trás. O cansaço faz parte, só não vale desistir.

Depois da subida da Rua Patrocínio, calma! Uma breve parada no mirante da Praça Pisa na Fulô, no Bairro Carlos Prates, Região Noroeste de BH. O espaço, que recebe foliões durante o carnaval, ganha outra percepção numa noite de terça-feira. A praça vazia e silenciosa é tomada pelo grupo de mais de 100 pessoas. Todos são convidados a contemplar, do alto, uma vista deslumbrante da capital que, ali, ganha ares de cidade do interior.

CIDADE REVELADA 
De volta para a reta final do roteiro. O grupo desce uma longa escada escondida entre o mato alto – que muita gente nem sabia que existia na cidade, inclusive, nós –, cai no Elevado Helena Greco, margeia o viaduto, desce por outra escada escura e mergulha no Hipercentro. 

“Nunca tinha passado por essas escadas. Já as tinha visto, quando passo de carro, mas, nunca a pé. É muito interessante que os percursos passam dentro de umas ‘quebradas’. Às vezes, a gente mora em BH, mas não conhece nem um décimo da cidade”, disse Matheus Fróes de Oliveira, de 32, que corria pela segunda vez com o grupo.

O movimento segue rumo a parada mais esperada. Depois de virar à direita na Rua Paraná, passar pela Rua Padre Belchior, dar aquele último gás da acelerada final na Avenida Augusto de Lima, enfim, a bandeirada final: Edifício Arcângelo Maletta. Ufa! Êba! Essa é a mistura de sentimento das duas repórteres que venceram o desafio do Calma Clima. 

O suor já tomou conta das roupas, as pernas dão sinal de exaustão e os batimentos cardíacos ainda bastante acelerados. Mas, a satisfação, o bem-estar e o humor terminam muito diferente de quando começou. 

Em resumo: morremos, mas passamos bem. Agora é aplicar a última – e não menos importante – regra do movimento: tomar uma cerveja gelada para hidratar. Porque corrida combina com álcool, sim, e com boas conversas para fechar a noite.

Na primeira corrida, em março deste ano, nem se imaginava a proporção que esse movimento tomaria. Aquele primeiro evento reuniu uma turma de 17 pessoas. Pouco mais de quatro meses depois, as ruas da capital já são tomadas por mais de 100. “O Calma surgiu de um sentimento de escassez. Vivemos em uma cidade que se pauta muito pela falta: a falta de lugares para ir, circular, para se encontrar. E eu já vinha correndo por montanhas próximas de BH e muitas pessoas começaram me escrever para pedir dicas.

Então, decidi criar um grupo”, contou o idealizador do projeto, Bernardo. O percurso é sempre desenhado para contemplar o máximo de ruas, que são os objetos de exploração do movimento. Esse trajeto de sete quilômetros, elaborado cuidadosamente por Gabriel Cisalpino Pinheiro, de 38 anos, poderia ser facilmente percorrido em apenas 2 km, e demorar menos de 10 minutos de carro.

Sair da Região Centro-Sul da cidade e cair no “Centrão” causa impacto. 

É deixado para trás os prédios cercados de câmeras e segurança e caímos em ruas escuras, sujas e com as mazelas sociais à vista. Esse pode parecer um cenário considerado perigoso para mulheres que se arriscam em passar pela região nessa hora da noite. Mas, não quando se está cercada por um grupo. Além do mais, logo o possível medo dá lugar à empatia. Cobertos e descobertos, deitados nas calçadas, moradores em situação de rua acompanham a passagem do grupo. “Vai, vocês dão conta!”, gritam alguns, em incentivos aos corredores que estão na lanterna do movimento, ao passarmos pela Rua dos Tamoios.

As reações das pessoas de “fora” são as mais diversas possíveis. Há os que se perguntam “Isso é um arrastão?”, ou ainda há os que olham feio e buzinam de dentro do carro para que o grupo desocupe a via. 

“É surreal a energia que essa massa correndo transmite pela cidade. Essa ideia de estar com o corpo em movimento, sem nenhum instrumento, livre e solto, cria essa comoção e se torna uma inspiração”, comentou o idealizador do projeto.

NÃO ANDE, PEDALE!
Não curte correr, mas gosta de pedalar? Então, pronto! Você também pode se exercitar e turistar pela cidade. Grupos de bicicletas já se reúnem com o mesmo objetivo há alguns anos. O RUTs (Rolé Urbano das Terças), por exemplo, surgiu em fevereiro de 2008. A proposta da turma é destacar a simplicidade do andar de bicicleta e fazer roteiros que procuram visitar lugares da cidade pouco “convencionais”. “A ideia é reunir com os amigos que gostam de pedalar e depois sair pra explorar a cidade. 

Hoje estão indo cerca de 15 participantes, mas isso porque hoje existem outros grupos de pedal”, contou um dos ciclistas participantes Vinícius Túlio, de 37 anos. Outro grupo que tem uma proposta parecida é o Bicimanas. Nele, mulheres trocam mensagens pelas redes sociais, informam os trajetos em tempo real e combinam de pedalar juntas com o intuito de se fortalecerem e fazer com que a experiência de pedalar seja mais segura.


Fonte: Jornal Estado de Minas


sexta-feira, 15 de junho de 2018

FAZER AMOR É DIFERENTE DE FAZER SEXO.... PRINCIPALMENTE PARA NÓS MULHERES!




Não é só colocar dentro, é estar dentro! Das inseguranças, das incertezas, do medo de não dar certo. Não é só abrir as pernas, é abrir a alma, abrir o coração. Não é suar o corpo, puxar o cabelo, é puxar um sorriso, é dar um abraço, tocar o rosto, olhar nos olhos. Pois o prazer dura minutos, mas o carinho, o cuidado e o amor, esses duram uma vida inteira



terça-feira, 12 de junho de 2018

FELIZidade DIA DOS NAMORADOS



Amor não é se envolver com a pessoa perfeita, aquela dos nossos sonhos. Não existem príncipes nem princesas. Encare a outra pessoa de forma sincera e real, exaltando suas qualidades, mas sabendo também de seus defeitos. O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.







segunda-feira, 11 de junho de 2018

AINDA RESTA UMA ESPERANÇA (Livro do meu autor favorito J.M.Simmel)



J.M. SIMMEL é um dos meus autores da grande literatura mundial que eu mais gosto. Sou colecionadora de suas obras. Amo suas narrativas cheias de sentimento intensos, reais, etc. Enfim.. suas obras sempre me fascinaram e tem uma "Q" nelas porque me faz sentir uma espécie de "Deja vu" ou regressão... muitas vezes eu consigo sentir o cheiro das comidas, a sensação do tempo, clima na pele uma espécie de hipnose voluntária que eu vou lendo e me vendo ao mesmo tempo na Áustria, Alemanha ou Rússia (leste europeu) antes e pós segunda grande guerra... é muito intenso!! J.M.Simmel tem este poder em mim que fascina e ao mesmo tempo me assusta.


“Este livro conta a história de um mundo em profunda crise econômica: a Alemanha do pós-guerra, derrotada e destruída. Seus personagens são pessoas de vida sem horizontes: um desempregado que só vê solução no alcoolismo e no suicídio; um milionário que perdeu tudo; uma mulher que se prostitui. Mas ao mesmo tempo esta é uma história de esperança, cheia de observações irônicas sobre a fraqueza das pessoas que não percebem que a solução para os males do mundo e para seus próprios males está em cada uma delas: são os sentimentos de solidariedade e os valores morais.”

As coisas em Viena no pós guerra (segunda guerra mundial) não são nada fáceis para ninguém, todos vivem uma vida de miséria, sem esperança, e Jakob Steiner é só mais um nesse grande número que é os sem esperanças, mas Jakob chega a conclusão de que há um jeito de tudo ficar 'bem', se matar! 

Quando Jakob vai tentar se matar, ele conhece o adorável e otimista Mamoulian, e após não conseguir se matar eles se tornam grandes amigos.

No outro dia Jakob se reencontra com um rosto conhecido, ele se encontra com Magdalena, a senhora que o acolheu antes dele tentar se matar.

Ela foi despejada da casa que estava morando (pois os antigos donos a deixaram morar lá por um tempo, mas o trato era até eles precisarem voltar a morar lá) e a convida para morar no porão de Mamoulian, pois eles precisavam de uma mulher para fazerem os serviços domésticos que 'só elas sabem fazer', mas eles não podiam pagar ela com nada, a não ser a moradia.

Após uns dias, Jakob tem a ideia deles se juntarem e reconstruir a casa de Mamoulian (que havia sido bombardeada na guerra, por isso estavam morando no porão), e mesmo sem dinheiro, eles resolvem fazer isso. 
É claro que infortúnios acontecem e a trama não fica só nisso.

Mas se os 3 amigos irão conseguir reconstruir a casa? O que são esses infortúnios? A situação financeira deles vai melhorar? Leiam Ainda Resta Uma Esperança e descubram por si mesmos.

Bem, os personagens do livros são MUITO bons, eles são MUITO diferentes na personalidade principal que tem, um é pessimista, outro realista, e outro um grande otimista, mas é isso que fazem com que se tornem tão grande amigos durante a história, um completa o outro! 

Jakob, o pessimista, é de longe o melhor personagem do livro, um dos que mais me identifiquei (o que é estranho, pois também me identifiquei demais com Mamoulian, o otimista, sou muito bipolar mesmo).

Mas então, ele é um bêbado, que não vê motivo nenhum para viver (o que resulta em vários quotes maravilhosos), e por não ver motivo para viver, tenta se matar, como já falei, ele não consegue, mas como? Leiam o livro e descubram.
Após tentar se matar, não conseguir, conhecer Mamoulian, morar com ele e Dona Magdalena, ele muda de pensamento e vê a beleza no mundo, até mesmo nesse mundo horroroso e cheio de miséria do pós guerra.

O otimista Mamoulian, e a segunda pessoa que mais me identifiquei, é um personagem difícil de descrever, mas porque isso? Bem ele me irritou em muitas partes no livro, mas mesmo assim consegui gostar dele, (mais uma coisa estranha sobre mim, gostar de personagem que me irritam).
Ele é um amor de pessoa, era rico e cheio de 'amigos', mas após perder o dinheiro, perdeu os 'bons amigos' também, porém isso não o desanimou de viver, ser otimista, e tentar conquistar o coração de outros seres humaninhos, e é isso o que ele faz com Jakob, Dona Magdalena, ao formar uma família com eles.

Dona Magdalena, é a segunda personagem que mais me cativou, mas também, como uma dona dessas, como não se cativar não é mesmo?! A personagem me fez chorar horrores, tudo por causa de seu passado, ela perdeu o marido, e o filho foi para guerra e nunca mais voltou.

Ela é uma mulher forte, e que luta por tudo o que quer e ajuda MUITO seus dois amigos. 

O livro é legal, mas ele tem uma narrativa lenta, o que deixa algumas partes cansativas e monótonas.

QUOTES

"Sexta-Feira Santa sempre foi um dia triste, mas naquele ano foi especialmente triste. Árvores e arbustos estavam em flor; o gramado cobria-se de relva nova e verde, o sol brilhava num céu sem nuvens, iluminando todas as casas e ruas da grande cidade. Mesmo assim, uma tristeza imensa se apoderou dos homens. Eles não viam as flores, nem os pardais nos galhos ainda negros e escuros das árvores do parque, os vestidos alegres das mulheres, as muitas lojas que expunham seus objetos preciosos. Os operários nas fábricas sentiam as mãos pesadas como chumbo; os funcionários dos escritórios das grandes repartições, no intervalo do almoço, deitavam o rosto pálido, desanimado, em cima dos braços cruzados e dormiam de cansaço; os camponeses, em suas terras, atravessavam com imensa amargura os campos arados."

"Ninguém naquele ano conseguiu ser alegre de verdade. Até as crianças tinham a testa enrugada de preocupações e os cachorros, que sempre corriam felizes, se esgueiravam acabrunhados, mal ousando latir. Tudo estava tão triste! Quem fosse pensar no motivo chegava à conclusão de que os homens não ousavam mais ser alegres por medo. Medo do futuro e de tudo que ele lhes poderia trazer de violência, novas destruições, injustiças, dor e morte. Temiam não só os moradores da grande cidade de Viena, onde se passa a história que a seguir relataremos, mas também os de outras cidades do continente, de todos os continentes, de todo o mundo. Não havia ninguém que não estivesse com medo."

"Todos os dias, a toda hora, uma avalancha de notícias inundava a cidade, provocando novos receios, despertando pavor no coração dos homens. Na Europa, cuja face ainda trazia as feridas recentes de uma guerra cruenta, soldados de muitas nações, que preferiam estar em casa, montavam guarda de fuzil na mão. Suspeitavam e desconfiavam uns dos outros, e seus comandantes, que tinham vindo para apaziguar um povo derrotado, falavam em guerra. Na Palestina, os árabes matavam diariamente um grande número de judeus e diariamente judeus assaltavam bairros árabes. Ambos invocavam o mundo como testemunhas de uma luta justa. Na Itália, os operários atiravam uns contra os outros, na Eslováquia e nos Bálcãs também. Na França, centenas de milhares estavam em greve. Na China, há anos, homens do mesmo sangue viviam se matando, e milhões passavam fome, implorando um punhado de arroz. Pelo mundo inteiro ressoava o trovejar de aviões de guerra e os passos de marcha de colunas fanatizadas.

Nos Estados Unidos, foi instituído o serviço militar obrigatório; nos laboratórios ocidentais, cientistas trabalhavam noite e dia nos piores de todos os meios de destruição, para alcançar os americanos que, neste setor, ocupavam a dianteira. No mundo inteiro partidos políticos se combatiam, prometendo a seus adeptos mundos e fundos, coisas em que eles mesmos não ousavam acreditar. Os homens estavam desnorteados e alguns começavam a compreender que havia chegado uma era em que tudo teria de se modificar; que se encontravam diante de uma imensa transformação que viria com o fim do segundo milênio da era cristã. Não havia mais para onde fugir; não havia como se proteger. A cada minuto, a cada respiração da humanidade, os acontecimentos se precipitavam. Sabia-se que muitas coisas iam acabar, previa-se e esperava-se que outras fossem surgir."

"Podia-se ignorar tudo o que abalava os ânimos, por algum tempo, mas seria impossível manter-se alheio para sempre. A todos, justos e injustos, forças inconcebíveis, que os homens chamavam de "circunstâncias", acabavam obrigando a tomar partido, o que era uma desgraça enorme, pois a maioria dos homens havia muito tinha perdido essa capacidade quase por completo. Resistiam, se negavam, hesitavam e procuravam ganhar tempo para pensar, mas de nada adiantava. De vez em quando, um dos que por escolha ou decisão chefiavam seu povo se suicidava com um tiro na cabeça, se atirava da janela ou se refugiava no exílio, para ali escrever grossos livros que ninguém lia, fazer longos discursos que de nada adiantavam. Não havia a menor dúvida, os poderosos não encontravam mais saída, os que não detinham o poder acreditavam estar perdidos. Os fortes sentiam que estavam perdendo suas forças, os fracos perdiam a vida a cada dia."

"Após anos de descontrolado uso de explosivos no mundo, a própria natureza começara a se rebelar; em pleno inverno fazia um calor estivai, as flores começavam a desabrochar; no fim da primavera, de repente, começava a nevar, e já era fim de maio quando violentos furacões passavam rugindo pelas ruínas consumidas pelo fogo de uma Europa destruída..."

"Muitas empresas se viram obrigadas a dispensar os funcionários; e em meio a um mundo de destroços, cuja reconstrução poderia ter proporcionado trabalho a todos, surgiu uma nova multidão de desempregados. Como todos os outros, também eles tinham a impressão de que aquele estado de coisas não podia durar, que não adiantava começar nada de novo, criar família, pôr filhos no mundo, nem mesmo plantar uma hortinha. Como todos, muitas vezes eles se perguntavam qual o sentido desse estranho carnaval que se chamava de vida. Existia realmente uma força do bem capaz de dominar todo o caos? Não havia ninguém que encontrasse uma resposta consoladora para essas perguntas. Muitos procuravam manter a alegria em meio à tristeza geral; conseguiam-no à custa de mulheres, bebidas e um sem-número de superstições. No entanto, por maior que fosse a orgia, mais profunda a embriaguez, mais misteriosas as fórmulas mágicas; em todos e em tudo sentia-se o reflexo lívido e breve do ocaso, que se espalhava como macabra aurora boreal. Banhadas em sua luz, todas as coisas se tornavam irreais e ilusórias. Não havia mais sentimentos autênticos, nem sensações profundas; tudo era superficialidade, desespero, tédio e repugnância. Uma repugnância terrível! "

"As grandes cidades morriam, e quando um carro atravessava veloz, buzinando pelas ruas destruídas, as criancinhas começavam a chorar. Em Nuremberg, uma cidade da Alemanha, um punhado de garotos brincava de "julgamento por crime de guerra", e um deles foi enforcado por descuido..."


"A Sexta-Feira Santa daquele ano foi um dia especialmente triste. O sol brilhava, o vento soprava leve, os bichinhos se aqueciam sobre as pedras quentes. O rosto das pessoas, no entanto, continuava fechado, taciturno. À tarde, no grande parque a oeste da cidade, crianças brincavam nos gramados e nos caminhos cobertos de cascalho. Seus gritos penetrantes soavam pelo límpido ar primaveril, chegando aos ouvidos de um homem que, sentado na grama no alto de uma colina e com o vale a seus pés, via três menininhas de mãos dadas, brincando de roda. Por muito tempo ficou atento à cantiga. O céu acima de sua cabeça estava claro, prateado. Nuvens pequeninas seguiam para oeste. O sol começara a se pôr. O rosto do homem estava calmo, ele espirava fundo; pensava na melhor maneira de morrer."


"O homem se chamava Jakob Steiner, seu terno era velho e amarrotado, a sola de suas pesadas botinas estava furada, o colarinho da camisa, puído. Jakob Steiner dava a impressão de decadência às pessoas de posse que moravam nas bonitas mansões do bairro e que, passando, viam-no deitado na grama. Um deles, acompanhado por uma jovem, disse que o homem lhe lembrava um espantalho caído. Falou bem alto, e Jakob Steiner ouviu. A mulher atravessou o gramado e veio perguntar se ele estava sentindo alguma coisa. Olhando para suas calças esgarçadas, colocou, muda, uma nota de cinco xelins em sua mão e saiu andando na ponta dos pés, enquanto ele continuou deitado, imóvel. Parecia que ela não queria fazer barulho, mas era apenas vergonha."

Pegou a folha de papel, dividiu-a em três colunas, escrevendo no alto da primeira: "Perdidos". Logo abaixo anotou:Minha mulherMinha filhaMinha casaMeu trabalhoHesitou, bebeu mais um gole e acrescentou:Minha esperançaTinha começado a esfriar. As menininhas voltaram para casa de braços dados; as flores ao redor tinham-se fechado. Steiner passou para a segunda coluna, no alto da qual havia escrito "Ganhos". Embaixo escreveu:Uma convicçãoHesitou mais uma vez, cobriu as letras cuidadosamente a lápis e pensou:Qual era afinal a convicção que ele ganhara? Que a única maneira de suportar a vida era deixá-la? Continuou a pensar. Pareceu-lhe que essa quintessência não era o resultado entre o ativo e o passivo de seu balancete. Por isso, riscou a palavra, substituindo-a pela frase:A impressão de que o mundo se tornou horrívelNa terceira coluna escreveu como título "Previsões para o futuro", e abaixo:SolidãoFome FrioGuerra ..."

"... Depois de algum tempo, balançou a cabeça e disse bem alto para si mesmo:— Sim, você tem razão...A cada palavra balançava a cabeça. Ele tinha razão... o mais acertado que podia fazer era acabar com a vida. Havia apenas algumas dificuldades técnicas a resolver para poder pôr em prática a sua resolução. Como é que se punha fim à vida? Podia meter uma bala na cabeça... se tivesse revólver. Ou tomar veneno, mas não tinha. Ou sentar na cozinha e abrir a torneira de gás, se ainda houvesse cozinha onde sentar... Claro que também era possível jogar-se na frente das rodas de um bonde ou de uma locomotiva, atirar-se da janela de um edifício, cortar os pulsos, mas todas essas técnicas de suicídio eram arriscadas. Se tivesse azar, ia escapar com a vida à qual estava querendo pôr fim, ficando então sujeito à implacável misericórdia alheia, pois as pessoas não conseguem deixar de ser caridosas e prestativas. A melhor coisa para um pobre-diabo como ele, pensou Steiner, era se enforcar. Em qualquer lugar, num canto por onde ninguém passasse, onde pudesse liquidar o assunto em paz, sem ser incomodado por ninguém..."

"A única coisa necessária para uma pessoa se enforcar era uma corda relativamente resistente. Steiner não tinha corda, mas tinha a certeza de que antes do anoitecer conseguiria encontrar uma. Talvez até pudesse arranjar emprestado... afinal, depois ainda seria perfeitamente usável. Talvez até lhe dessem um pedaço; uma corda de roupa, por exemplo. Podia também encontrar uma num jardim qualquer por onde passasse, com camisas penduradas para secar... Já ,meio tonto, Steiner não conseguiu mais se livrar dessa idéia: uma corda... uma árvore... em qualquer lugar; bem afastado da cidade... um pulo... um rápido e horrível arranco, e depois... a Paz!"

" — Entre — disse ela devagar, puxando-o para dentro. Ela era muito forte. Steiner quase perdeu o equilíbrio e foi cambaleando atrás dela. Ela abriu o portão com o pé e atravessou o jardim com ele.— A senhora tem um bocado de força para sua idade — disse ele.— Sou pedreira de profissão — disse ela orgulhosa. — Trabalho numa obra. Isso faz a gente ficar forte. Você também devia trabalhar. Se trabalhasse não teria chegado a este ponto.— Trabalhei — disse ele enquanto ela destrancava a porta. — Era marceneiro, trabalhava o dia inteiro.— Quando?— Antes da guerra — respondeu ele. — Ainda me lembro muito bem.— E depois?— Depois não fiz mais nada. Ao menos nada que prestasse. Antes da guerra fiz cadeiras e mesas, até algumas camas. Fiz muita esquadria de janela, muita mesmo. Na guerra só matei gente; mais nada. Nem conhecia as pessoas que matava. Talvez até houvesse carpinteiros entre eles. E bem provável, pois existem muitos no mundo. Matei carpinteiros que nem conhecia. Não foi nada divertido. Divertido era fazer camas e mesas; matar gente não era, não. Poderia ter trabalhado esses anos todos, mas a únicacoisa que fiz foi matar, e com isso desaprendi a trabalhar. Acho que nem entendo mais de carpintaria."

"O sr. Mamoulian ficou pensando e depois disse:— Ouça uma coisa: o senhor não pode me ajudar financeiramente, mas poderia fazê-lo de outra maneira. Enforque-se meia hora mais tarde e dê um pulo lá comigo para segurar o arame, para eu não rasgar minhas calças.— Não me interesso por suas calças!— Muito bem. Pense então nos olhos tristes da garotinha que no domingo procurará ovos em vão.— A garota também não me interessa!— Ora, mas isto não é gentil de sua parte. Não existe nada mais triste no mundo do que uma criança infeliz. Vê-la me parte o coração! A aflição da humanidade inteira parece estar estampada em seus olhos. — O sr. Mamoulian meteu a mão no bolso, tirou um lenço e assoou o nariz sentimentalmente. — Vivemos num mundo muito triste. Se nãoconseguirmos proporcionar um ao outro alguma alegria, não sei o que seráde nós!"

"— Se eu não o tivesse incomodado, o galho em cima do qual está sentado certamente já teria quebrado. Ou então o senhor teria refletido um pouco mais, e teria descido daí. Morto é que o senhor não estaria nunca!— Não? — disse Steiner, sarcástico. — E por que não?— Porque a morte não o teria levado. O senhor não vai morrer ainda. É cedo demais.— Ora, deixe de bobagem — riu Steiner. — Morro quando me der nacabeça.— Aí é que o senhor se engana — disse o pequenino -, armênio. — Cada um de nós tem sua hora exata. Cada um tem seu dia, nisso não existe arbitrariedade. Meu Deus, o que seria de nós, se cada um pudesse morrer na hora que resolvesse?— E como o senhor pode saber que ainda não chegou a minha hora?— Pelo cheiro — respondeu Mamoulian com delicadeza.— Hein?— Pelo cheiro — repetiu ele. — O senhor não tem o cheiro de morte, peculiar a todos os que estão para morrer. Vamos, desça logo para podermos conversar direito."

"— E eu, não tenho cheiro de morte?— Não — respondeu Mamoulian, escorregando inquieto de um lado para outro no galho. — Cheiro de falta de banho o senhor tem, de aguardente e de sopa de feijão. Não tomou sopa de feijão? Está vendo? Por isso tem esse cheiro; mas de morte, nunca."

"— Acho o senhor bem-humorado demais para ter tido grandes desgostos— volveu Steiner baixinho, meio assustado.— Meu jovem amigo com cheiro de feijão — disse Mamoulian, que já não estava muito sóbrio —, meu jovem amigo a quem a morte não quis, ouça uma coisa: O senhor perdeu sua casa; eu também. O senhor perdeu a profissão; eu também. Sua filhinha morreu; eu nunca tive filha. O senhor não tem dinheiro; eu também não. Sua esposa morreu; eu nunca tive esposa, mas a pessoa a quem amava não morreu; eu é que morri para ela, meu jovem amigo com cheiro de sopa de feijão, e isso também não é lá coisa das mais agradáveis.— Mas a esperança — disse Steiner, rodando seu copo —, a esperança osenhor não perdeu.— Nem o senhor tampouco.— Eu, sim.— O senhor não perdeu a esperança — retrucou Mamoulian —, mas a coragem, o que é uma grande diferença. Ninguém perde a esperança enquanto está vivo. O senhor também não. Ora, logo o senhor! Afinal, por que quis se suicidar?— Porque acho que no além a vida deve ser melhor.— Porque tinha a esperança de que fosse melhor; assim como agora, lá no fundo do coração, o senhor já está esperando que nos próximos tempos muita coisa venha a melhorar. E vai mesmo!— Poderia saber como? — indagou Steiner. — Com toda a crise de desemprego, falta de dinheiro, com a situação política, com tudo, enfim!