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segunda-feira, 11 de junho de 2018

AINDA RESTA UMA ESPERANÇA (Livro do meu autor favorito J.M.Simmel)



J.M. SIMMEL é um dos meus autores da grande literatura mundial que eu mais gosto. Sou colecionadora de suas obras. Amo suas narrativas cheias de sentimento intensos, reais, etc. Enfim.. suas obras sempre me fascinaram e tem uma "Q" nelas porque me faz sentir uma espécie de "Deja vu" ou regressão... muitas vezes eu consigo sentir o cheiro das comidas, a sensação do tempo, clima na pele uma espécie de hipnose voluntária que eu vou lendo e me vendo ao mesmo tempo na Áustria, Alemanha ou Rússia (leste europeu) antes e pós segunda grande guerra... é muito intenso!! J.M.Simmel tem este poder em mim que fascina e ao mesmo tempo me assusta.


“Este livro conta a história de um mundo em profunda crise econômica: a Alemanha do pós-guerra, derrotada e destruída. Seus personagens são pessoas de vida sem horizontes: um desempregado que só vê solução no alcoolismo e no suicídio; um milionário que perdeu tudo; uma mulher que se prostitui. Mas ao mesmo tempo esta é uma história de esperança, cheia de observações irônicas sobre a fraqueza das pessoas que não percebem que a solução para os males do mundo e para seus próprios males está em cada uma delas: são os sentimentos de solidariedade e os valores morais.”

As coisas em Viena no pós guerra (segunda guerra mundial) não são nada fáceis para ninguém, todos vivem uma vida de miséria, sem esperança, e Jakob Steiner é só mais um nesse grande número que é os sem esperanças, mas Jakob chega a conclusão de que há um jeito de tudo ficar 'bem', se matar! 

Quando Jakob vai tentar se matar, ele conhece o adorável e otimista Mamoulian, e após não conseguir se matar eles se tornam grandes amigos.

No outro dia Jakob se reencontra com um rosto conhecido, ele se encontra com Magdalena, a senhora que o acolheu antes dele tentar se matar.

Ela foi despejada da casa que estava morando (pois os antigos donos a deixaram morar lá por um tempo, mas o trato era até eles precisarem voltar a morar lá) e a convida para morar no porão de Mamoulian, pois eles precisavam de uma mulher para fazerem os serviços domésticos que 'só elas sabem fazer', mas eles não podiam pagar ela com nada, a não ser a moradia.

Após uns dias, Jakob tem a ideia deles se juntarem e reconstruir a casa de Mamoulian (que havia sido bombardeada na guerra, por isso estavam morando no porão), e mesmo sem dinheiro, eles resolvem fazer isso. 
É claro que infortúnios acontecem e a trama não fica só nisso.

Mas se os 3 amigos irão conseguir reconstruir a casa? O que são esses infortúnios? A situação financeira deles vai melhorar? Leiam Ainda Resta Uma Esperança e descubram por si mesmos.

Bem, os personagens do livros são MUITO bons, eles são MUITO diferentes na personalidade principal que tem, um é pessimista, outro realista, e outro um grande otimista, mas é isso que fazem com que se tornem tão grande amigos durante a história, um completa o outro! 

Jakob, o pessimista, é de longe o melhor personagem do livro, um dos que mais me identifiquei (o que é estranho, pois também me identifiquei demais com Mamoulian, o otimista, sou muito bipolar mesmo).

Mas então, ele é um bêbado, que não vê motivo nenhum para viver (o que resulta em vários quotes maravilhosos), e por não ver motivo para viver, tenta se matar, como já falei, ele não consegue, mas como? Leiam o livro e descubram.
Após tentar se matar, não conseguir, conhecer Mamoulian, morar com ele e Dona Magdalena, ele muda de pensamento e vê a beleza no mundo, até mesmo nesse mundo horroroso e cheio de miséria do pós guerra.

O otimista Mamoulian, e a segunda pessoa que mais me identifiquei, é um personagem difícil de descrever, mas porque isso? Bem ele me irritou em muitas partes no livro, mas mesmo assim consegui gostar dele, (mais uma coisa estranha sobre mim, gostar de personagem que me irritam).
Ele é um amor de pessoa, era rico e cheio de 'amigos', mas após perder o dinheiro, perdeu os 'bons amigos' também, porém isso não o desanimou de viver, ser otimista, e tentar conquistar o coração de outros seres humaninhos, e é isso o que ele faz com Jakob, Dona Magdalena, ao formar uma família com eles.

Dona Magdalena, é a segunda personagem que mais me cativou, mas também, como uma dona dessas, como não se cativar não é mesmo?! A personagem me fez chorar horrores, tudo por causa de seu passado, ela perdeu o marido, e o filho foi para guerra e nunca mais voltou.

Ela é uma mulher forte, e que luta por tudo o que quer e ajuda MUITO seus dois amigos. 

O livro é legal, mas ele tem uma narrativa lenta, o que deixa algumas partes cansativas e monótonas.

QUOTES

"Sexta-Feira Santa sempre foi um dia triste, mas naquele ano foi especialmente triste. Árvores e arbustos estavam em flor; o gramado cobria-se de relva nova e verde, o sol brilhava num céu sem nuvens, iluminando todas as casas e ruas da grande cidade. Mesmo assim, uma tristeza imensa se apoderou dos homens. Eles não viam as flores, nem os pardais nos galhos ainda negros e escuros das árvores do parque, os vestidos alegres das mulheres, as muitas lojas que expunham seus objetos preciosos. Os operários nas fábricas sentiam as mãos pesadas como chumbo; os funcionários dos escritórios das grandes repartições, no intervalo do almoço, deitavam o rosto pálido, desanimado, em cima dos braços cruzados e dormiam de cansaço; os camponeses, em suas terras, atravessavam com imensa amargura os campos arados."

"Ninguém naquele ano conseguiu ser alegre de verdade. Até as crianças tinham a testa enrugada de preocupações e os cachorros, que sempre corriam felizes, se esgueiravam acabrunhados, mal ousando latir. Tudo estava tão triste! Quem fosse pensar no motivo chegava à conclusão de que os homens não ousavam mais ser alegres por medo. Medo do futuro e de tudo que ele lhes poderia trazer de violência, novas destruições, injustiças, dor e morte. Temiam não só os moradores da grande cidade de Viena, onde se passa a história que a seguir relataremos, mas também os de outras cidades do continente, de todos os continentes, de todo o mundo. Não havia ninguém que não estivesse com medo."

"Todos os dias, a toda hora, uma avalancha de notícias inundava a cidade, provocando novos receios, despertando pavor no coração dos homens. Na Europa, cuja face ainda trazia as feridas recentes de uma guerra cruenta, soldados de muitas nações, que preferiam estar em casa, montavam guarda de fuzil na mão. Suspeitavam e desconfiavam uns dos outros, e seus comandantes, que tinham vindo para apaziguar um povo derrotado, falavam em guerra. Na Palestina, os árabes matavam diariamente um grande número de judeus e diariamente judeus assaltavam bairros árabes. Ambos invocavam o mundo como testemunhas de uma luta justa. Na Itália, os operários atiravam uns contra os outros, na Eslováquia e nos Bálcãs também. Na França, centenas de milhares estavam em greve. Na China, há anos, homens do mesmo sangue viviam se matando, e milhões passavam fome, implorando um punhado de arroz. Pelo mundo inteiro ressoava o trovejar de aviões de guerra e os passos de marcha de colunas fanatizadas.

Nos Estados Unidos, foi instituído o serviço militar obrigatório; nos laboratórios ocidentais, cientistas trabalhavam noite e dia nos piores de todos os meios de destruição, para alcançar os americanos que, neste setor, ocupavam a dianteira. No mundo inteiro partidos políticos se combatiam, prometendo a seus adeptos mundos e fundos, coisas em que eles mesmos não ousavam acreditar. Os homens estavam desnorteados e alguns começavam a compreender que havia chegado uma era em que tudo teria de se modificar; que se encontravam diante de uma imensa transformação que viria com o fim do segundo milênio da era cristã. Não havia mais para onde fugir; não havia como se proteger. A cada minuto, a cada respiração da humanidade, os acontecimentos se precipitavam. Sabia-se que muitas coisas iam acabar, previa-se e esperava-se que outras fossem surgir."

"Podia-se ignorar tudo o que abalava os ânimos, por algum tempo, mas seria impossível manter-se alheio para sempre. A todos, justos e injustos, forças inconcebíveis, que os homens chamavam de "circunstâncias", acabavam obrigando a tomar partido, o que era uma desgraça enorme, pois a maioria dos homens havia muito tinha perdido essa capacidade quase por completo. Resistiam, se negavam, hesitavam e procuravam ganhar tempo para pensar, mas de nada adiantava. De vez em quando, um dos que por escolha ou decisão chefiavam seu povo se suicidava com um tiro na cabeça, se atirava da janela ou se refugiava no exílio, para ali escrever grossos livros que ninguém lia, fazer longos discursos que de nada adiantavam. Não havia a menor dúvida, os poderosos não encontravam mais saída, os que não detinham o poder acreditavam estar perdidos. Os fortes sentiam que estavam perdendo suas forças, os fracos perdiam a vida a cada dia."

"Após anos de descontrolado uso de explosivos no mundo, a própria natureza começara a se rebelar; em pleno inverno fazia um calor estivai, as flores começavam a desabrochar; no fim da primavera, de repente, começava a nevar, e já era fim de maio quando violentos furacões passavam rugindo pelas ruínas consumidas pelo fogo de uma Europa destruída..."

"Muitas empresas se viram obrigadas a dispensar os funcionários; e em meio a um mundo de destroços, cuja reconstrução poderia ter proporcionado trabalho a todos, surgiu uma nova multidão de desempregados. Como todos os outros, também eles tinham a impressão de que aquele estado de coisas não podia durar, que não adiantava começar nada de novo, criar família, pôr filhos no mundo, nem mesmo plantar uma hortinha. Como todos, muitas vezes eles se perguntavam qual o sentido desse estranho carnaval que se chamava de vida. Existia realmente uma força do bem capaz de dominar todo o caos? Não havia ninguém que encontrasse uma resposta consoladora para essas perguntas. Muitos procuravam manter a alegria em meio à tristeza geral; conseguiam-no à custa de mulheres, bebidas e um sem-número de superstições. No entanto, por maior que fosse a orgia, mais profunda a embriaguez, mais misteriosas as fórmulas mágicas; em todos e em tudo sentia-se o reflexo lívido e breve do ocaso, que se espalhava como macabra aurora boreal. Banhadas em sua luz, todas as coisas se tornavam irreais e ilusórias. Não havia mais sentimentos autênticos, nem sensações profundas; tudo era superficialidade, desespero, tédio e repugnância. Uma repugnância terrível! "

"As grandes cidades morriam, e quando um carro atravessava veloz, buzinando pelas ruas destruídas, as criancinhas começavam a chorar. Em Nuremberg, uma cidade da Alemanha, um punhado de garotos brincava de "julgamento por crime de guerra", e um deles foi enforcado por descuido..."


"A Sexta-Feira Santa daquele ano foi um dia especialmente triste. O sol brilhava, o vento soprava leve, os bichinhos se aqueciam sobre as pedras quentes. O rosto das pessoas, no entanto, continuava fechado, taciturno. À tarde, no grande parque a oeste da cidade, crianças brincavam nos gramados e nos caminhos cobertos de cascalho. Seus gritos penetrantes soavam pelo límpido ar primaveril, chegando aos ouvidos de um homem que, sentado na grama no alto de uma colina e com o vale a seus pés, via três menininhas de mãos dadas, brincando de roda. Por muito tempo ficou atento à cantiga. O céu acima de sua cabeça estava claro, prateado. Nuvens pequeninas seguiam para oeste. O sol começara a se pôr. O rosto do homem estava calmo, ele espirava fundo; pensava na melhor maneira de morrer."


"O homem se chamava Jakob Steiner, seu terno era velho e amarrotado, a sola de suas pesadas botinas estava furada, o colarinho da camisa, puído. Jakob Steiner dava a impressão de decadência às pessoas de posse que moravam nas bonitas mansões do bairro e que, passando, viam-no deitado na grama. Um deles, acompanhado por uma jovem, disse que o homem lhe lembrava um espantalho caído. Falou bem alto, e Jakob Steiner ouviu. A mulher atravessou o gramado e veio perguntar se ele estava sentindo alguma coisa. Olhando para suas calças esgarçadas, colocou, muda, uma nota de cinco xelins em sua mão e saiu andando na ponta dos pés, enquanto ele continuou deitado, imóvel. Parecia que ela não queria fazer barulho, mas era apenas vergonha."

Pegou a folha de papel, dividiu-a em três colunas, escrevendo no alto da primeira: "Perdidos". Logo abaixo anotou:Minha mulherMinha filhaMinha casaMeu trabalhoHesitou, bebeu mais um gole e acrescentou:Minha esperançaTinha começado a esfriar. As menininhas voltaram para casa de braços dados; as flores ao redor tinham-se fechado. Steiner passou para a segunda coluna, no alto da qual havia escrito "Ganhos". Embaixo escreveu:Uma convicçãoHesitou mais uma vez, cobriu as letras cuidadosamente a lápis e pensou:Qual era afinal a convicção que ele ganhara? Que a única maneira de suportar a vida era deixá-la? Continuou a pensar. Pareceu-lhe que essa quintessência não era o resultado entre o ativo e o passivo de seu balancete. Por isso, riscou a palavra, substituindo-a pela frase:A impressão de que o mundo se tornou horrívelNa terceira coluna escreveu como título "Previsões para o futuro", e abaixo:SolidãoFome FrioGuerra ..."

"... Depois de algum tempo, balançou a cabeça e disse bem alto para si mesmo:— Sim, você tem razão...A cada palavra balançava a cabeça. Ele tinha razão... o mais acertado que podia fazer era acabar com a vida. Havia apenas algumas dificuldades técnicas a resolver para poder pôr em prática a sua resolução. Como é que se punha fim à vida? Podia meter uma bala na cabeça... se tivesse revólver. Ou tomar veneno, mas não tinha. Ou sentar na cozinha e abrir a torneira de gás, se ainda houvesse cozinha onde sentar... Claro que também era possível jogar-se na frente das rodas de um bonde ou de uma locomotiva, atirar-se da janela de um edifício, cortar os pulsos, mas todas essas técnicas de suicídio eram arriscadas. Se tivesse azar, ia escapar com a vida à qual estava querendo pôr fim, ficando então sujeito à implacável misericórdia alheia, pois as pessoas não conseguem deixar de ser caridosas e prestativas. A melhor coisa para um pobre-diabo como ele, pensou Steiner, era se enforcar. Em qualquer lugar, num canto por onde ninguém passasse, onde pudesse liquidar o assunto em paz, sem ser incomodado por ninguém..."

"A única coisa necessária para uma pessoa se enforcar era uma corda relativamente resistente. Steiner não tinha corda, mas tinha a certeza de que antes do anoitecer conseguiria encontrar uma. Talvez até pudesse arranjar emprestado... afinal, depois ainda seria perfeitamente usável. Talvez até lhe dessem um pedaço; uma corda de roupa, por exemplo. Podia também encontrar uma num jardim qualquer por onde passasse, com camisas penduradas para secar... Já ,meio tonto, Steiner não conseguiu mais se livrar dessa idéia: uma corda... uma árvore... em qualquer lugar; bem afastado da cidade... um pulo... um rápido e horrível arranco, e depois... a Paz!"

" — Entre — disse ela devagar, puxando-o para dentro. Ela era muito forte. Steiner quase perdeu o equilíbrio e foi cambaleando atrás dela. Ela abriu o portão com o pé e atravessou o jardim com ele.— A senhora tem um bocado de força para sua idade — disse ele.— Sou pedreira de profissão — disse ela orgulhosa. — Trabalho numa obra. Isso faz a gente ficar forte. Você também devia trabalhar. Se trabalhasse não teria chegado a este ponto.— Trabalhei — disse ele enquanto ela destrancava a porta. — Era marceneiro, trabalhava o dia inteiro.— Quando?— Antes da guerra — respondeu ele. — Ainda me lembro muito bem.— E depois?— Depois não fiz mais nada. Ao menos nada que prestasse. Antes da guerra fiz cadeiras e mesas, até algumas camas. Fiz muita esquadria de janela, muita mesmo. Na guerra só matei gente; mais nada. Nem conhecia as pessoas que matava. Talvez até houvesse carpinteiros entre eles. E bem provável, pois existem muitos no mundo. Matei carpinteiros que nem conhecia. Não foi nada divertido. Divertido era fazer camas e mesas; matar gente não era, não. Poderia ter trabalhado esses anos todos, mas a únicacoisa que fiz foi matar, e com isso desaprendi a trabalhar. Acho que nem entendo mais de carpintaria."

"O sr. Mamoulian ficou pensando e depois disse:— Ouça uma coisa: o senhor não pode me ajudar financeiramente, mas poderia fazê-lo de outra maneira. Enforque-se meia hora mais tarde e dê um pulo lá comigo para segurar o arame, para eu não rasgar minhas calças.— Não me interesso por suas calças!— Muito bem. Pense então nos olhos tristes da garotinha que no domingo procurará ovos em vão.— A garota também não me interessa!— Ora, mas isto não é gentil de sua parte. Não existe nada mais triste no mundo do que uma criança infeliz. Vê-la me parte o coração! A aflição da humanidade inteira parece estar estampada em seus olhos. — O sr. Mamoulian meteu a mão no bolso, tirou um lenço e assoou o nariz sentimentalmente. — Vivemos num mundo muito triste. Se nãoconseguirmos proporcionar um ao outro alguma alegria, não sei o que seráde nós!"

"— Se eu não o tivesse incomodado, o galho em cima do qual está sentado certamente já teria quebrado. Ou então o senhor teria refletido um pouco mais, e teria descido daí. Morto é que o senhor não estaria nunca!— Não? — disse Steiner, sarcástico. — E por que não?— Porque a morte não o teria levado. O senhor não vai morrer ainda. É cedo demais.— Ora, deixe de bobagem — riu Steiner. — Morro quando me der nacabeça.— Aí é que o senhor se engana — disse o pequenino -, armênio. — Cada um de nós tem sua hora exata. Cada um tem seu dia, nisso não existe arbitrariedade. Meu Deus, o que seria de nós, se cada um pudesse morrer na hora que resolvesse?— E como o senhor pode saber que ainda não chegou a minha hora?— Pelo cheiro — respondeu Mamoulian com delicadeza.— Hein?— Pelo cheiro — repetiu ele. — O senhor não tem o cheiro de morte, peculiar a todos os que estão para morrer. Vamos, desça logo para podermos conversar direito."

"— E eu, não tenho cheiro de morte?— Não — respondeu Mamoulian, escorregando inquieto de um lado para outro no galho. — Cheiro de falta de banho o senhor tem, de aguardente e de sopa de feijão. Não tomou sopa de feijão? Está vendo? Por isso tem esse cheiro; mas de morte, nunca."

"— Acho o senhor bem-humorado demais para ter tido grandes desgostos— volveu Steiner baixinho, meio assustado.— Meu jovem amigo com cheiro de feijão — disse Mamoulian, que já não estava muito sóbrio —, meu jovem amigo a quem a morte não quis, ouça uma coisa: O senhor perdeu sua casa; eu também. O senhor perdeu a profissão; eu também. Sua filhinha morreu; eu nunca tive filha. O senhor não tem dinheiro; eu também não. Sua esposa morreu; eu nunca tive esposa, mas a pessoa a quem amava não morreu; eu é que morri para ela, meu jovem amigo com cheiro de sopa de feijão, e isso também não é lá coisa das mais agradáveis.— Mas a esperança — disse Steiner, rodando seu copo —, a esperança osenhor não perdeu.— Nem o senhor tampouco.— Eu, sim.— O senhor não perdeu a esperança — retrucou Mamoulian —, mas a coragem, o que é uma grande diferença. Ninguém perde a esperança enquanto está vivo. O senhor também não. Ora, logo o senhor! Afinal, por que quis se suicidar?— Porque acho que no além a vida deve ser melhor.— Porque tinha a esperança de que fosse melhor; assim como agora, lá no fundo do coração, o senhor já está esperando que nos próximos tempos muita coisa venha a melhorar. E vai mesmo!— Poderia saber como? — indagou Steiner. — Com toda a crise de desemprego, falta de dinheiro, com a situação política, com tudo, enfim!


sexta-feira, 8 de julho de 2016

EDITORA ALEMÃ PLANEJA REPUBLICAR VERSÃO ORIGINAL DE "MINHA LUTA" LIVRO ESCRITO POR ADOLF HITLHER

Se publicar uma edição em português tenho interesse em adquirir porque é fascinante estudar uma mente brilhante como foi do ditador antissemita Adolf Hitler. Sem sombras de dúvidas ele foi um homem do mal, mas genial. Suas ideologias políticas de EXTREMA DIREITA só trouxeram mal a humanidade, sofrimento e horror. É por estas e outras que eu sou centro-esquerda. Sou contra tudo que ele fez e seus pensamentos eram de um facínora, monstro, etc. Mas lendo a gente aprende o que não se deve permitir voltar a ser praticado no mundo. Roberta Carrilho

Intenção da Editora Schelm é relançar manifesto antissemita de Hilter sem comentários críticos de historiadores. Embora especialistas apontem que é hora de Alemanha lidar com passado nazista, editora pode ser alvo da Justiça.


Exemplar de "Minha Luta" assinado por Hitler


Em meio a grande agitação, o livro Minha Luta, de Adolf Hitler, voltou às prateleiras das livrarias alemãs em janeiro deste ano 2016 – como edição comentada. A primeira tiragem, com cerca de 3,7 mil notas de historiadores que contextualizam a obra, esgotou em poucas semanas.

A publicação da edição comentada se tornou possível após os direitos autorais do livro terem expirado e a obra ter caído em domínio público, 70 anos após a morte do ex-ditador nazista. Em termos legais, a obra é considerada sediciosa. No entanto, os comentários críticos do Instituto de História Contemporânea, sediado em Munique, possibilitaram sua publicação de forma legal.

Esse não é necessariamente o caso da nova edição que a editora alemã de direita Schelm pretende lançar em meados do ano – em sua forma original, sem contextualização crítica.

Baseada em Leipzig, a Schelm já está aceitando encomendas em seu site para a "reimpressão inalterada", que, segundo os editores, vai servir como fonte de educação pública e documentação histórica para o universo acadêmico.

Os planos da Schelm foram anunciados numa livraria de Forchheim, ao norte de Nurembergue. "A editora divulgou que planejava vender a versão original e anunciou o livro com uma imagem de Hitler", afirmou à DW Christopher Rosenbusch, porta-voz do Ministério Público local, que indiciou uma investigação. Um anúncio do tipo já pode ter consequências legais.

De acordo com as leis alemãs contra a incitação ao ódio racial, republicar o manifesto original é ilegal. Os investigadores avaliam agora se vão apresentar queixa contra a editora.

Estratégias de dissimulação
A Schelm argumentou que planeja publicar o texto com um comentário como prefácio, o que não seria suficiente para que seja considerado material de pesquisa. "Falar de educação pública nesse caso não faz o menor sentido", afirma Hajo Funke, professor do Instituto de Ciências Políticas em Berlim. "Trata-se de um texto antissemita, que só serve para criar agitação."

Na Alemanha, qualquer pessoa que incite o ódio contra um indivíduo devido à sua origem nacional, racial, religiosa ou étnica pode ser acusada de perturbação da ordem pública. Qualquer glorificação do nazismo é passível de processo judicial.

No entanto, estudantes ou acadêmicos que usarem Minha Luta como parte de seus trabalhos acadêmicos não são alvo da Justiça. Por essa razão – e para se proteger legalmente – a Schelm está tentando vender sua edição como um serviço acadêmico e, em seu site, a editora se distanciou de passagens odiosas do livro.

Fala por si só, no entanto, o fato de que o domínio volkstod.com pertença à editora, algo que pode ser traduzido como "morte do povo.com", e de que a Schelm publique somente livros de orientação de direita.

"Essas estratégias de dissimulação sempre estiveram em jogo", disse Kai Brinckmeier, especialista em extremismo de direita. "Havia um site na internet, semelhante ao Wikipedia, com uma lista de tópicos destinados a negar o Holocausto. Os estudantes que buscavam informações na web corriam o risco de levar as informações a sério, caindo assim na armadilha dos neonazistas."

Edição comentada de "Minha Luta" publicada pelo Instituto de História Contemporânea de Munique pesa cinco quilos

Proibição não é resposta
Apesar do conteúdo controverso, não houve um banimento específico da publicação do livro desde que entrou em domínio público. "Mas um banimento não iria, necessariamente, evitar que o ideário se enraizasse na cabeça de muitas pessoas", afirma Brinckmeier. Para o especialista, no entanto, há o risco de que alguém que, a princípio, não tinha nada a ver com o movimento de extrema direita possa acabar levando tais pontos de vista em consideração por meio da distribuição do livro.

Horst Pöttker, professor da Universidade de Hamburgo, também disse considerar que uma proibição não seria eficaz. Segundo ele, a versão comentada é um bom meio-termo. Ele mesmo quis publicar uma edição semelhante há alguns anos, mas na época os direitos autorais ainda estavam em vigor.

"Na Alemanha, teme-se uma onda de extremismo de direita [se o livro for publicado], mas esse não é o caso em outros países. Até mesmo em Israel, Minha Luta é vendido na versão original", explicou o professor.

Para Pöttker, a reação na Alemanha mostra que cidadãos do país não sabem lidar com o passado nazista. "Existe uma necessidade urgente na sociedade de se encontrar, finalmente, um caminho apropriado para resgatar esse passado, cultural e publicamente", afirmou Pöttker. "Minha Luta faz parte do discurso público. E agora a ala de extrema direita tenta fazer suas próprias incursões."

Minha Luta em contexto histórico
Minha Luta não é somente uma diatribe. O livro também contém ideias que teriam agradado a alguns membros de classes alemãs com maior nível educacional na época de Hitler. "[Hitler] escreveu que se deveria ler muito, e Munique é descrita como uma cidade linda", aponta Pöttker.

Hoje, o texto pode ser colocado claramente num contexto ideologicamente racista, que levou a campos de concentração e extermínio de judeus. "O fato de Hitler ter escrito sobre sua ideologia racial e Auschwitz em Minha Luta serve para provar que todos aqueles que negam o Holocausto estão errados", acrescentou o professor.

Apesar de suas objeções, Funke acredita que a editora Schelm está preenchendo uma lacuna de mercado com seus planos de uma edição não comentada. "A versão com comentários críticos é muito instrutiva, mas também muito assustadora", afirma o cientista político, acrescentando que ela não seria apropriada para uma interpretação crítica ampla. "A análise crítica poderia, facilmente, ter sido feita ao longo de 200 páginas."

Funke diz estar interessado em como o caso Schelm vai avançar, porque se queixas forem apresentadas, isso pode acabar tendo efeito sobre a edição comentada publicada pelo Instituto de História Contemporânea. "Mesmo com seus comentários, o texto também poderia ser visto como um meio de glorificar os conteúdos do livro. Nesse caso, ele também não teria uma base legal sólida", conclui.












Fonte: http://www.dw.com/pt/editora-alem%C3%A3-planeja-republicar-vers%C3%A3o-original-de-minha-luta/a-19312356